
De Quebrada a Amada, Minha Jornada
Capítulo 3
As palavras de Evelyn Guedes pairaram no ar, uma declaração de guerra disfarçada de comando educado. "Kiara, querida, acredito que nossa convidada precisará do seu quarto principal. É o mais sensato, dada a sua condição delicada." André ficou em silêncio ao lado de sua mãe, seu olhar evitando cuidadosamente o meu, mas os olhos de Cássia, brilhando de triunfo, encontraram os meus e os seguraram. Um sorriso lento e sutil brincou em seus lábios.
Minha mãe adotiva, Sônia, correu para frente, não para mim, mas para Cássia. "Oh, Cássia, querida! Você está bem? Deve estar exausta." Ela se preocupou com ela, alisando seu cabelo, suas mãos pairando delicadamente sobre a barriga crescente de Cássia. Era uma pantomima grotesca de preocupação maternal.
Meu pai adotivo, Haroldo, apenas me ofereceu um olhar fraco e desdenhoso. Sua expressão dizia tudo: Você já causou problemas suficientes. Apenas coopere. A lealdade deles, sempre condicional, havia se deslocado inteiramente para a família Guedes, para o nome poderoso, para a promessa de contínua ascensão social. Eu era uma baixa.
"Meu quarto?" sussurrei, as palavras presas na garganta. Este era meu santuário, meu espaço privado. Agora, até isso estava sendo invadido. A injustiça me sufocou.
Antes que eu pudesse protestar mais, uma empregada, com o rosto impassível, começou a carregar uma caixa com meus pertences pessoais do quarto principal. Minhas roupas, meus livros, minhas fotografias – tudo sendo sistematicamente removido, abrindo espaço para a mulher que havia roubado minha vida. Era um ato tangível de apagamento.
André finalmente falou, sua voz cuidadosamente neutra. "É só por um tempo, Kiara. Pelas aparências. Até as coisas se acalmarem." Ele não olhou para mim quando disse isso.
"Aparências?" retruquei, minha voz tremendo de raiva contida. "Então, eu desapareço da minha própria vida, da minha própria casa, por 'aparências'? De quem são as aparências que estamos mantendo, André? As suas? Ou as dela?" Meu olhar se voltou para Cássia, que agora estava sendo levada escada acima por Sônia, uma expressão presunçosa no rosto.
"É sobre a narrativa, Kiara", respondeu André, seu tom ficando impaciente. "Precisamos de uma história limpa e simpática para a eleição geral. Você entende isso. A verdade é... secundária à imagem."
"Então a verdade não significa nada?" perguntei, minha voz quase inaudível. O vazio ecoou no grande salão.
"A verdade é o que nós fazemos dela, Kiara", disse ele, seus olhos agora frios e distantes, já calculando como distorcer isso ainda mais. "E agora, nossa verdade precisa ser simples: o candidato enlutado, encontrando amor e uma nova família em meio a turbulências pessoais. Uma história de resiliência e esperança."
Minha vida se tornou um pesadelo sufocante. André era um fantasma, sempre ocupado, sempre trabalhando, sempre com Cássia. Eles eram uma frente unida, aparecendo em eventos, de mãos dadas, pintando um quadro de amor recém-descoberto para as câmeras. Evelyn Guedes assumiu a casa, administrando-a como uma operação militar, atendendo a todos os caprichos de Cássia. Sucos orgânicos, massagens pré-natais especiais, roupas de maternidade sob medida – Cássia recebia tudo. Minha própria gravidez, enquanto isso, era tratada como se não existisse. Ignorada. Apagada.
Tentei falar com André, apelar para qualquer resquício de humanidade que restasse nele. Ele sempre tinha uma desculpa: uma reunião, um telefonema, uma sessão de estratégia noturna com Berenice. Ele nunca estava disponível. Nunca estava lá. Meus pais adotivos, antes minha única família, pareciam ter esquecido completamente que eu existia, absorvidos pela glória refletida da máquina Guedes. Eu estava completamente sozinha, uma prisioneira em minha própria casa. Meu mundo encolheu para os confins do meu pequeno quarto de hóspedes.
Uma tarde, desci até meu antigo estúdio, aquele em que eu havia derramado meu coração, imaginando-o como a cozinha de testes para o meu restaurante dos sonhos. A porta estava entreaberta. E lá estava ela. Cássia. Ela estava parada no meio do meu espaço, admirando o forno industrial que eu havia escolhido meticulosamente, as bancadas de preparo feitas sob medida, as prateleiras repletas de meus livros de receitas.
"Oh, Kiara", ela ronronou, virando-se, um sorriso sacarino no rosto. "Isso é simplesmente encantador. André disse que você tinha um pequeno hobby. Eu não tinha ideia de que você era tão... ambiciosa." Ela pegou uma das minhas panelas de cobre, virando-a nas mãos como se fosse um brinquedo. "Coisas tão lindas. Imagine, uma cozinha adequada para preparar refeições nutritivas para o meu bebê. E talvez, quando as coisas se acalmarem, eu possa aprender algumas coisas com seus livros de receitas." Seus olhos brilhavam com uma malícia consciente. "Imagino que você não vai mais precisar deles, não é? Com todos os seus... novos arranjos."
Uma onda fria me percorreu. Ela estava insinuando que meu restaurante, minha paixão, minha identidade, era o próximo na lista de corte. "Saia", eu disse, minha voz baixa e trêmula.
