
De Quebrada a Amada, Minha Jornada
Capítulo 2
O caminho de volta para nossa casa, antes compartilhada, foi um borrão de luzes piscantes e vozes abafadas. O carro parecia um caixão, me isolando do mundo, mas o julgamento do mundo ainda se infiltrava por todas as frestas. Eu olhava pela janela, mas as luzes da cidade não ofereciam conforto, apenas um reflexo distorcido do meu próprio rosto despedaçado. Minha mente estava entorpecida, meu corpo uma casca vazia.
Saí do carro, a fachada grandiosa da mansão dos Guedes se erguendo sobre mim. Não era mais um lar. Era uma gaiola dourada. Um monumento a uma mentira. A pesada porta de carvalho se abriu, e lá estava ele, parado no hall de entrada como se esperasse uma esposa obediente voltar de um recado. Seu terno ainda estava perfeitamente passado, seu cabelo bem penteado. A marca vermelha em sua bochecha era a única evidência da tempestade que tínhamos acabado de enfrentar.
"Kiara", disse André, sua voz suave, quase gentil. "Vamos conversar. Por favor."
Passei por ele, meu olhar fixo na escadaria ornamentada. Eu não conseguia olhá-lo. Cada fibra do meu ser gritava por fuga. Parei junto à grande janela com vista para os jardins bem cuidados, a imagem perfeita de uma vida à qual eu não pertencia mais.
"Kiara, eu sei que você está magoada", ele continuou, com uma sinceridade ensaiada em seu tom. "Mas você tem que entender. Minha carreira, nosso futuro... está tudo ligado a isso. Tínhamos que controlar a narrativa."
Eu zombei, um som seco e sem humor. "Nosso futuro? Você acabou de declarar nosso futuro morto em rede nacional, André. Você me fez de mentirosa, de louca. Você negou nosso filho."
"Foi pela campanha, Kiara!" Ele se aproximou, sua voz aumentando em frustração. "Pelo Senado! Você não entende o que está em jogo aqui? Um escândalo, e tudo pelo que trabalhei, tudo pelo que trabalhamos, desmorona."
"Tudo pelo que você trabalhou?" Eu finalmente me virei, meus olhos em chamas. "Não se atreva a dizer 'nós'. Eu cozinhei suas refeições, organizei seus eventos de arrecadação de fundos, sorri para todas as câmeras e coloquei meus próprios sonhos em espera pela sua ambição. Eu era a esposa perfeita do Senador! E você me pagou me humilhando publicamente, negando a própria vida que criamos!"
"Foi um mal necessário!" ele praticamente gritou. "Cássia está grávida. Isso ia vazar eventualmente. Precisávamos nos antecipar. Mudar a história. Mostrar força e uma nova direção." Ele passou a mão pelo cabelo, agitado. "Você não entende como este jogo é jogado, Kiara. É brutal."
"Brutal?" Eu ri, um som agudo e amargo. "Brutal é negar seu próprio sangue por um cargo político. Brutal é ficar ao lado de sua amante, exibindo a gravidez dela, enquanto sua esposa carrega seu filho. Você ao menos se escuta, André? E o bebê dela, André? Aquele que você tão orgulhosamente reivindicou? E o meu? Aquele que você jogou fora como lixo de ontem?"
Minhas palavras pareceram atingi-lo. Ele recuou ligeiramente, seu rosto se contorcendo. Por um momento, um lampejo genuíno de dor, ou talvez apenas desconforto, cruzou suas feições.
Ele respirou fundo, depois se ajoelhou. Literalmente. Meu marido, o menino de ouro da política, ajoelhou-se diante de mim, com as mãos postas. "Kiara, por favor. Eu te amo. De verdade. Não era assim que eu queria. Mas podemos consertar isso. Você e eu, somos uma equipe."
Seu toque, quando ele alcançou minha mão, pareceu estranho. Frio. Repulsivo. A conexão estava rompida. Puxei minha mão como se ele fosse um estranho. Ele era.
"Eu tenho um plano", disse ele, sua voz desesperada, mas ainda com um toque de seu charme calculado habitual. "É audacioso, eu sei, mas é a única maneira de salvar tudo."
Meu estômago revirou. Um plano. Vindo de André, isso sempre significava que outra pessoa se machucaria. "Que plano?" perguntei, minha voz sem expressão.
"Você continua sua gravidez", disse ele, seus olhos brilhando com o que ele achava ser genialidade. "Discretamente. Longe dos olhos do público. E Cássia... Cássia terá o bebê dela. Então, quando a eleição acabar, quando eu estiver firme no Senado, anunciamos que você sofreu um trágico aborto espontâneo. E então, nós 'adotamos' o filho de Cássia. Nosso filho. Ele se torna nosso filho, Kiara. O público vai nos adorar. Uma narrativa simpática. Uma família unida pela tragédia e pelo amor."
