
De Repente Pai
Capítulo 2
Capítulo 02
Bryan O'Connell
Quando eles terminam o banho, entrego as toalhas para que ambos possam se secarem. Já secos eles vestem o pijama e me entregam as toalhas molhadas.
Pego uma toalha seca e aquecida no porta toalhas e seco o cabelo do T1 e depois do T2. Dormir com cabelo molhado pode ficar doente, meu pai sempre dizia isso.
Caramba! O que meu pai vai pensar quando descobrir isso? Vai é arrancar minhas orelhas de tanto as puxar isso sim.
— Preciso arrumar um jeito de identificar vocês. Não consigo saber quem é quem. — Murmuro e recebo em troca risinhos dos pestinhas.
— Só mamãe e a Lilian sabem. Até nossa professora se confundia.
Professora! Merda. Claro que eles estudam seu babaca. Repreendo—me por tamanha lerdeza.
Eles mesmo penteiam os cabelos e não demora para ouvirmos alguém bater à porta.
— Deve ser nossa pizza.
Vou até a porta, onde Caio me entrega a caixa de pizza e uma sacola com o refrigerante, assim como também os copos.
— Já peguei os copos lá na cozinha e trouxe. Como estão as coisas por aqui?
— Se ajeitando. E lá em baixo?
— A galera está querendo saber quem são as crianças e o que aconteceu. Falei que depois você contava. Inventei uma desculpa de que eles são filhos de uma prima sua, mas não sei se colou.
Se colar colou ou, não, não importa. Não devo nada a ninguém.
— Obrigado Caio. Por favor cuide de tudo lá em baixo para mim e ver se não deixa que destruam minha casa.
— Pode deixar, cara. Amanhã a gente conversa. — Faço que sim com a cabeça e fecho a porta.
—Vamos comer!
— Oba! Eu estou com fome. — Fala T1 ou será T2? Sentando-se no chão perto do sofá.
— Eu também. Minha barriguinha chega roncou agora.
Sorrio com a cara dos dois, abrindo a caixa da pizza e colocando-a na frente deles tirando uma fatia e entregando a cada um.
— Ui, está quente! — Merda! As mãos deles são sensíveis seu idiota.
— Desculpa. Deixe esfriar um pouco, vou colocar o refrigerante no copo.
Não sei se é a fome ou se realmente esfriou, mas logo eles estão comendo. Que bom que eles não têm frescura para comida. Se bem que pizza não tem como não gostar.
Pedi uma pizza grande, o que dá para nós três, comer. Quando terminamos falo para escovarem os dentes, enquanto recolho tudo colocando em um canto perto da porta, para depois descer e jogar no lixo.
Arrumo a cama para que os dois possam se deitar e procuro em meu celular um livro de história infantil para poder ler. Cara, quando foi que eu li história infantil?
Não leio nem adulta.
Em fim encontro uma história de uma estrelinha.
— Terminamos. — Falam chegando perto de mim e mostrando os dentes limpos.
— Ótimo. Banho tomado, barriga cheia, dentes escovados... acho que está tudo certo. Agora, cama.
— E a historinha?
— Vou ler alguma coisa que achei aqui na Internet.
— A gente tem livros lá em Nova York, só que está nas coisas que Lilian embalou.
— Certo. Vamos improvisar aqui. — Não quero pensar em caixas agora. Só os dois já bastam para me fazer entrar em parafuso. Já estou quase surtando só em imaginar que eles possam de fato serem meus.
Me deito na cama e para minha surpresa cada um fica de um lado me fazendo de sanduíche.
Ajeito-me para que ambos fiquem confortáveis e então começo a história.
— A ESTRELINHA MALANDRINHA — da autora Tânia Santos.
— A Lilian disse que a mamãe virou uma estrelinha. — Sussurra... quem é ele mesmo? T1, T2? Amanhã vou dá um jeito de identificar cada um nem que seja amarrando uma fitinha em cada braço, ou comprando uma daquelas pulseiras com a plaquinha para colocar o nome. Alguma coisa vou ter que fazer.
— Tenho certeza que sim. — Respondo voltando para meu celular pois não quero ver os mesmos tristes.
— Quero ouvir a história da estrelinha. — Resmunga o outro do meu lado esquerdo, esfregando os olhinhos.
— Então vamos lá. Prontos?
— Sim...
— A ESTRELINHA MALANDRINHA. A estrelinha vivia no céu, mais precisamente na via láctea. Sabem o que é a via láctea?
— Não.
— É um sítio no céu onde habitam milhões de estrelas. Tem a forma de espiral e quando olhamos para ela, é como se algum anjo, ao passar, tivesse estendido uma faixa brilhante de luz pelo seu caminho...
Quando estou na metade da história vejo que ambos já estão de olhos fechados e começo a imaginar o que devo fazer.
Primeiro preciso ler a tal carta e tentar pelo menos começar a entender tudo isso. Uma explicação há de ter.
Eles são mesmo muito parecidos comigo quando criança, mas preciso de certeza antes de qualquer decisão, afinal, como já disse, eu nunca transei sem camisinha. Sei que se eles realmente forem meus, minha vida terá que mudar e muito e, não estou afim de pensar nisso agora.