Cássia apenas arqueou uma sobrancelha. "Oh, mas querida, André disse que este espaço seria perfeito para minha ioga e meditação. E talvez, mais tarde, um berçário. É tão claro e arejado." Ela olhou ao redor, já redesenhando meu sonho em sua mente. "Uma pena que você não tenha feito melhor uso dele, realmente."
Um grito primal se formou em meu peito. Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu avancei, um borrão de fúria pura e inalterada. Eu queria arrancar aquele olhar presunçoso de seu rosto. Eu queria arranhar seus olhos. Eu queria fazê-la sentir uma fração da dor que ela havia me infligido.
Mas antes que eu pudesse alcançá-la, André invadiu a sala. Ele me agarrou, me puxando para trás com uma força que me surpreendeu. "Kiara! O que você está fazendo?!" ele rugiu, seu rosto contorcido de raiva. Ele me empurrou para longe, depois se virou para Cássia, envolvendo-a com um braço protetor.
Cássia, aproveitando seu momento, desabou dramaticamente contra ele, soluçando histericamente. "Ela... ela me atacou, André! Ela tentou machucar o bebê! Oh, minha cabeça, meu bebê..." Sua performance foi impecável.
André me fuzilou com o olhar, seus olhos cheios de desprezo. "Como você pôde, Kiara? Você está completamente louca? Atacando uma mulher grávida? Minha esposa grávida?"
"Ela não é sua esposa!" gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Eu sou! E estou grávida! Com seu bebê! Ela estava zombando de mim, André! Ela estava tomando meu estúdio, minha vida!"
Ele não ouviu. Apenas segurou Cássia mais forte, murmurando palavras de consolo em seu cabelo. Ele acariciou suas costas enquanto ela continuava seus soluços falsos. Naquele momento, eu soube. Eu havia perdido. Completamente. Ele sempre acreditaria nela. Ele sempre a protegeria. E eu sempre seria a vilã.
Mais tarde naquela noite, a casa estava silenciosa. Eu estava deitada na cama, olhando para o teto, o vazio familiar em meu peito uma companhia constante. Uma batida suave na porta quebrou o silêncio. Evelyn Guedes, a mãe de André, entrou sem esperar por uma resposta. Ela estava vestida com um robe de seda, seu cabelo prateado perfeitamente penteado, mesmo àquela hora tardia. Sua presença sempre parecia uma corrente de ar frio.
"Kiara", disse ela, sua voz desprovida de calor. "Precisamos conversar. Seu comportamento hoje foi... inaceitável. Você está se tornando um problema."
Sentei-me, meu coração batendo forte. "Eu fui provocada! Ela estava no meu estúdio, ameaçando tomar tudo!"
Evelyn apenas ergueu uma sobrancelha perfeitamente esculpida. "Sempre há dois lados em uma história, querida, mas apenas um que importa. O de André. E o da família. Você está tornando as coisas incrivelmente difíceis." Ela enfiou a mão no robe e tirou uma pilha de papéis, colocando-os na minha mesa de cabeceira. Um documento legal.
"Isso descreve os termos da sua... partida", afirmou ela, seu olhar inabalável. "Um acordo generoso, considerando. É muito menos do que você poderia esperar, é claro, dado o que sabemos agora."
"O que vocês sabem?" perguntei, minha voz trêmula.
"Temos provas, Kiara, provas de suas... indiscrições", disse ela, sua voz pingando acusação. "Um escândalo de paternidade fabricado, de fato. Parece que você não era tão leal quanto André acreditava. Uma noite com um chef desconhecido, não foi? Que pena. A reputação de André, quase manchada por sua imprudência."
Meu sangue gelou. "Isso é mentira! Eu nunca-"
"Chega", ela me cortou, sua voz de repente afiada. "O ponto é que não podemos arcar com mais complicações. Não agora. Não com a eleição geral tão próxima. E certamente não com... um potencial escândalo de paternidade que poderia realmente ser verdade, apesar da negação pública de André." Seus olhos se estreitaram. "Você vai assinar isso. E quanto à sua... condição..." Ela gesticulou vagamente para minha barriga. "Isso será resolvido. Silenciosamente. Discretamente. Amanhã de manhã, você tem um compromisso."
"Um compromisso?" Minha voz era um suspiro sufocado. Eu já sabia.
Os lábios de Evelyn se afinaram. "Sim. Para interromper a gravidez. É para o bem de todos, Kiara. Para todos. Sem pontas soltas. Sem perguntas. Sem escândalos. Apenas um novo começo para André e sua família."
"Não!" gritei, agarrando minha barriga. "Eu não vou! Este é o meu bebê! Meu filho!"
"Você vai", disse Evelyn, sua voz gélida. "Ou nós garantiremos que aconteça de qualquer maneira. André tem conexões poderosas. Médicos. Hospitais. Você não terá escolha. Isso não é um pedido, Kiara. É uma ordem."
A porta se fechou atrás dela, me deixando no silêncio sufocante. Minha respiração vinha em arquejos irregulares. Eles queriam matar meu bebê. Eles queriam me forçar a abortar meu próprio filho. A família Guedes, meu marido, meus pais adotivos – todos eram cúmplices. Eu estava verdadeiramente, completamente sozinha, enfrentando um horror além da imaginação.
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