
Desejo Súbito
Capítulo 2
RAFAELA
A mão gelada de Guilherme segurou forte na minha e ele me colocou novamente no veículo. Eu ainda me sentia estranha, completamente anestesiada. Nunca tinha presenciado a morte de alguém antes. "Parece um pesadelo", pensei. Assim que Guilherme se sentou no banco do motorista, rapidamente percebi sua inquietação. Ele virou-se para mim, segurando firme no meu rosto:
— Rafaela, olhe pra mim. Tudo vai ficar bem, você vai ficar bem! — Ele se mostrou atencioso, mas eu não conseguia responder a ele. — Droga, aquele desgraçado certamente tem alguns familiares na máfia mexicana! Vi o sobrenome Ortega em um diploma na prateleira da recepção, e esse sobrenome ficou martelando na minha mente. Agora me lembrei; eles são bastante conhecidos no mundo da máfia. Já ouvi muitas coisas obscuras sobre eles no departamento! — Ele explicou, e notei uma grande preocupação em sua expressão.
— Meu Deus, a mulher! Ela sabe o meu nome; eu disse quando cheguei. Vão descobrir que fomos nós, Gui!
A expressão de Guilherme ficou ainda mais tensa. Ele olhou fixamente para a estrada à frente, como se buscasse uma solução no horizonte.
— Não se apavore. Você não fez nada; fui eu que fiz! Se tiverem que procurar por alguém, virão atrás de mim! — Ele permaneceu estático, notavelmente calmo, enquanto eu estava incapaz de raciocinar direito, sentindo-me à beira de um colapso.
— Eu não posso te perder, Gui. Com a mamãe no hospital, você é tudo que tenho agora! — Sussurrei com a voz embargada, e ele me deu um abraço forte, que parecia um abraço de despedida.
— Mantenha a calma, meu bem! Vamos dar um jeito em tudo isso. — Precisamos ser rápidos e inteligentes. Vou me esconder por um curto período, pelo menos até a poeira baixar. — Disse ele, tentando manter a calma. — Logo vou me livrar deste carro e conseguir outro.
Eu assenti, ainda em choque, mas confiando na determinação e no plano de Guilherme.
— Você vai ficar bem, Rafa. Vamos superar isso juntos. — Disse ele, sua voz agora mais suave e reconfortante.
Eu queria acreditar nele, queria desesperadamente que tudo ficasse bem. Mas, no fundo, sabia que essa era apenas a ponta do iceberg. A máfia mexicana não perdoava, e o sobrenome Ortega carregava um peso perigoso.
— Pedirei a um amigo de confiança, o Diogo, para cuidar de você e da Maia até eu voltar. Ele tem uma pequena empresa de segurança e tenho certeza de que não me negaria esse favor. Não fale sobre o que aconteceu hoje com ninguém, pois estou perto de conseguir uma vaga no departamento e um assassinato na minha ficha agora não cairia bem! — Sussurrou, acariciando meu rosto suavemente. Eu apenas concordei com a cabeça, sentindo uma mistura de medo e gratidão.
Ele guiou o carro em rumo à casa de Diogo. Durante o trajeto, ele fez algumas ligações rápidas e discretas, coordenando os próximos passos. Chegando ao destino, fomos recebidos por Diogo, um homem de aparência robusta e olhar atento.
— Guilherme, é sempre um prazer ver você, embora eu preferisse que fosse em outras circunstâncias. — Diogo disse, com um aceno de cabeça para mim. — Rafaela, certo? Vou garantir que você esteja segura enquanto seu irmão resolve essa situação.
Agradeci silenciosamente, ainda processando tudo o que tinha acontecido. Guilherme e Diogo conversaram em voz baixa por alguns minutos, trocando informações e planejando os próximos passos. Eu observava, tentando assimilar a realidade em que agora estava imersa. Finalmente, Guilherme se virou para mim, sua expressão séria, mas carinhosa.
— Vou te levar pra casa, Rafa. Confie no Diogo, ele vai cuidar de tudo. E lembre-se, não fale com ninguém sobre o que aconteceu hoje. — Disse ele, envolvendo-me em outro abraço apertado, seus olhos preocupados refletindo a intensidade da situação.
Adentramos outro veículo providenciado por Diogo e seguimos de volta para casa em um silêncio que pesava como uma nuvem escura. Ao chegarmos, Guilherme começou a reunir algumas peças de roupa e colocá-las em uma bolsa.
