
Desejo Súbito
Capítulo 3
GAEL
México, Tijuana, 2016.
Eu estava visitando alguns familiares, como fazia todos os anos, aproveitando a oportunidade para me afastar um pouco do meu pai e desfrutar de momentos relaxantes e de desconexão. Enquanto descansava, o celular rompeu a paz com insistência; era a secretária do meu pai. "Estranho, ela raramente me liga. Deve ser algo muito sério!", pensei, com apreensão. Atendi imediatamente:
— Senhor Gael? — A voz de Soraia tremia do outro lado da linha.
— Sim, sou eu. O que houve, Soraia? — Minha voz saiu apressada.
— Seu pai... ele foi assassinado! — Ela foi direta, e a notícia me atingiu como um soco no estômago. Levei alguns segundos para processar aquilo.
— Assassinado? Como assim? Foi um acidente? Uma briga? — Perguntei, incrédulo e angustiado.
— Não, nada disso. Não tem relação com a máfia. Acho melhor o senhor voltar o mais rápido possível. — Sua explicação foi rápida, mas eu já estava mentalmente a caminho.
— Estou indo. Chego aí em algumas horas! — Encerrei a ligação, com o coração acelerado enquanto corria para fazer as malas. — Maldição, quem teria coragem de fazer isso com meu pai? Não descansarei até encontrar o responsável por essa tragédia! — Desabafei em voz alta, os pensamentos tumultuados enquanto enfrentava a dolorosa realidade que se impunha diante de mim.
Meu pai era um dos pioneiros na máfia mexicana. A separação dele e da minha mãe aconteceu quando eu tinha doze anos e meu irmão Dario, dezesseis. O motivo do divórcio permaneceu obscuro; qualquer tentativa de abordar o assunto era rapidamente repreendida. A influência da máfia permeava minha família paterna, cada membro com diferentes graus de envolvimento. No entanto, eu era o menos inclinado a me integrar. Decidi me desconectar completamente depois de tirar a vida de duas pessoas, que depois se revelaram inocentes. Esse fato me consumiu; eu havia destruído cinco vidas, incluindo a minha. Duas crianças ficaram órfãs por conta da confusão que fiz ao confundir seus pais com um casal que havia roubado uma quantia considerável da minha família. Mais tarde, descobri que esses pais tinham histórico de abuso contra os filhos, o que trouxe um pouco de alívio. Depois do incidente, prometi a mim mesmo nunca mais me envolver com esse lado obscuro da vida. Romper com esse mundo não foi tarefa fácil, especialmente porque eu era o herdeiro do trono deixado por meu pai na máfia mexicana.
A organização operava com uma rígida hierarquia, onde meu irmão assumiria o comando e, na sua ausência, eu ocuparia o seu lugar. Na máfia, todos fazíamos um juramento de lealdade chamado "punciuta", que envolvia a extração de algumas gotas de sangue sobre uma imagem sagrada, simbolizando nossa promessa de queimar como as chamas em caso de traição. Eu e Dario realizamos aquele ritual quando éramos crianças, um batismo que recordo apenas parcialmente, dado que eu tinha apenas cinco anos na época. Por sorte, minha mãe conseguiu persuadir meu pai a formalizar um documento crucial. Essa conquista me concedeu o livre arbítrio para abandonar tudo quando decidi não mais fazer parte daquele mundo. A redação desse registro em meu nome foi uma batalha silenciosa, vencida nos bastidores pela determinação incansável de minha mãe. Durante o incidente com o casal, meu pai precisou viajar para outra cidade para obter esse papel vital. Sem ele, meu desligamento definitivo não teria sido possível. Com o documento em mãos, reafirmei meu compromisso e retirei-me por completo dos assuntos relacionados à máfia.
No caso de ter filhos no futuro, estariam livres de participar por obrigação, a menos que escolhessem fazê-lo por vontade própria ao atingirem a maioridade. O motivo exato pelo qual minha mãe insistiu na obtenção desse documento valioso permanecia envolto em mistério para mim. Ela nunca forneceu explicações, mas sua ação me deixou profundamente grato por ter considerado meu bem-estar acima de tudo. Ela parecia conhecer seus filhos melhor do que qualquer um. Meu irmão sempre me via como um fracasso, argumentando que eu tinha um coração excessivamente sensível. Após a tragédia com nosso pai, o direito ao trono passaria para Dario. Com trinta anos, quatro anos mais velho que eu, ele sempre esteve imerso no mundo da máfia, em completo contraste com minha trajetória.
