
De Pianista a Professora: Um Novo Acorde
Capítulo 3
O médico entrou no quarto para o check-up da manhã, a sua expressão era séria.
"Dona Beatriz, os seus ferimentos na cabeça são a nossa principal preocupação. Precisamos de fazer mais alguns exames para garantir que não há danos permanentes."
Ele olhou para a minha mão enfaixada.
"Quanto à sua mão, o dano nos tendões foi severo. Com fisioterapia intensiva, poderá recuperar a maior parte do movimento, mas..."
Ele hesitou.
"Mas?" eu insisti, já a sentir um frio no estômago.
"A sua carreira como pianista... provavelmente acabou. A destreza necessária... será impossível de alcançar novamente."
As palavras dele caíram sobre mim como uma laje de betão.
O piano não era apenas a minha carreira. Era a minha vida. A minha paixão. A minha fuga.
A Dona Elvira apressou-se a intervir, com um sorriso forçado.
"Oh, não se preocupe com isso, doutor! É até melhor assim. Uma mulher casada deve focar-se em casa, no marido. O Pedro ganha o suficiente para nós os dois. Agora ela pode ser uma dona de casa a tempo inteiro, como deve ser."
Eu olhei para ela, incrédula. Ela estava a descartar a minha vida inteira como se fosse um hobby inconveniente.
"Não," eu disse, a minha voz firme, surpreendendo-nos a ambas. "Eu não vou ser uma dona de casa."
"Beatriz!" ela repreendeu-me. "Não sejas ingrata. O Pedro cuida de ti."
"Ele não estava aqui," eu respondi, cada palavra cortando o ar. "Ele não estava aqui quando eu acordei. Ele não estava aqui quando o médico me disse que o nosso filho morreu. Ele não está aqui agora."
A porta abriu-se nesse momento e o Pedro entrou, a sua cara uma máscara de preocupação ensaiada.
"Querida, desculpa a demora. A Sofia estava com muitas dores, tive de esperar que o médico a medicasse."
Ele veio para me abraçar, mas eu recuei. O cheiro do perfume dela, o mesmo que eu lhe tinha dado no aniversário dela, estava impregnado na sua camisa.
"Não me toques," eu disse, a minha voz baixa e perigosa.
Ele parou, confuso. "Beatriz, o que se passa? Eu vim assim que pude."
"Assim que pudeste?" Eu ri, o som a rasgar a minha garganta. "O médico acabou de me dizer que eu nunca mais vou poder tocar piano. Que a minha carreira acabou. Onde estavas tu quando eu precisava de ti?"
A sua expressão mudou de preocupação para irritação.
"Estás a exagerar. É só um piano. Eu compro-te outro! Podes tocar em casa, para mim. Qual é o problema?"
"O problema, Pedro," eu disse, olhando diretamente nos olhos dele, "é que tu és o problema. Eu quero o divórcio."
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