— Voltarei o mais rápido possível.
— Por favor, tome cuidado, Gui. — Implorei, segurando suas mãos por um momento antes de deixá-lo partir.
Guilherme assentiu e se afastou, desaparecendo na noite. Fiquei observando enquanto o veículo se distanciava, perdendo-se no horizonte. Ainda em estado de choque, corri até o banheiro e tomei um banho para me livrar de qualquer possível evidência de sangue. Em seguida, acendi a churrasqueira e incinerei as roupas que usava na hora do ocorrido. "Se a polícia aparecer, não terão provas para me acusar. Sou cúmplice de um crime... isso me torna uma criminosa? O que meu pai pensaria sobre isso?" Meu inconsciente começou a me atormentar com perguntas difíceis de responder. Durante a noite, foi extremamente difícil conseguir pegar no sono, e quando finalmente consegui, acordei com pesadelos terríveis. Cada sombra projetada nas paredes do quarto me fazia lembrar do momento em que tudo desmoronou. A sensação de culpa e o medo do desconhecido me assombravam, transformando a noite em um tormento. Eu precisava descansar. Estava exausta, física e emocionalmente, mas minha mente continuava a girar com perguntas sem resposta, e a imagem de Ortega caindo morto diante de mim não parava de se repetir.
— Céus, não consigo parar de pensar naquele homem! — Suspirei. Ao fechar meus olhos, só conseguia enxergar aquele ser humano nojento e repugnante caindo na minha frente.
A imensa poça de sangue que se formou em volta do corpo passava como um filme na minha memória. A cena se repetia várias vezes, fazendo-me acreditar por uma fração de segundos que, talvez, eu estivesse enlouquecendo.
— Eu só queria poder esquecer tudo isso, queria poder voltar no tempo; com certeza, faria tudo diferente! — Desabafei em voz alta, enquanto as lágrimas escorriam silenciosamente pelo meu rosto.
Cada pensamento, cada imagem, era uma tormenta em minha mente. A sensação de impotência frente ao ocorrido e a incerteza do que o futuro reservava se mesclavam, formando um turbilhão de emoções. Eu buscava desesperadamente uma maneira de apagar aquelas cenas da minha memória, como se pudesse simplesmente apertar um botão e resetar a realidade. O peso da culpa se transformava em uma sombra que parecia querer me engolir, tornando cada respiração um desafio. Desejava ardentemente a capacidade de reverter os acontecimentos, mas a cruel realidade insistia em manter-me mergulhada na angústia e no remorso. Ao amanhecer, me vi encarando o espelho, contemplando uma versão diferente de mim mesma. A vida pacata que levava agora estava manchada por um episódio sinistro. A incerteza do que o futuro reservava me consumia, e a única certeza que permanecia era a ausência de Guilherme. O vazio que ele deixou era tão explícito quanto a angústia que me corroía por dentro.
Os dias seguintes foram uma mistura de medo constante e espera ansiosa por qualquer notícia de meu irmão. Eu me mantinha em contato com Diogo, que me garantia que tudo estava sendo tratado da melhor forma possível. No entanto, a preocupação com a segurança de Guilherme e a incerteza do que ele estava enfrentando me corroía. Durante as noites, ainda era atormentada por pesadelos e memórias do incidente. Diogo fazia o possível para me manter segura e tranquila, mas nada parecia ser suficiente para aliviar o peso que eu carregava. Cada barulho inesperado, cada rosto desconhecido na rua, tudo me fazia lembrar que estávamos vivendo uma fuga constante, e que o perigo poderia estar à espreita a qualquer momento. Lentamente, a rotina começava a se moldar novamente, apesar das sombras que me envolviam. Eu tentava me concentrar em coisas cotidianas, pequenos momentos de normalidade que pudessem trazer algum conforto. No entanto, a ausência de Guilherme e a incerteza sobre seu destino nunca deixavam minha mente. A cada dia, a esperança de que ele voltasse em segurança era a força que me fazia seguir em frente.
