
Despertar de Uma Mulher
Capítulo 2
A casa estava silenciosa, exceto pelo zumbido suave da geladeira. Eu gostava desse silêncio, era uma paz que eu raramente tinha. Marcos estava fora, em uma de suas "reuniões de negócios" de sexta à noite, que ultimamente pareciam acontecer com mais frequência do que o normal.
Eu estava sentada no sofá, o notebook dele no meu colo. O meu tinha quebrado na semana passada e eu precisava urgentemente enviar um e-mail de trabalho. Marcos não se importava que eu usasse o dele, ele sempre dizia:
"O que é meu é seu, meu amor."
Uma mentira. Eu descobriria isso em breve.
Enquanto eu digitava o e-mail, uma notificação de mensagem piscou no canto da tela. O nome era "Letícia" . Meu dedo parou sobre o teclado. Eu não conhecia nenhuma Letícia. Pelo menos, nenhuma que mandaria mensagem para ele a essa hora da noite.
A curiosidade foi mais forte que eu. Um único clique. Foi só o que precisei para que meu mundo começasse a desmoronar.
A janela de mensagens se abriu, revelando um histórico de conversas que se estendia por meses.
"Amor, já estou com saudades."
A mensagem tinha acabado de chegar. As bochechas dela na foto do perfil eram rosadas e ela sorria, um sorriso que parecia zombar de mim através da tela.
Meu coração começou a bater descontrolado. Minhas mãos tremiam. Eu rolei para cima, lendo as mensagens mais antigas, cada palavra me afundando mais em um poço de náusea e choque.
Não era apenas flerte. Eram planos, encontros secretos, fotos íntimas que eles trocavam. Fotos dela em hotéis que eu reconhecia, lugares onde Marcos me disse que estava em conferências. Fotos dele, sorrindo de um jeito que ele não sorria para mim há anos.
"Você é incrível na cama, muito melhor que ela" , dizia uma mensagem dela.
"Ela nem desconfia. A cega não vê nada" , ele respondeu uma vez.
A palavra "cega" me atingiu com força. Por três anos, eu fiquei cega de verdade, depois de um acidente de carro que quase me tirou a vida. Marcos ficou ao meu lado, cuidou de mim, me prometeu o mundo. Ele foi meu herói. Minha visão voltou aos poucos, um milagre segundo os médicos, mas para ele, eu continuei sendo a "cega" . A coitada, a dependente. Alguém que nunca suspeitaria.
Ele se aproveitou da minha condição, da minha confiança. Ele me usou.
Eu continuei lendo, cada mensagem era um novo golpe. Eles falavam sobre mim. Zombavam de mim.
Letícia: "E a sua esposa? Ela não vai descobrir sobre nós?"
Marcos: "Clara? Relaxa. Ela confia em mim de olhos fechados. Literalmente, por muito tempo. Ela é ingênua, nunca vai saber de nada. Só serve para cuidar da casa e de mim."
Marcos: "Além disso, o dinheiro dela paga por tudo isso. O apartamento, as nossas viagens. Seria burrice estragar isso agora."
Meu estômago se revirou. O ar ficou pesado, difícil de respirar. Então era isso. Eu não era a esposa amada, eu era um caixa eletrônico. Uma cuidadora conveniente. A tola que financiava a vida dupla do marido.
Fechei o notebook com um baque surdo. O som ecoou na sala silenciosa. Levantei-me, minhas pernas fracas. Fui até a cozinha e bebi um copo de água, mas a secura na minha garganta não passava. Era o gosto amargo da traição.
Uma hora depois, ouvi o barulho da chave na porta. Forcei meu rosto a relaxar, a parecer normal. Guardei a raiva e a dor bem fundo, onde ele não pudesse ver.
Ele entrou, sorrindo. O mesmo sorriso falso que ele dava nas fotos com ela.
"Oi, meu amor" , ele disse, vindo me abraçar.
Ele me deu um beijo na testa, um gesto que antes me confortava, mas que agora me causava repulsa. O cheiro dele era uma mistura de seu perfume caro e um perfume feminino barato que não era o meu.
"Como foi a reunião?" , perguntei, minha voz soando surpreendentemente calma.
"Cansativa. A mesma coisa de sempre" , ele mentiu, tirando o paletó. "Mas valeu a pena. Fechamos um grande contrato."
Ele se sentou no sofá, exausto, e me puxou para perto.
"Estava com saudades" , ele murmurou no meu cabelo.
Senti meu corpo enrijecer, mas o forcei a relaxar em seus braços. Ele não percebeu. Ele nunca percebia nada. Para ele, eu ainda era a mesma Clara de sempre. A cega. A boba.
Mas ele estava enganado. Eu não era mais cega. Eu via tudo com uma clareza dolorosa. E enquanto ele me abraçava, fingindo um carinho que não existia, eu já tinha tomado uma decisão.
Eu ia me divorciar dele.
Mas não agora. Não de forma simples.
Ele me tirou tudo: meus sonhos, minha dignidade, minha confiança. Agora, eu ia fazer com que ele pagasse por cada mentira, cada humilhação.
"Eu também estava com saudades, Marcos" , eu disse, e pela primeira vez na minha vida, menti para ele com um sorriso no rosto.
O jogo tinha virado. E ele nem fazia ideia de que estava prestes a perder. O divórcio aconteceria, sim. Mas nos meus termos. E ele se arrependeria do dia em que me chamou de cega.
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