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Capa do romance Desejo proibido-  2 edição

Desejo proibido- 2 edição

Bati a cabeça na parede uma, duas, três vezes, com tanta força que cheguei a ver estrelinhas brilhando. - Para com isso. Se torturar não vai resolver nada. - Margô falou, sentada do outro lado da mesa no pequeno barzinho na Avenida Atlântica. O pagode romântico que tocava ao fundo, unido ao fedor de cerveja misturado com cigarro, contribuía para o crescimento da minha nostalgia. Quanto mais pensava no que aconteceu, mais me desesperava. Eu ainda não podia acreditar no quanto fui tola, me deixando enganar por um cafajeste que desde o início tinha o objetivo único de me extorquir. Aos vinte e cinco anos de idade eu não tinha mais o direito de ser tão ingênua e de ser tão tapada a ponto de não perceber nada mesmo com todo mundo à minha volta me alertando. Na realidade, eu cheguei a acreditar que as pessoas falavam mal do meu relacionamento com Fábio, por inveja. Fui uma anta mesmo. Foram três longos anos me prostituindo nas calçadas de Copacabana sem gastar nenhum centavo com qualquer coisa que não fosse o básico - como, por exemplo, o aluguel de uma quitinete, roupas e maquiagem -, a fim de guardar o dinheiro para abrir o meu próprio negócio e sair daquela vida miserável. Durante aqueles anos suportei o frio das madrugadas de inverno, o perigo constante e todo tipo de homem usando meu corpo, para que no final aquele maldito me roubasse.
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Capítulo 2

Tem tudo a ver. Você pode ir morar em Montana e arranjar um marido rico e que te trate bem. O problema aqui, segundo você mesma, é que todo mundo na cidade já passou nessa rua e te viu, mas lá ninguém te conhece. Os homens são ingênuos e gentis, como são todas as pessoas do interior. Você chega lá dando uma de moça direita e arranja um marido rapidinho. — ela gesticulou para a tela do smartphone. — Pode até acabar morando em uma mansão dessas. Que tal? O que ela dizia fazia todo o sentido. Embora parecesse uma grande loucura deixar o Rio para ir a um lugar tão distante e completamente desconhecido, com um bom planejamento poderia dar certo. Era melhor que passar o resto da minha vida rodando a bolsinha para tentar juntar novamente o dinheiro que Fábio me roubou e ainda por cima correndo o risco de arranjar outro como ele. Se conseguisse um marido naquela cidade, obviamente um marido rico que não me deixasse faltar nada, estaria livre daquela vida maldita de uma vez por todas e sem muito esforço. Restava saber como me firmar em Montana. — Margô, como você achou essa cidade? Por que nunca tentou ir pra lá e fazer o que está me sugerindo? — Achei quando um dos meus clientes compartilhou o link do artigo no Facebook. Não vou porque estou velha, Manuela. Você acha mesmo que um homem bom ia se casar comigo, na minha idade? Senti piedade dela. O que faria de sua vida quando se tornasse uma anciã? — Não fala assim. Pra todo pé existe um sapato velho. Ela sorriu sem graça e bebeu mais um gole do seu chope. — Eu não tenho mais jeito. Sou viciada na noite. Não ia conseguir cuidar de um homem, ficar acordada de dia e dormir a noite. Minha vida é essa aqui. Mas pra você ainda não é tarde, pode mudar. Suspirei aquiescendo. Como a dela, haviam muitas vidas tragadas pelo vício nas noites. — Vou arriscar, não tenho mesmo nada a perder. Qualquer coisa é melhor que continuar suportando a humilhação desses homens. Se não der certo eu volto. Resta saber como vou me estabelecer lá. Para dar uma de santinha vou precisar de todo um guarda roupa novo e um lugar descente pra morar. Ainda tenho o carro. Pelo menos isso aquele safado não roubou. Vou vender baratinho e usar o dinheiro pra começar minha nova vida. — Não venda agora. Use-o para chegar à Montana. Em um lugar desses é melhor chegar de carro que de ônibus, só para manter as aparências. Chegando lá você vende, se não tiver outro jeito. — O problema é que aquele bastardo não me deixou nenhum centavo. Como vou pagar uma moradia até arranjar o tal marido? — Trabalhe só mais uma semana. É suficiente para alugar uma casa simples e abastecer a geladeira. Depois arranje um emprego qualquer. Isso vai te fazer ser bem vista. Esperar um mês inteiro para receber uma quantia em dinheiro que se pode adquirir em uma noite, definitivamente é o inimigo número um de todas as garotas que optam por esta vida. Mas eu precisava aprender a aceitar. — Você está certa. — percorri os olhos à minha volta e vi um gorducho mal vestido me secando de perto do balcão. Aquilo me deu náuseas, mas eu sabia que precisava encarar. — Mas tem uma coisa. — Margô ficou muito séria. — Mantenha o foco desta vez. Não caia na lábia de outro malandro como Fábio. Tem muitos como ele por aí e no Goiás não é diferente. Fuja de homem pobre e fuja de paixões que te ceguem, para que o que aconteceu com você não se repita. Ouça meus conselhos desta vez. Concordei, relembrando o quanto ela me alertou sobre Fábio, tanto que cheguei a me afastar acreditando que queria me ver sozinha como ela, da forma que ele me convenceu a acreditar. Desta vez a ouviria e internalizaria a experiência com Fábio como um aprendizado para nunca mais me iludir com homem, nunca mais ouvir a voz do meu estúpido coração e, acima de tudo, nunca mais me envolver com um pobretão que só quisesse me comer e me explorar. Depois de Fábio, me tornaria uma nova mulher, muito mais esperta. Batalhei como uma louca durante a semana que se seguiu nas ruas de Copacabana, me entregando a qualquer um com dinheiro que me chamasse, guardando cada centavo até que tivesse o suficiente para chegar ao Goiás, alugar uma casa mais ou menos boa e me sustentar até arranjar um emprego e uma marido. Quando deixei o Rio de Janeiro, na manhã de segunda-feira, dirigindo meu Fiat velho com a documentação toda atrasada, seguindo um mapa que me mostraria o caminho exato para o meu destino, jurei a mim mesma que nunca mais me prostituiria; nunca mais deixaria um homem me tocar que não aquele que se casasse comigo e esse tinha que ser no mínimo atraente e, claro, muito rico.