Um mês depois…
Um mês havia se passado desde o fatídico incidente que envolveu Guilherme e eu. Graças aos céus, ninguém havia nos procurado até aquele momento. Durante esse período, permaneci reclusa em casa, observando o mundo pela janela embaçada pelas gotas incessantes de uma chuva melancólica. Foi então que avistei um carro prata estacionado do outro lado da calçada. Seus ocupantes, vigilantes discretos, eram os seguranças que Diogo havia designado para proteger a mim, a Maia e minha mãe. Trocavam-se meticulosamente, garantindo uma vigilância constante, especialmente nos horários de maior vulnerabilidade. Meu celular tocou, e ao atender, reconheci a voz de Guilherme do outro lado da linha. Uma onda de alívio e alegria me invadiu ao saber que ele estava vivo e seguro.
— Como você está? Quando volta? — perguntei, meu entusiasmo transparecendo na voz.
— Não se preocupe comigo, estou em um lugar seguro! Parece que nada de ruim vai acontecer. Maia decidiu vir ao meu encontro. Ela vai precisar que você a substitua por alguns dias! Já cansei de dizer a ela para não se preocupar em trabalhar, mas é tão teimosa quanto você; nunca me ouve! Não tenha medo, sempre haverá alguém te vigiando à distância. Ela vai passar aí em casa para pegar algumas coisas para mim! — explicou Guilherme com tranquilidade, sua voz soando confiante.
— Combinado, pode deixar que farei isso — respondi, minha voz um sussurro calmo.
— Obrigado, logo estarei de volta em casa, fique segura! — Ele encerrou a ligação.
A conversa trouxe uma mistura de emoções: alívio por saber que Guilherme estava seguro, mas também uma tensão latente, a constante lembrança do perigo que ainda nos envolvia. O som da chuva lá fora parecia ecoar meus próprios sentimentos, uma melodia de incerteza e esperança enquanto eu esperava pelo retorno seguro de todos aqueles que amava. Uma mistura de alívio e ansiedade tomou conta de mim. Saber que Guilherme estava a salvo proporcionava algum conforto, mas a ideia de assumir o trabalho de Maia e a constante vigilância deixavam claro que a normalidade estava longe de retornar às nossas vidas. O peso do acontecimento continuava a me assombrar, e as semanas seguintes prometiam ser desafiadoras. Respirei fundo, preparando-me para os desafios que estavam por vir.
Nossa conversa foi breve, mas foi o suficiente para tranquilizar meu coração inquieto. No entanto, mesmo com a notícia reconfortante da sua voz, a atmosfera ao meu redor permanecia carregada de tensão. Cada gota de chuva parecia ecoar a incerteza do que o futuro reservava, e a vida pacata que antes conhecia agora estava permeada por uma sombra sinistra. A espera angustiante pela resolução desse pesadelo persistia, fazendo-me questionar quando e se teríamos a oportunidade de reconstruir nossas vidas. Maia era proprietária de uma loja que vendia cestas de café da manhã, flores e bichinhos de pelúcia, um negócio antigo da família dela.
Decidi ir até lá para aprender antes que ela fosse ao encontro de meu irmão. A loja ficava a cerca de oito quadras de distância, e meus seguranças particulares começaram a me seguir discretamente. Caminhando pela rua, aproveitei para verificar minhas redes sociais, mas nada de interessante apareceu. Continuei a andar, absorta em meus pensamentos, até que algo no céu capturou minha atenção. Fui cativada por um espetáculo celestial pós-chuva magnífico, uma obra-prima da natureza. As nuvens formavam padrões incríveis, refletindo as cores do pôr do sol que se desenhavam no horizonte. Guardei o celular e, após uma breve pausa em uma sorveteria para apreciar um sorvete, segui para a loja de Maia. Ao entrar, encontrei-a cuidando das plantas com seu habitual carinho e dedicação.
— Maia — chamei suavemente, anunciando minha chegada enquanto observava-a com admiração. — O Gui me ligou para falar sobre a viagem, estou aqui para aprender tudo o que precisar antes de você partir. Não quero fazer besteiras.
— Oi Rafa, não tem muita complicação. Os nomes das plantas estão nessa pasta, cada um com uma foto na frente. E os bichinhos de pelúcia, geralmente, a pessoa escolhe no balcão! — explicou ela, com um sorriso amigável.
— Certo, só espero não fazer nada errado! — murmurei, sentindo um leve nervosismo.
— Qualquer dúvida, pode me ligar! Olha lá, acabou de entrar um cliente. Atenda ele, assim você já começa a colocar em prática! — Maia apontou para um homem que acabara de entrar na loja.
