
De Tolo a Justiceiro
Capítulo 3
Dentro do quarto, a cena era exatamente como a minha pior imaginação havia pintado.
Sofia e Pedro estavam deitados na cama, a mesma cama que eu montei com minhas próprias mãos. Ela usava um de seus caros pijamas de seda, e ele estava sem camisa, o braço possessivamente em volta da cintura dela. Um relógio de ouro brilhava em seu pulso.
A voz de Pedro continuou, carregada de desdém.
"Sério, Sofia, como você conseguiu ficar com um cara tão sem graça por tanto tempo? Ele nem tem senso de estilo. As roupas que ele usa... parecem ter saído de um brechó."
Sofia riu, um som que antes era música para meus ouvidos, mas que agora soava como vidro quebrado.
"Ele é um bom homem, Pedro. Um bom homem estúpido. Ele acredita que sacrifício é a maior prova de amor. Deixe-o acreditar. O sacrifício dele está pagando por este pijama de seda que você tanto gosta."
Foi nesse momento que eu entrei no quarto.
O silêncio caiu como uma pedra.
Os olhos deles se arregalaram em choque. Pedro se sentou abruptamente, tentando cobrir o peito nu com o lençol. Sofia congelou, o sorriso morrendo em seu rosto, substituído por uma máscara de pânico.
O contraste era brutal. Eu, parado na porta, com minhas roupas de trabalho gastas, sujo da viagem, magro e com olheiras profundas. Eles, na minha cama, em meio a lençóis de algodão egípcio, parecendo relaxados, bem alimentados e vestidos com o luxo que o meu dinheiro comprou.
"Ricardo!" Sofia gaguejou, a primeira a quebrar o silêncio. "O que... o que você está fazendo aqui? Você não disse que só viria no próximo mês?"
Ela se levantou apressadamente, tentando parecer casual, ajeitando o pijama de seda.
"Pedro e eu estávamos... uh... discutindo o novo design da coleção. Ele teve uma ideia brilhante e veio me mostrar."
Pedro, recuperando-se do choque inicial, tentou um sorriso arrogante.
"Isso mesmo. Negócios. Sabe como é, a inspiração não tem hora."
A desculpa era tão patética, tão insultuosa, que eu quase ri.
Eu ignorei Pedro. Meus olhos estavam fixos em Sofia.
"Eu te liguei ontem," eu disse, minha voz calma, quase sem emoção. "Eu disse que não tinha dinheiro para o jantar. Eu comi pão com água. Você se lembra do que me disse?"
Sofia empalideceu.
"Você me disse para aguentar firme, que o sucesso estava próximo."
Eu dei um passo para dentro do quarto. Meus olhos foram para o relógio no pulso de Pedro.
"Aquele relógio. É bonito."
Pedro instintivamente cobriu o pulso com a outra mão.
Eu continuei, a voz ainda no mesmo tom monótono. "Eu enviei para você dois mil dólares na semana passada. Eram minhas economias dos últimos três meses. Eu disse que era para o aluguel do novo showroom. Onde está o dinheiro, Sofia?"
O rosto de Sofia se contorceu. "Ricardo, não seja ridículo! O dinheiro foi usado para o negócio, claro!"
"Então por que Pedro está usando um relógio que vale mais do que o meu salário de um ano? E por que você está usando um pijama que custa o mesmo que o aluguel do meu apartamento por seis meses?"
A voz dela subiu, tornando-se estridente. "Você está me acusando? Depois de tudo que eu fiz por nós? Eu estou construindo um império aqui! Você não entende os custos envolvidos? Representação é tudo neste ramo! Precisamos parecer bem-sucedidos para atrair investidores!"
"Parecer bem-sucedida?" Eu finalmente deixei a raiva transparecer. "Você parece bem-sucedida. Pedro parece bem-sucedido. E eu? Como eu pareço para você, Sofia? Eu pareço o tolo que paga a conta?"
A verdade em minhas palavras a atingiu. Por um momento, a máscara dela caiu e eu vi um lampejo de culpa em seus olhos. Mas foi apenas um momento. Ela rapidamente se recompôs, e a frieza tomou conta de suas feições.
"Você não entende nada sobre o meu mundo, Ricardo. Você está preso ao seu trabalho braçal, ao seu mundinho de sacrifício. Você não tem a visão para o que estou construindo. Pedro tem."
Ela se virou para Pedro, colocando a mão em seu braço, um gesto claro de aliança. Ela o escolheu. Ali, na minha frente.
Naquele instante, Pedro, vendo que tinha o apoio total de Sofia, decidiu encenar o ato final. Ele gemeu e se dobrou, segurando o estômago.
"Ai... Sofia, minha úlcera... acho que o estresse..."
Imediatamente, toda a atenção de Sofia se voltou para ele. A preocupação em seu rosto era genuína, uma preocupação que eu não via direcionada a mim há anos.
"Oh, meu Deus, Pedro! Você está bem? Vem, deite-se. Vou pegar seu remédio."
Ela o ajudou a se deitar, ajeitando os travesseiros, falando com ele em um tom suave e carinhoso.
Ela nem olhou para trás.
Ela simplesmente me deixou ali, parado no meio do meu próprio quarto, como um estranho, um fantasma indesejado que havia interrompido a vida feliz deles.
Eles saíram do quarto, Sofia amparando o farsante, suas vozes preocupadas ecoando pelo corredor.
Eu fiquei sozinho.
Sozinho com a traição, com a humilhação, e com a certeza fria e dura de que tudo o que eu acreditava ser verdade era uma mentira.
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