
Depois daquela viagem...
Capítulo 2
Diogo
Tem coisa melhor do que ser livre?
Não tem, pois, eu vou para onde o barco da vida me levar.
O céu é meu limite.
Eu não tenho endereço fixo e acho que nunca fiquei mais do que seis meses no mesmo lugar.
Minha casa é minha mochila, meu teto o céu estrelado, comida e bebida eu ganho com o que sei fazer e olha que sei fazer muita coisa, afinal já fui: malabarista, garçom, lavador de prato, cozinheiro, faxineiro, instrutor de voo, de mergulho, de esqui e por aí vai...
Se tive vontade de ficar em algum dos lugares de estive?
Não, por uma simples explicação, não sou planta para criar raiz.
Aí podem me perguntar, mas e a sua família?
Aprendi a ser assim com eles, meus pais são hippies e nasci e cresci em uma comunidade que fica no interior do estado da Califórnia. Lugar onde aprendi a ser livre, amar e respeitar a natureza. Viver sem precisar de coisas materiais ou qualquer tecnologia.
Para mim, o importante é amar o próximo e amo até demais da conta, ainda mais se for uma linda mulher, com belas curvas, bunda redondinha e seios deliciosamente esculpidos.
Já me envolvi com muitas mulheres, mulatas, loiras, morenas, japonesas, mas nenhuma conseguiu fisgar meu coração. Sempre falo que quando meu coração for fisgado irei fixar morada, porém, acredito que não nasci para isso.
Eu sou um pássaro livre.
Quando completei quinze anos sai sem rumo em busca de algo que sentia falta e que ainda não sei o que é. Meus pais me apoiaram e disseram que sou um espírito livre, por isso deveria levantar voo e procurar meu próprio céu.
Até sinto falta deles, mas sei que eles também estão vivendo da maneira que querem. Nunca foram de me dar muita atenção, mas não posso reclamar de amor, afinal eles sempre me amaram muito do jeito deles.
Também nunca me repreenderam, ou deram castigos e broncas, na verdade, não sei o que é isso.
E olha que aprontei demais, eles já me pegaram fumando escondido, já me pegaram nu em um momento de pegação com uma garota, na cama deles.
E nunca disseram um "A".
A única coisa que me falaram, era que tivesse consciência dos meus atos e respondesse por eles e suas consequências, e essa é a lição que levo deles para a minha vida.
Preciso urgente pensar no meu próximo destino, já faz cinco meses que estou aqui, no Vale Nevado, aproveitando o inverno e ganhando uns trocados dando aulas de esqui, ou sendo camareiro nas horas vagas em uma pousada em troca de um lugar para dormir.
Estou cansado da neve, preciso de sol, calor, mulheres de biquíni, corpos suados, calor humano, me entendem?
Levanto da cama e chamo meu irmão.
— Rafa, Rafa, acorda, cara.
Rafael é meu melhor amigo e irmão caçula por consideração, vivíamos na mesma comunidade e quando ele tinha seis anos seus pais saíram à procura de aventura e nunca mais voltaram.
Não sabemos o que aconteceu com eles.
Todos na comunidade passaram a cuidar dele e eu por sempre querer ter um irmão que meus pais nunca me deram, o adotei como tal. Cuidei do moleque e ensinei tudo e mais um pouco, apesar de, as vezes, ele me ensinar algumas coisas. É onde tiro mais uma lição que vida sempre vai nos ensinando, afinal nunca sabemos de tudo e as coisas mudam na velocidade da luz.
Assim que sai em busca das minhas aventuras, levei meu irmão comigo. Rafael é um incrível companheiro de viagem e de vida, agradeço o dia que seus pais sumiram e o deixaram para trás.
— Me deixa dormir, cara, gastei muita energia com a coroa que estava dando aula particular. Apesar do clima frio tenho que dizer que ela era muito quente, se é que você me entende. — Ri.
Em resposta, jogo o travesseiro nele e acabo rindo junto.
— Você é fogo, pega tudo quanto é turista.
— Olha quem diz. — Continua rindo enquanto se senta esfregando os olhos. — O que aconteceu? A loirinha não deu conta do recado?
— Deu sim, mas não estava a fim de continuar ela. Certamente ela poderia se apegar e não quero fazer ninguém sofrer.
— Ou será que era você que estava se apegando?
— Não, irmão, meu coração ainda está livre e desimpedido de continuar amando sem se apegar. E espero continuar assim por um bom tempo. Mas estava pensando, a temporada está acabando e já estou cansado de tanta neve, preciso de sol e calor humano, se é que me entende, cara.
— Estava pensando nisso, irmão, até dei uma pesquisada e acho que encontrei o lugar perfeito.
— Então fala logo, cara.
— San Andrés, uma ilha localizada na Colômbia, América do Sul, lugar paradisíaco que tem aumentado o número de turistas com o passar dos anos. Com certeza encontraremos algo interessante a se fazer por lá e muitas pessoas interessantes para trocar experiência.
— Perfeito, cara, agora é só ganhar uns extras para comprar nossas passagens e sair daqui. Quem sabe em uma próxima temporada voltamos, ou não...
— Ou não, tudo vai depender dos nossos próximos destinos e o que a vida nos reserva. Agora levanta, irmão, precisamos começar a providenciar a nossa ida e fazer dinheiro. Você não em nenhuma aula particular de esqui hoje?
— Não sei ainda, preciso ir à recepção do hotel e ver o que tem para mim, hoje. Apesar que a coroa me disse que iria querer um bis. — Pisca um olho.
— Bom, eu vou nessa, tenho dois alunos agora cedo e depois volto para arrumar uns quartos e garantir a nossa pernoite.
— Va lá, irmão, vou me trocar e ir ver minha agenda do dia. Até mais.
Termino de me arrumar, tomo um café preto que deixei preparando assim que acordei na cafeteira e saio do quarto deixando Rafael se arrumando.
Sigo para meu dia que sei como começa, mas nunca como termina.
Fui ensinado que vida é uma caixinha de surpresa e nunca sabemos o que encontraremos na próxima esquina.
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