Concordei com um aceno e me dirigi ao cliente, um rapaz incrivelmente bonito, o mais atraente que já tinha visto. Tentei não demonstrar minha surpresa diante de sua presença, mas seu charme era irresistível. Respirei fundo e me aproximei, esperando que minha voz não tremesse demais.
— Boa tarde, seja bem-vindo. Em que posso ajudá-lo? — Tentei esbanjar simpatia, mas minha voz saiu um pouco falha e inaudível, o nervosismo começava a me afetar.
— Olá, estou à procura de lírios brancos. Já busquei por toda cidade e não os encontrei em lugar algum! — Ele se aproximou, seu perfume envolvendo-me com sua fragrância agradável.
— Hum, digamos que hoje é o seu dia de sorte! Temos lírios brancos aqui! — Meu entusiasmo falou por mim, enquanto eu me alegrava por ele ter escolhido uma planta que eu conhecia bem.
— Isso é ótimo, que alívio! Pensei que teria que dirigir até outra cidade para consegui-los! — Um sorriso charmoso iluminou seu rosto, aumentando ainda mais sua atratividade.
— Só um momento, vou pegar para o senhor — avisei, tentando manter a compostura enquanto me dirigia às prateleiras para buscar os lírios solicitados.
A interação com o cliente foi uma montanha-russa de emoções, mesclando a excitação do trabalho novo com a presença magnética daquele homem desconhecido, mas irresistível. Após alguns minutos de busca, finalmente encontrei a planta solicitada entre tantas outras. Enquanto retornava ao cliente, meu tênis desamarrado se tornou um obstáculo inesperado, e acabei levando um tombo espetacular. "Não acredito nisso, que vergonha. Por que sempre sou tão desastrada?" pensei, fechando os olhos com frustração. Ao abrir os olhos, deparei-me com o cliente parado bem à minha frente, sua mão estendida em minha direção com a intenção de me ajudar. Fui imediatamente atraída pelos seus fascinantes olhos verdes esmeralda, que se fixaram nos meus com uma intensidade hipnotizante. Por um breve momento, fiquei completamente atordoada.
"Meu Deus, esses olhos são os mais lindos que já vi! Não me lembro de ter visto nada tão belo quanto eles antes!", pensei, quase sem acreditar na sua profundidade e brilho. Retornando à realidade, respirei fundo e estendi minha mão, aceitando sua gentil ajuda. Ao tocar sua pele, uma sensação arrebatadora percorreu todo o meu corpo, como se uma descarga elétrica estivesse atravessando cada músculo, célula e nervo. Uma onda repentina de apreensão me dominou, deixando-me confusa e inquieta na sua presença.
— Desculpe pela minha desajeitada performance! Hoje é meu primeiro dia nesta função, estou aprendendo as engrenagens do trabalho. Preciso assimilar tudo rapidamente, pois amanhã enfrentarei atendimentos solo, sem a supervisão da proprietária — Expliquei, nervosa, enquanto lutava para não deixar transparecer o desconforto que sentia.
— Parece arriscado! Vão mesmo te deixar lidar com atendimento sozinha? — Ele olhou para mim, um sorriso contido brincando em seus lábios.
— Vou embalar sua encomenda! — Respondi, desviando o olhar. Ofereci um sorriso forçado, embora me sentisse um pouco magoada. Enquanto caminhava até o balcão, minha mente girava. "Esse foi o sorriso mais falso da minha vida! Como ele pode brincar assim comigo no meu primeiro dia?"
Entreguei os lírios ao homem, e seus olhos, embora sombrios, me prendiam com uma intensidade surpreendente, quase hipnótica.
— São quinze reais! — Murmurei, estendendo a mão para receber o pagamento. Ele me entregou uma nota de cinquenta.
— Não tenho troco, posso buscar? — Sugeri, sentindo-me um pouco insegura sob seu olhar penetrante.
— Pode ficar com o troco! — Determinou, seus olhos não desviando dos meus.
— Não, não posso aceitar. Trocarei e volto em breve! — Respirei fundo, decidida a manter minha postura.
— Então deixe como crédito! Pagarei só pela diferença em futuras compras. O que acha? — Ele propôs, suavizando o tom.