Posteriormente, herdei uma renomada rede de hotéis que meu avô materno deixou para mim em seu leito de morte. O negócio era multimilionário, compreendendo cinco hotéis de luxo espalhados por Dubai, Japão, Grécia, EUA e Brasil. Entre eles, o estabelecimento brasileiro era o que eu mais acompanhava de perto, pois foi onde escolhi uma cidade como meu lar. À frente dos meus vários empregados e alguns sócios, destaca-se Zayn Al-Abadi, um parente distante por parte de minha mãe, ex-sargento bem treinado e sócio minoritário no hotel de Dubai. Além de colher benefícios da parceria no hotel, Zayn escolheu empreender estabelecendo sua própria empresa de segurança. Isso proporcionou-me vantagens ao disponibilizar seus treinamentos para meus seguranças, a maioria deles ex-funcionários de agências secretas. Entre esses seguranças, Matias sobressaía-se como meu braço direito, alguém em quem eu depositava plena confiança, compartilhando com ele todos os meus segredos e estratégias. Sua habilidade meticulosa e lealdade inabalável tornaram-no não apenas um guarda-costas, mas um confidente indispensável em um mundo onde confiança era uma moeda de extrema importância.
***
Retornei ao Brasil, sentindo um imenso alívio ao avistar o avião pousando no aeroporto de Guarulhos. O voo foi extremamente estressante, uma mistura de exaustão com a angústia latente pela recente perda de meu pai, agravada pela pressa em chegar. Ao desembarcar, encontrei Matias à minha espera com a limusine preta. Rapidamente, embarquei, seguindo em direção à casa onde meu pai vivera até recentemente. Considerava a possibilidade de adquirir um carro menos ostensivo; afinal, meu BMW tinha sido destruído em um acidente envolvendo um conhecido, o que me deixava um tanto reflexivo. No trajeto para casa, tirei o celular do bolso do paletó, decidido a informar um antigo amigo, Arthur, sobre o ocorrido. Conhecíamo-nos desde a infância, e sempre considerei sua orientação valiosa. Era crucial compartilhar a notícia com ele, para obter algum consolo e direção neste momento doloroso. Matias estacionou o veículo com habilidade, e ao entrar na residência, fui recebido por Soraia, a mulher que dedicou sua lealdade a meu pai durante anos.
— Gael, que bom que chegou. Uma moça interessada na vaga que seu pai anunciou foi até o galpão. Houve gritos, e um homem entrou, atirando após arrombar a porta. Tive que fugir com medo. — Soraia explicou, incapaz de conter as lágrimas que marejavam seus olhos.
— Sabe dizer o nome dela, Soraia? — Questionei, atento aos detalhes cruciais.
— Rafaela Oliveira, se não me engano. — Respondeu, ainda emocionada com o susto recente.
— Rafaela Oliveira... Será que tem alguma relação com o falecido detetive José Alberto Oliveira? Ótimo, Soraia. Vou investigar sobre a Rafaela; pode ser uma pista valiosa. E meu irmão, já chegou?
— Ele está na Itália, envolvido em negociações cruciais. Pediu para você assumir tudo e prometeu retornar em breve. — Ela explicou, com a voz embargada, revelando o habitual distanciamento emocional de meu irmão em relação às questões familiares.
— Tipicamente meu irmão, sempre colocando os "negócios" acima de tudo. — Suspirei, refletindo sobre as prioridades dele e o peso que isso impunha sobre mim.
Organizei meticulosamente o cerimonial fúnebre, enquanto meu irmão, distante como sempre, apenas confirmava por mensagem o que já era evidente: ele não participaria da despedida. Após a comovente cerimônia, senti uma urgência intensa de desvendar o mistério que envolvia o assassinato de meu pai; o luto não podia ser o destino final. Determinado a buscar justiça, mergulhei de cabeça nas investigações, desenterrando pistas sobre Rafaela e explorando qualquer possível ligação com o enigmático detetive José Alberto Oliveira. Cada descoberta abria portas para um labirinto de intrigas, levando-me a desvendar os segredos ocultos por trás dessa trama sombria, onde cada sombra escondia uma nova revelação a ser confrontada.