Meu queixo caiu. A pura audácia. A crueldade. "Você quer que eu finja um aborto espontâneo? E depois finja adotar meu próprio filho? Da sua amante?" Minha voz subia a cada palavra, incrédula.
"É a única maneira, Kiara!" ele insistiu, levantando-se de um salto. "Todos concordam. Minha mãe, meu pai, até... até seus pais. Todos eles veem o quadro geral. O legado. O poder."
Meus pais. Meus pais adotivos. A dor mais aguda até então. Eles sempre estiveram mais interessados no nome Guedes do que em mim. Agora, por status, por proximidade com o poder, eles trairiam sua própria filha. Engoli um soluço.
"Você falou com meus pais sobre este... este esquema monstruoso?" sussurrei, minha voz grossa de traição. "Antes mesmo de falar comigo?"
"Eles entendem", disse ele, ignorando minha pergunta, suas palavras ganhando impulso. "Isso é maior do que nós, Kiara. Maior do que nossos sentimentos pessoais. Trata-se do legado da família, do poder político. É uma corporação, uma dinastia. E você é uma peça-chave."
"Eu sou uma mulher carregando nosso bebê!" gritei, os últimos vestígios da minha compostura se quebrando. "Não uma 'peça-chave' no seu jogo doentio e distorcido! Isso é sobre a vida, André! Sobre uma criança que merece ser reconhecida, amada, valorizada!"
"E ela será!" ele rebateu, sua voz agora afiada, perdendo o tom desesperado. "Como filho de um Senador da República! Uma criança privilegiada! Você está deixando suas emoções nublarem seu julgamento, Kiara. Pense logicamente."
"Logicamente?" Eu o encarei, meus olhos ardendo. "Você quer que eu aborte minha identidade, aborte minha maternidade, aborte minha dignidade, tudo para que sua narrativa política possa sobreviver? Você quer que eu sacrifique a própria legitimidade do meu filho pela sua carreira?"
"Kiara Moraes", disse ele, usando meu nome completo. Seu tom era frio, formal. "Não seja dramática. Esta é uma decisão de negócios. Um movimento estratégico. Você é uma mulher inteligente. Você vai entender."
"Não." Minha voz era baixa, mas firme. "Eu não entendo. E eu quero o divórcio."
Seus olhos se arregalaram novamente, mas desta vez, foi com um cálculo arrepiante. "Divórcio? Kiara, não seja tola. Isso seria um desastre. Para nós dois. Especialmente para seus sonhos de restaurante. Você sabe o quanto eu investi."
"Eu não me importo mais com o restaurante. Eu não me importo com nada que você construiu sobre mentiras."
Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Você vai se importar, Kiara. Porque se você tentar ir embora, se tentar me expor, eu vou garantir que você perca tudo. Seu nome, sua carreira, sua reputação. Você será uma pária. E esse bebê, seu 'filho do amor', não terá pai, nem nome, e certamente nenhum prestígio." Seus olhos, geralmente charmosos, agora estavam duros, desprovidos de qualquer calor. "Você fará o que eu digo. Você não tem escolha."
Lutei contra seu aperto, mas foi inútil. Ele era mais forte. Eu estava presa. Presa nesta casa, presa neste casamento, presa em sua teia de enganos. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro preso batendo as asas descontroladamente. Um pavor frio se infiltrou em meus ossos. Ele não estava pedindo. Ele estava mandando.
De repente, a campainha tocou, um som educado e insistente que quebrou o silêncio tenso. O aperto de André afrouxou. Ele soltou meu braço, seu rosto recuperando parte de sua compostura.
A porta se abriu. Berenice Valter estava lá, flanqueada pela imponente mãe de André, Evelyn Guedes. E atrás deles, meus pais adotivos, Haroldo e Sônia Moraes, parecendo pálidos e desconfortáveis. E então eu a vi. Cássia. Ela estava lá, uma pequena mala de viagem a seus pés, um olhar recatado e inocente no rosto.
Evelyn Guedes entrou no hall, seus olhos me avaliando com desdém. "André, querido, estamos aqui para ajudar. Cássia, querida, entre. Esta é sua casa agora." Ela se virou para mim, seus lábios uma linha fina e cruel. "Kiara, querida, acredito que nossa convidada precisará do seu quarto principal. É o mais sensato, dada a sua condição delicada."
Meu mundo inclinou novamente. Minha casa. Meu quarto. Minha vida. Tudo sendo sistematicamente arrancado de mim. Eu não era mais uma esposa, uma parceira, uma futura mãe. Eu era um inconveniente. Um problema a ser gerenciado. Uma ocupante temporária. Meu destino estava selado.
Você pode gostar