— Farei um vale compras para você! Seu nome, por favor? — Anotei rapidamente em meu bloco, tentando ignorar a sensação estranha que sua presença provocava.
— Gael. E, sinceramente, ser chamado de senhor por alguém tão bonita como você me faz sentir um ancião. Chame só de Gael daqui em diante! — Seu sorriso era cativante, mas seus olhos mantinham um mistério que me deixava intrigada.
Ele piscou brevemente, um gesto que fez seu charme transbordar além do esperado. Meu foco já não estava no vale compras; de alguma forma, fui cativada pelos olhos verdes que pareciam me hipnotizar.
— Certo, Gael. Poderia me dizer seu segundo nome? — Minha voz tremia ligeiramente.
— Não há necessidade. Você se lembrará de mim quando eu voltar! Coloque apenas Gael, tenho certeza de que será suficiente! — Ele afirmou com convicção.
"Esse rapaz é bem convencido, mas ele está certo. Com certeza vou me lembrar dele. Impossível esquecer esses olhos e essa boca marcante," refleti, enquanto o observava atentamente, o sorriso dele ecoando em minha mente como uma promessa de encontros futuros.
— Aqui está, você tem um crédito de trinta e cinco reais na loja! — Entreguei o vale, percebendo minhas mãos levemente trêmulas.
— Eres una mujer muy hermosa y fascinante. — Ele proferiu em espanhol.
— Desculpe, não entendi! — Franzi a testa, um pouco perplexa diante da situação inusitada.
— Você é uma mulher muito bonita e fascinante! Foi isso que eu disse em espanhol.
— Muito obrigada! Você é da Espanha? — Minhas bochechas queimavam de vergonha.
— Sou do México. Estou no Brasil há oito anos! — Ele sorriu calorosamente.
O sotaque dele era estranhamente familiar, ecoando lembranças do homem com quem tivemos aquele incidente. “Será que ele conhece aquele senhor? Não, deve ser apenas uma coincidência. Ele é simpático demais para ter qualquer ligação com aquele velho asqueroso!” Meu instinto de detetive entrou em alerta.
— Posso saber o seu nome, bela moça? — Perguntou ele, com uma polidez que contrastava com o mistério em torno de sua presença.
— Claro, meu nome é Rafaela! — Respondi, sentindo uma pontada de desconfiança, mas deixando escapar meu nome com um olhar cauteloso.
— Rafaela… um belo nome para uma bela dama! E qual é o seu sobrenome? — Ele parecia interessado, seus olhos meticulosamente observando cada gesto meu.
— Apenas Rafaela, isso é suficiente! — Uma ironia sutil se refletia em meu rosto, provocando nele uma análise minuciosa. Certamente, ele estava intrigado comigo.
— Foi um grande prazer conhecê-la! — Em um gesto cortês, ele se dirigiu em direção à porta.
— Igualmente! — Liberei um longo suspiro ao vê-lo partir. Estranhamente, fiquei por alguns segundos remoendo pensamentos. Algo inexplicável me impeliu a revelar meu sobrenome a um completo estranho.
“Como isso é possível? Meu pai sempre me ensinou a nunca confiar em estranhos, e aqui estou eu, me abrindo completamente para um!” - Pensei, refletindo sobre a peculiaridade da situação. Quando ele estava prestes a abrir a porta para sair, exclamei: “É Oliveira!” Nesse instante, ele bloqueou seus passos, ergueu uma sobrancelha e me encarou com certa perplexidade.
— Meu sobrenome é Oliveira — expliquei, sentindo uma mistura de nervosismo e curiosidade quanto à sua reação. Ele assentiu com a cabeça, como se ponderasse algo.
— Então, nos vemos por aí, Rafaela Oliveira! — Um belo sorriso se formou entre seus lábios, iluminando seu rosto. Respirei fundo enquanto o observava se afastando, meu coração batendo mais rápido do que o normal.
Sobressaltei-me quando Maia surgiu repentinamente atrás de mim:
— O que foi isso? — Uma expressão nada amigável cobria seu rosto.
— Meu Deus! — Coloquei a mão sobre o peito. — Que susto, Maia! Não foi nada demais. Ele apenas perguntou meu sobrenome, e eu resolvi falar; foi só isso! — Expliquei, tentando acalmar sua preocupação.
