
Despertar de Uma Mulher
Capítulo 3
O evento era uma daquelas festas de caridade chatas que a empresa de Marcos patrocinava todos os anos. Um salão enorme, cheio de gente rica fingindo se importar com alguma causa, enquanto exibiam suas joias e roupas de grife. Eu odiava esses eventos, mas, como a "esposa troféu" , minha presença era obrigatória.
Marcos estava ao meu lado, a mão possessivamente na minha cintura, sorrindo para todos. Para o mundo, éramos o casal perfeito. Ele, o empresário de sucesso. Eu, a esposa devotada que superou uma tragédia. Uma farsa bem montada.
"Você está linda esta noite, Clara" , ele sussurrou no meu ouvido, sua voz soando sincera para qualquer um que estivesse perto.
Eu forcei um sorriso.
"Obrigada, querido."
O vestido que eu usava, ele que tinha escolhido. Caro, elegante, mas parecia uma fantasia. Nada ali era real. Nem o meu sorriso, nem o carinho dele.
Enquanto Marcos conversava com um grupo de investidores, eu peguei uma taça de champanhe e me afastei um pouco, observando as pessoas. Meu olhar varreu o salão, e então, eu a vi.
Letícia.
Ela estava do outro lado do salão, perto do bar. Usava um vestido vermelho, colado ao corpo, que gritava por atenção. Ela ria de algo que um homem dizia, jogando o cabelo para trás. Meu coração deu um pulo, uma mistura de raiva e ansiedade. O que ela estava fazendo aqui?
Nossos olhares se cruzaram por um segundo. Ela me encarou com uma ousadia que me chocou, um pequeno sorriso presunçoso nos lábios. Ela sabia exatamente quem eu era.
Desviei o olhar, fingindo não tê-la visto. Respirei fundo, tentando manter a calma. Marcos não podia saber que eu sabia. Não ainda.
Minutos depois, a própria Letícia se aproximou do nosso grupo. Ela caminhou com uma confiança inabalável, parando ao lado de um dos homens que conversava com Marcos.
"Oi, amor" , ela disse para o homem, mas seus olhos estavam fixos em Marcos.
Marcos ficou tenso ao meu lado. Senti o aperto de sua mão na minha cintura aumentar. Ele estava nervoso. Bom.
"Letícia, o que faz aqui?" , o homem, que parecia ser amigo dela, perguntou.
"Vim te fazer companhia. E conhecer pessoas novas" , ela respondeu, seu olhar passando por mim de forma desdenhosa antes de voltar para Marcos. "Marcos, quanto tempo."
A forma como ela disse o nome dele era íntima, carregada de um significado oculto que só nós três entendíamos.
"Letícia. Que surpresa" , Marcos disse, a voz um pouco tensa. Ele tentou disfarçar, forçando um sorriso de negócios. "Esta é minha esposa, Clara."
Letícia estendeu a mão para mim. A mão dela era fria.
"Prazer, Clara. Ouvi muito falar de você."
"Mesmo?" , perguntei, mantendo meu rosto inexpressivo. "Não posso dizer o mesmo."
O sorriso dela vacilou por um instante.
A conversa continuou, mas o ar estava pesado. Letícia se inseriu no grupo, ficando perigosamente perto de Marcos. Em um momento, enquanto ele gesticulava para explicar algo, a mão dele roçou o braço dela. Não foi um acidente. Foi um toque deliberado, rápido, mas eu vi. E ela respondeu com um olhar cúmplice que me fez querer vomitar.
Eles achavam que eu era estúpida. Que eu não perceberia.
Eu me sentia sufocada. Precisava sair dali.
"Querido, vou pegar outra bebida" , eu disse a Marcos, me soltando de seu aperto.
"Eu pego para você" , ele se ofereceu, rápido demais.
"Não precisa. Eu mesma vou."
Eu me virei e caminhei em direção ao bar, sentindo os olhos deles nas minhas costas. Peguei outra taça de champanhe, minhas mãos tremendo levemente. Do outro lado do salão, eu podia vê-los. Marcos tinha se aproximado mais dela. Eles conversavam em voz baixa, suas cabeças quase se tocando. Pareciam um casal. Um casal de verdade.
Eu me virei, não querendo mais olhar. Fui para a varanda, precisando de ar. O ar frio da noite me ajudou a pensar com mais clareza.
Quando voltei para dentro, a cena era ainda pior. Marcos e Letícia estavam dançando. Não era uma dança formal. Ele segurava a cintura dela com firmeza, seus corpos colados, movendo-se lentamente ao som de uma música suave. Ele sussurrava algo no ouvido dela, e ela ria, a cabeça jogada para trás.
Era um espetáculo de desrespeito. Uma afronta pública.
Perto de mim, um grupo de mulheres, esposas dos colegas de Marcos, me olhava e cochichava. Eu podia ouvir fragmentos da conversa.
"Coitada da Clara…"
"Ele não tem a menor vergonha."
"Olha só para eles. E ela ali, parada, sem fazer nada."
"Dizem que ela não é muito esperta, depois do acidente..."
A humilhação queimava. Elas não sentiam pena de mim. Elas se deliciavam com o meu sofrimento, com o drama.
Eu queria gritar. Queria ir até lá e arrancar Letícia dos braços dele. Queria expor a mentira deles para todos verem. Mas me contive. Minha hora chegaria.
Eu estava prestes a me virar e ir embora, abandonar aquela farsa, quando uma voz alta e estridente cortou a música e as conversas.
"ATENÇÃO, SENHORAS E SENHORES!"
Era o mestre de cerimônias no palco, com um microfone na mão.
"Temos um anúncio especial esta noite!"
Todos os olhares se voltaram para o palco. A música parou. Marcos e Letícia se separaram, parecendo irritados com a interrupção. O silêncio repentino no salão era ensurdecedor, carregado de uma tensão que parecia prestes a explodir. E eu estava no centro de tudo.
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