 De acordo com minhas pesquisas, era uma viagem que duraria quatorze horas em um carro novo, no meu duraria uns dois dias com algumas paradas para refeições e descanso. Minha rota estava completamente traçada. Mantive o som ligado em um rock agitado no último volume durante todo o tempo, segui a risca o roteiro de viagem, parando nos lugares previamente determinados, apreciando a paisagem a minha volta tornando-se cada vez mais plana e escassa de árvores, com quilômetros e mais quilômetros de pastos verdes repleto de gado. Eu já estava muito perto de Montana, a cerca de duzentos quilômetros, em uma rodovia cujo destino era somente aquela cidade, quando passei por uma garota muito jovem, carregando uma mochila grande nas costas, pedindo carona. O sol estava escaldante e não havia sequer a sombra de uma árvore onde ela pudesse se abrigar, por isso fiquei com pena e parei, voltando de ré. Ela só podia estar indo para Montana também, pois a estrada não levava a outro lugar. — Olá. Querendo uma carona? — Indaguei, já tirando meus cacarecos digitais de cima do banco do carona. — Claro. Obrigada por ter parado. — Disse sorrindo, exibindo covinhas nas bochechas e entrou. Acomodou-se no assento, tirou a mochila das costas e de dentro dela, muito mais rápido do que eu pudesse esperar, sacou um revolver pequeno, apontando-o diretamente para a minha cabeça. — Não se mova! — Falou séria. Fiquei paralisada, com o sangue gelado nas veias, apenas minha mente trabalhando rapidamente em busca de uma saída. Porém, antes que eu conseguisse pensar em outra coisa que não em como me virar sem o dinheiro que estava no carro e sem o próprio carro, dois homens armados surgiram da lateral da estrada, de trás do declive que havia lá. Merda! Mas eu não tinha sorte mesmo! Eram dois garotos tão jovens quanto a menina que me fez parar. — Desce gatinha. Precisamos do seu carro. — Um deles falou, apontando-me sua arma do lado de fora da porta do motorista, enquanto o outro se mantinha ao seu lado como uma espécie de barreira para ocultar o que se passava de outros eventuais motoristas. Lembrei-me do dinheiro em minha bolsa, tudo o que consegui juntar durante aquela ultima semana estava dentro dela. Nem me passou pela cabeça guardar no banco para sacar quando precisasse, afinal nunca fui assaltada em mais de três anos morando em uma das cidades mais perigosas do país, que dirá no Goiás. Só então me dava conta do tamanho da minha estupidez. — Por favor, me deixe ficar apenas com minha bolsa, por causa dos meus documentos pessoais. Pode levar o carro. — Tentei. — Foda-se seus documentos! Desce logo da porra desse carro antes que eu enfie uma bala na sua cabeça. — O cara se impacientou e meu sangue gelou ainda mais de medo. Seria muito fácil para eles me matarem ali, visto que a estrada estava completamente deserta, não passava um carro desde que parei. Sem alternativa, saltei devagar, com as duas mãos erguidas no ar, sem nada além da roupa do corpo, para no instante seguinte ver os dois moleques entrando e dando a partida. Fizeram o retorno e seguiram em alta velocidade na direção de onde eu vinha. Fiquei parada no meio da estrada, ainda com as mãos erguidas no ar, observando meu carro indo embora, junto com meu dinheiro, até que desapareceu no horizonte e só então voltei a respirar, soltando o ar dos pulmões devagar, o desespero me tomando muito mais que o alívio por ter escapado com vida de um assalto.

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