***
Haviam se passado alguns dias desde que Matias e eu finalmente descobrimos o endereço de Rafaela.
— Ainda bem que ela mencionou seu nome para Soraia; caso contrário, eu nunca encontraria a pessoa que matou meu pai! — Comentei, enquanto Matias concordava com a cabeça, compartilhando do meu sentimento de determinação.
Dedicamos dias à investigação, meticulosamente reunindo todas as informações necessárias. Descobrimos que Rafaela era de fato filha do detetive José Alberto Oliveira e que tinha um irmão chamado Guilherme, associado ao departamento de investigação da polícia federal. Indicava-se que ele seguia os passos do falecido pai, recentemente vítima de um acidente suspeito. A mãe dos irmãos permanecia internada em estado vegetativo após o incidente que a polícia local suspeitava ser criminoso. Após um período de vigilância na casa, notamos sempre alguém fazendo a segurança do lado de fora. Cansados de dias sem movimentação, prestes a desistir, ordenei a Matias que nos levasse embora. No entanto, ao ligar o motor do carro para partir, avistei uma moça muito bonita passando pela porta da frente. Ordenei a Matias que desligasse o veículo, percebi que os homens parados em frente à casa começaram a segui-la. Mantendo uma distância segura, Matias foi atrás deles para investigar mais a fundo. Observamos a moça entrando em uma loja de flores.
— Matias, se notar qualquer movimento suspeito daqueles dois homens no carro, atire sem hesitar! — Avisei antes de descer do veículo, e Matias concordou imediatamente.
Fiz uma breve pausa para evitar chamar a atenção dos vigias. Em seguida, adentrei o estabelecimento determinado a descobrir mais sobre o que Rafaela realmente sabia e seu possível envolvimento nos acontecimentos recentes. Dentro da loja, os perfumes das flores misturavam-se com o suspense que envolvia o ar. Ao atravessar a porta, deparei-me com a visão da garota engajada em uma conversa com outra mulher. Em poucos instantes, ela dirigiu-se rapidamente na minha direção. Fui atendido por ela, percebendo que era uma moça extremamente atraente. Algo nela capturou minha atenção, embora eu não conseguisse definir com precisão o que era; no entanto, deixou-me profundamente impressionado. À medida que ela se aproximava para prestar atendimento, senti a urgência de assumir o papel de cliente.
"O que devo pedir? Nunca fui hábil com nomes de plantas", refleti, indeciso. No final das contas, optei pelos lírios, a primeira planta que veio à mente. Enquanto ela separava o meu pedido, a garota, num momento desajeitado, tropeçou e caiu. "Como alguém com esse perfil poderia estar envolvido em um assassinato?", questionei-me. Estendi minha mão para ajudá-la a levantar-se e, ao tocá-la, percebi a suavidade e a delicadeza de sua pele. "Ela é realmente bonita", pensei, minha mente dividida entre a atração crescente e o dever que me levava ali. "Preciso me concentrar. O que estou fazendo? Não posso permitir esses pensamentos! Não posso deixar que ela me distraia. Estou aqui apenas para vingar a morte de meu pai; não tenho tempo para distrações!", forcei-me a lembrar, tentando reafirmar meu propósito.
O dilema entre a atração irresistível e a busca implacável pela verdade intensificava-se a cada momento. Seus olhos exibiam um enigma fascinante, brilhando com um encanto misterioso. Algo nela capturava minha atenção de maneira irresistível, e eu sabia que essa intensa atração poderia complicar ainda mais minha missão. Após entregar meu pedido, ela me surpreendeu com um vale-compras de trinta e cinco reais, já que o caixa não tinha troco. Saí da loja apressadamente, sem conseguir articular uma palavra naquele momento. Me sentia atordoado pela inesperada gentileza. Sem saber o que fazer, senti a necessidade de continuar observando-a de longe, urdindo um novo plano para me reaproximar. Retornei ao carro, tentando agir discretamente. Durante o trajeto, coloquei o vale-compras na carteira e cogitei jogar os lírios em um latão de lixo. No entanto, antes de tomar uma decisão, refleti melhor e decidi preservá-los. A incerteza sobre os próximos eventos aumentava a tensão que se acumulava dentro de mim.
— Definitivamente, foram os quinze reais mais mal gastos da minha vida! — Exclamei ao entrar no veículo. — Sua esposa aprecia plantas?