— O rapaz é muito bonito, mas não fui com a cara dele! — Ela resmungou, e revirei os olhos diante de sua reação impulsiva.
— Muito me admira você dizer isso! Esqueceu que é noiva do meu irmão? Ninguém vai com a cara dele nessa cidade! — Cruzei os braços, lançando lhe um olhar irônico.
— Não vou ficar discutindo com você agora! Estou com muitas saudades do Gui! Consegue fechar a loja para mim? — Ela perguntou, mudando de assunto abruptamente.
— Claro que fecho, pode ir! — Concordei imediatamente, vendo-a partir apressada. Deixei escapar um suspiro, sentindo a intrigante presença do homem enigmático ainda pesando em minha mente.
Após a saída da última cliente, tranquei as portas da loja com um suspiro de alívio. Conectei o fone de ouvido no celular e coloquei nas orelhas, buscando uma música animada para animar o caminho de volta para casa. Cantarolando e fazendo caretas para mim mesma, segui pelas ruas movimentadas até chegar ao portão de casa. Maia já estava de saída quando cheguei. Ela se despediu de mim de uma forma estranha, como se soubesse algo que eu não sabia.
— Eu voltarei assim que possível. Tente manter a minha loja intacta e cuide-se! — Ela me abraçou com força, deixando-me intrigada com suas palavras enigmáticas.
— Quando você retornar, eu já terei vendido sua loja, talvez até a troque por algumas migalhas! — Brinquei, tentando dissipar o clima tenso.
— Não ouse fazer isso, mocinha! — Ela riu da minha provocação, embarcou em seu carro e partiu, deixando-me com uma sensação estranha no peito.
A noite caía lentamente sobre a cidade, e eu me perguntava sobre o que Maia tinha em mente. Seria algo relacionado à loja, ou algo mais pessoal? Aquela despedida, tão carregada de significado, me fez refletir sobre o que estava por vir.
***
Eu estava faminta, com um vazio no estômago que gritava por comida, mas a preguiça monumental de cozinhar me dominava completamente. A ideia tentadora de saborear uma pizza começou a se firmar em minha mente, tornando-se irresistível. Decidi na hora: "É isso, vou me deliciar com uma pizza!" O trajeto até a pizzaria era curto, então escolhi caminhar. Mantive meu ritual habitual com celular e fones de ouvido, perdida nas batidas das músicas que tanto amava. Enquanto caminhava, eu não resistia e me pegava cantarolando as letras, às vezes até arriscando uma dancinha improvisada na calçada. Ao chegar na pizzaria, escolhi uma mesa estratégica para desfrutar da minha refeição. Optei pela mini pizza sabor marguerita, uma escolha sempre certeira que nunca me decepcionava. Enquanto aguardava, avistei meus seguranças não muito longe dali, ocupando uma mesa.
Poderia tê-los convidado para se juntar a mim, mas lembrava das instruções claras de meu irmão para que mantivessem uma distância respeitosa e não se envolvessem diretamente comigo. A atmosfera no ambiente era acolhedora, com o aroma tentador de queijo derretido e tomates frescos envolvendo o ar. Eu me sentia aliviada por estar ali, desfrutando de um momento de tranquilidade e prazer simples, mesmo que breve. Após quitar minha conta, decidi fazer uma breve parada na farmácia antes de retornar para casa. A necessidade urgente de adquirir um medicamento natural para induzir o sono se fazia presente, os últimos acontecimentos turbulentos estavam impactando severamente meu descanso. Eu sinceramente ansiava que o remédio trouxesse o alívio desejado.
Optei por tomá-lo ali mesmo na farmácia, esperando uma ação rápida. Retirei-me em seguida, seguindo de volta para casa em uma caminhada solitária. Apesar das turbulências que marcaram meu dia, naquele momento, senti um peso sendo aliviado. A distração proporcionada pela loja da Maia e a combinação da caminhada com músicas suaves, sem dúvida, contribuíram para esse conforto. Aproveitei para contemplar o crepúsculo lentamente se instalando sobre a cidade. Ao atravessar a porta de casa, já sentia o cansaço se abater. Meu estômago, pesado pela farta refeição, não foi obstáculo para a sensação de relaxamento que começava a me envolver. Graças aos céus, o medicamento começava a fazer efeito e, felizmente, consegui adormecer, finalmente encontrando um refúgio temporário do tumulto recente em minha vida.
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