
Despertar na Dor: A Redenção da Ex-Esposa
Capítulo 3
O hospital cheirava a desinfetante e a tristeza.
Sentei-me numa cadeira de plástico desconfortável, o meu corpo dormente. Um médico jovem com olheiras aproximou-se de mim.
"Senhora Clara? Lamento muito. Fizemos tudo o que podíamos."
As palavras dele flutuaram à minha volta, sem realmente me atingirem. Eu já sabia. Tinha sabido no momento em que a mão do meu pai ficou inerte na minha.
Leo chegou uma hora depois, com Sílvia e Júlia a reboque.
Eles tinham ensaiado as suas expressões de luto.
"Meu amor, eu vim assim que soube," disse Leo, tentando abraçar-me.
Afastei-me. O cheiro do perfume caro dele e do álcool no seu hálito embrulhou-me o estômago.
"Onde estavas?" A minha voz saiu rouca, vazia.
"Eu estava numa consulta crítica com um paciente, o meu telemóvel estava no silêncio," mentiu ele, sem sequer pestanejar. "A minha mãe ligou-me assim que viu a tua chamada perdida."
Sílvia aproximou-se, colocando uma mão no meu ombro. A mão dela era fria, as unhas perfeitamente feitas.
"Querida, estamos tão tristes. O teu pai era um homem tão bom," disse ela, a sua voz pingando uma falsa simpatia. "Mas estas coisas acontecem. Ele já estava doente, não é?"
Júlia ficou para trás, a olhar para o telemóvel, provavelmente a pensar numa legenda triste para a sua próxima publicação.
Eu não disse nada. Apenas olhei para eles, três estranhos a representarem um papel numa peça que eu não queria ver.
A mentira de Leo era tão óbvia, tão insultuosa. Uma consulta crítica. A música, o riso que ouvi ao telefone contavam uma história diferente.
Mas eu estava demasiado cansada para discutir. A dor era uma manta pesada, a sufocar tudo o resto.
"Quero ficar sozinha," disse eu, finalmente.
Leo pareceu aliviado.
"Claro, querida. Vamos tratar de todos os arranjos. Não te preocupes com nada."
Ele beijou a minha testa, um gesto vazio, e depois eles foram-se embora, deixando-me sozinha com o eco das suas mentiras e o silêncio ensurdecedor da morte do meu pai.
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