
De Tolo a Justiceiro
Capítulo 2
Este deveria ter sido o dia mais feliz da minha vida.
Mas renasci no inferno.
Eram três da manhã quando o avião pousou, e eu corri diretamente para o nosso apartamento. O apartamento que eu comprei com meu suor e sangue, mas que agora abrigava o sonho de outra pessoa.
Eu estava do lado de fora da porta do quarto, a chave já na fechadura, mas hesitei.
Lá de dentro, vinha a voz preguiçosa e satisfeita de um homem.
"Sofia, meu amor, por que você ainda mantém contato com aquele Ricardo? Ele é tão chato, sempre te ligando, perguntando sobre isso e aquilo. Você não se cansa dele?"
A resposta de Sofia foi suave, quase um sussurro, mas cada palavra perfurou meu coração.
"Pedro, querido, seja paciente. Ricardo ainda é útil para mim. O estúdio precisa do dinheiro dele para se manter. E os designs dele... bem, eles são a base do nosso sucesso."
Ela fez uma pausa, e eu podia imaginar o sorriso em seus lábios.
"Assim que eu conseguir o grande investimento e a marca se estabilizar, eu o deixarei. Ele é apenas um trampolim. Um tolo apaixonado que acredita em cada palavra que eu digo."
Um tolo apaixonado.
Era isso que eu era.
Minha mente voltou para cinco anos atrás. Eu era Ricardo, um arquiteto promissor, recém-formado com honras. Tinha ofertas de emprego das melhores firmas do país. Sofia, minha namorada desde a faculdade, tinha um sonho: construir um império da moda.
Eu a amava mais do que a minha própria carreira.
Abandonei tudo. Recusei os empregos dos sonhos e peguei um trabalho pesado e mal pago em uma construtora em um país distante, um lugar onde o sol queimava a pele e o trabalho físico quebrava as costas. Tudo para que ela pudesse ter o capital inicial para seu estúdio de moda.
"Amor, é só por um tempo," ela me disse com lágrimas nos olhos no aeroporto. "Assim que a marca decolar, você voltará e seremos os arquitetos do nosso próprio futuro. Nós construiremos nossa casa, nosso tudo. Juntos."
Eu acreditei nela.
Por cinco anos, vivi em um cubículo mofado. Comia o pão mais barato, vestia roupas de segunda mão e trabalhava dezoito horas por dia. Cada centavo que eu economizava, eu enviava para ela. Todo mês, sem falta. Eu via meu corpo ficar mais magro, minhas mãos mais calejadas, mas meu coração estava cheio de esperança. Eu estava construindo nosso futuro.
Enquanto isso, Sofia estava construindo um futuro, mas não era o nosso.
Eu já tinha visto os sinais, mas me recusei a enxergá-los. As fotos que ela postava nas redes sociais, sempre em restaurantes caros, vestindo roupas de grife. E ao lado dela, sempre o mesmo rosto sorridente: Pedro, seu "jovem e talentoso assistente" .
A voz de Pedro soou novamente, manhosa e infantil.
"Mas Sofia, o relógio que você me deu no mês passado custou o salário de um ano inteiro daquele idiota. Você não acha que já tiramos o suficiente dele? E o apartamento dele aqui na cidade... por que eu ainda tenho que morar no meu lugarzinho quando este aqui é tão grande?"
"Shhh, querido," Sofia o acalmou. "Eu já disse, paciência. Ricardo mal vem aqui. Este lugar é praticamente nosso. Use-o como quiser. Apenas não quebre nada que ele possa notar."
Meu apartamento. O lugar que eu paguei com cinco anos da minha vida, da minha saúde, era o ninho de amor deles. O dinheiro que eu enviava, suado e sofrido, que mal me permitia comer três vezes ao dia, era usado para comprar relógios de luxo para o amante dela.
A bile subiu pela minha garganta.
Um sentimento de injustiça tão profundo, tão avassalador, que fez meu corpo tremer. Eu olhei para minhas mãos, para as cicatrizes e os calos que contavam a história do meu sacrifício. E pensei no rosto sorridente e bem-cuidado de Pedro.
A raiva era uma chama fria se espalhando pelas minhas veias.
Eu não era mais o Ricardo ingênuo. Aquele homem morreu em algum lugar entre as vigas de aço e o concreto empoeirado de um país estrangeiro. O homem que estava aqui agora, do lado de fora desta porta, era um fantasma faminto por justiça.
Minha mão, antes hesitante, agora estava firme.
Girei a chave.
A porta se abriu com um clique suave, mas para mim, soou como o tiro de largada para uma guerra.
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