Me levanto e com cuidado arrumo sobre eles o lençol, caminhando para as janelas que dão para varanda de onde vejo o mar e posso ouvir o quebrar das ondas.
Respiro fundo tentando tomar coragem para enfrentar tudo isso, voltando para o quarto e procuro na mala pela carta que a tal Lilian mencionou, quando a encontro volto para a varanda onde me sento em uma espreguiçadeira, olhando o envelope em minhas mãos e vejo que está endereçado a mim. Abrindo-o, puxando de dentro uma folha escrita à mão e então começo a ler.
***
Bryan!
Se estiver lendo essa carta é porque eu não resisti e já parti para o outro lado. Primeiro quero que saiba que eu nunca imaginei que seria assim que um dia você saberia dos dois. Acho que na verdade nunca imaginei que você um dia os conheceria.
Não é por maldade, só acho que não é o que você queria e certo ou errado, eu só queria os proteger.
Nos conhecemos a 6 anos em uma festa aqui em New York. Você tinha 19 anos eu acho, estávamos comemorando que seu pai tinha vencido as eleições para o senado. Eu era uma das muitas pessoas que tinha se voluntariado na campanha, no meu caso acho que mais pela influência das minhas amigas. Nós dois acabamos saindo e passamos a noite juntos. No outro dia, você se foi, eu nem sei para onde, só soube que você tinha viajado. Isso não me importava, eu sabia que não teria uma segunda noite, não com o Bryan O’Connell.
Tudo estava certo. Com o fim da eleição segui meu caminho voltando a me dedicar apenas aos meus estudos. Eu sempre fui cdf então cedo, (pelo menos para minha idade) eu já estava fazendo residência médica, e já estava terminando minha residência quando descobri.
Descobri que estava grávida e como o último cara que eu tinha transado nos últimos 6 meses foi você, eu soube que era seu.
Foi um choque. Confesso que no início pensei em interromper a gravidez, mas não consegui. Foi difícil e muito complicado fazer a residência enquanto minha barriga crescia. Vida de residente não é fácil, pode ter certeza.
Quando descobri que eram gêmeos meu desespero só aumentou eu não sabia o que fazer, por sorte tinha amigos que me apoiaram e me ajudaram. Consegui terminar minha residência mesmo carregando em meu ventre dois bebês, estava começando minha especialização e tudo estava se encaixando.
Eles são maravilhosos são o xodó de todos aqui. Mas é você o pai deles. E se estou partindo, é com você que eles devem ficar.
Eu sofri um acidente de carro. Meu corpo todo está lutando, mas sei que vai ser quase impossível sair dessa. Não sou eu que estou escrevendo, estou ditando e minha amiga escrevendo. Eu sinto que não vou resistir e quero deixar meus dois tesouros em segurança.
A Lilian os levará até você. Ela também cuidará para que minhas coisas sejam enviadas. Tenho alguns imóveis e outros bens que meus pais deixaram para mim, estou deixando uma procuração para que você cuide de tudo. Venda se achar melhor. Só peço que cuide dos nossos filhos. Eles são seus Bryan. Por favor, cuide deles.
Eu preciso parar, estou muito cansada, usei todas as minhas forças para que essa carta fosse escrita.
Obrigada por ter me dado mesmo sem querer esses dois presentes. Agora estou passando-os para você. Cuide bem deles e se cuide.
Com carinho.
Thalita.
Puta que pariu!
Vejo a tal procuração dentro do envelope e nem sei o que fazer com isso, minha vida está aqui em Santa Monica. Meu trabalho, minha vida é aqui. Volto a olhar a carta e me lembro dessa festa, e até lembro da garota, mas como isso aconteceu? Sei que nenhum método é 100% seguro, mas caralho, como isso pode acontecer logo comigo?
Mas que merda grande!
— Eu não sei como é ser pai — falo para as estrelas — mas prometo que vou cuidar deles. Se você conseguiu, eu também consigo.
Enxugo uma lágrima que desce em meu rosto, guardo a carta de volta no envelope e volto para o quarto parando ao lado da cama olhando os dois inocentes que dormem tranquilamente.
— Seremos nós três, pequenos. Não sei como vou fazer, peço que vocês tenham paciência comigo, pois sei que vou errar muitas vezes, mas prometo que tentarei ser um bom pai para vocês. Para começar, preciso aprender a identificar vocês.
Olho seus rostinhos que são iguaizinhos. Nariz, boca, cabelos... e então vejo algo que me faz sorrir. Um pequeno sinal perto da orelha. Olho no outro e o sinal está atrás do pescoço. Começo a rir, pois esse sinal é de família. Meu pai tem, assim como eu também o tenho. O meu fica nas costas e o do meu pai fica bem no quadril.
— Agora eu não me perco mais.
Descobri o segredo para identifica-los e amanhã sorrateiramente descobrirei quem é quem e a partir daí nada mais de ficar perdido.
Penso na festa lá em baixo e sei que essa será a última, pelo menos nesse estilo, aqui em casa.
Quem diria, Bryan O'Connell, o puteiro, De Repente Pai!
É cara, sua vida nunca mais será a mesma!
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