Afrouxei o nó da gravata em meu pescoço enquanto Matias me encarava.
— Sim, ela gosta bastante! — Respondeu ele.
— Então, leve os lírios para ela, não tenho uso para isso! — Entreguei as plantas em suas mãos. Rapidamente, Matias abriu o porta-malas e as colocou dentro.
— Obrigado, senhor! — Murmurou ele ao retornar ao veículo.
Dirigimos de volta ao ponto inicial, próximo da casa de Rafaela, onde passamos o restante da tarde estacionados, concentrados na vigilância e entediados. Não demorou muito para que a mesma moça com quem Rafaela conversava na loja entrasse na casa.
— Será que são parentes? — Perguntei a Matias, tentando entender a conexão entre as duas mulheres.
— Parece que sim! Precisamos nos informar sobre isso, senhor! — Respondeu ele com seriedade.
— Pois é, não podemos deixar nada de fora; qualquer informação pode ser importante! — Suspirei, sentindo a tensão aumentar. Algum tempo depois, vi Rafaela também voltando. — Não é possível, ela está... dançando?
Franzi o cenho, perplexo diante do comportamento inusitado de Rafaela.
— E pelo visto, ela também está soltando a voz! — Matias sorriu discretamente, como se visse algo familiar naquilo tudo.
— Essa garota parece ter algumas ideias fora do comum! — Comentei, observando os gestos engraçados que ela fazia.
— Parece que ela está se divertindo bastante, senhor! — Ele gargalhou, achando graça na situação.
— Quem em sã consciência sairia pelas ruas dessa cidade desse jeito? Certamente não é algo que se presencia todos os dias! — Afirmei, perplexo com o comportamento peculiar da garota. A cena inusitada adicionava mais um elemento enigmático à complexa trama que eu buscava desvendar.
Enquanto a observava por um tempo, me peguei, por um breve instante, fixando meu olhar em seus lábios.
"Puxa vida, ela tem uma boca notavelmente carnuda," pensei involuntariamente, deixando-me levar por pensamentos inapropriados. "Preciso parar de deixar minha mente vagar por caminhos tão impróprios!" Chamei minha atenção, repreendendo-me mentalmente. Meu celular tocou no bolso da calça, arrancando-me da imersão. Retirei-o para atender, deparando-me com o nome de um dos meus funcionários na tela:
— Senhor Gael, encontramos o Guilherme. Qual é a próxima ação? — Perguntou Paulo, sua voz carregada de urgência.
— Não tome nenhuma medida por agora! Tenho planos mais elaborados para tê-lo sob controle. Temos uma vantagem: a irmã dele! — Avisei, encerrando a ligação com determinação.
A descoberta de Guilherme adicionava uma nova dimensão à nossa busca pela verdade, e a presença de Rafaela tornava-se uma peça crucial no jogo complexo que se desenhava. Minha mente estava agora focada em como utilizar essa vantagem estratégica da melhor forma possível. Naquele instante, a ideia de me aproximar da querida irmã, a quem Guilherme tanto prezava, surgiu como um raio de esperança. "Vou conquistá-la e desestabilizá-la! Embora não tenha certeza da sabedoria dessa ideia, é a única solução que me veio à mente agora. Até que um plano melhor se apresente, é nisso que devo me agarrar!" Refleti, um turbilhão de determinação misturado com uma pontada de incerteza. Com o binóculo em mãos, aproximei-o dos olhos e observei cada movimento dela dentro da casa com atenção intensa. Fiquei atônito ao testemunhar o momento em que ela se despiu para tomar banho.
"Nossa, ela é verdadeiramente sedutora! Não vejo obstáculos para compartilhar momentos íntimos com ela!" Meu pensamento persistente fez com que eu engolisse em seco. Refletindo sobre a situação, percebi que minha hesitação permeava aquele momento, tornando-o ainda mais intenso e conflitante. As linhas entre vingança e atração se entrelaçavam, deixando-me em uma encruzilhada moral profunda. A busca pela verdade se tornava cada vez mais complexa, levando-me a questionar até onde estava disposto a ir para alcançar meus objetivos. Cada passo adiante parecia trazer tanto promessa quanto perigo, e eu me encontrava lutando contra impulsos contraditórios de desejo e justiça.
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