
Despertar na Dor: A Redenção da Ex-Esposa
Capítulo 2
O telefone tocou, o som estridente cortando o silêncio do jantar.
Na tela, o nome "Clara" brilhava.
Leo suspirou, um som de aborrecimento.
"De novo não," disse a sua mãe, Sílvia, revirando os olhos. "Ela não pode deixar-te em paz por uma noite?"
"É o aniversário da Júlia, pelo amor de Deus," acrescentou a sua irmã, Júlia, fazendo um beicinho para a câmara do seu telemóvel enquanto tirava uma selfie com o bolo.
Leo atendeu a chamada, colocando-a no altifalante por hábito.
"Leo! É o pai!" A voz de Clara estava cheia de pânico, ofegante. "Ele não está a respirar bem, ele caiu!"
Do outro lado da linha, eu podia ouvi-los. Podia ouvir a música, o riso, o tinir dos copos.
"Calma, Clara," disse Leo, a sua voz perigosamente calma. "Ele tomou os medicamentos hoje?"
"Sim, sim, mas é diferente desta vez! Ele está com dor no peito, o braço dele... Leo, por favor, vem para cá. Tu és médico, sabes o que fazer."
Eu estava ajoelhada ao lado do meu pai, o corpo dele tremia no chão da sala. O rosto dele estava pálido, os lábios a ficarem azuis.
Houve uma pausa. Ouvi a voz de Sílvia, um sussurro irritado. "Não vás. Vais estragar a festa. Diz-lhe para chamar uma ambulância."
"Clara," disse Leo, a sua voz agora firme, distante. "Estou no meio de algo importante. Não posso sair agora. Chama uma ambulância. Eles saberão o que fazer."
"Importante?" gritei, as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto. "O meu pai está a morrer, e tu estás no meio de algo importante?"
"Não sejas dramática," ele retorquiu, a paciência a esgotar-se. "Estás a exagerar como sempre. Liga para o 112. Tenho de ir agora."
Ele desligou.
O silêncio na sala era ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração difícil do meu pai.
Liguei para a emergência, as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o telefone. Eles disseram que uma ambulância estava a caminho, mas que havia muito trânsito.
Cada segundo parecia uma hora.
Segurei a mão do meu pai. Estava fria.
"Aguenta, pai. Por favor, aguenta," sussurrei.
Os olhos dele encontraram os meus, uma última faísca de reconhecimento. Depois, nada.
Quando a ambulância finalmente chegou, era tarde demais.
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