
De Peça de Museu a Rainha da Minha Vida
Capítulo 2
O ar da casa estava impregnado com o aroma de moqueca, o prato favorito de Heitor.
Na mesa de jantar, duas taças de cristal refletiam a luz suave das velas, ao lado de uma garrafa da nossa cachaça mais premiada, a "Herança".
Hoje era o nosso décimo aniversário de casamento.
Eu vestia um vestido de seda que ele me deu, o cabelo preso num coque elegante, exatamente como ele gostava.
Eu era Liana, a imagem da Cachaçaria Alencar, a herdeira que carregava o peso de gerações.
Para o mundo, eu era a esposa perfeita do CEO perfeito, Heitor. Uma mulher de negócios bem-sucedida, elegante, o pilar de uma tradição familiar.
Mas a verdade era outra.
Abandonei os meus sonhos para que os dele pudessem florescer. Acreditei no conto de fadas, e ele construiu o seu império sobre os meus sacrifícios.
O meu telemóvel tocou. Era ele.
"Liana, meu amor, peço desculpa. Aconteceu uma emergência com os distribuidores internacionais. Não vou conseguir chegar para o jantar."
A voz dele era suave, cheia de um falso arrependimento que eu já conhecia bem.
"Está tudo bem, querido. O trabalho primeiro."
Menti.
Desliguei a chamada e o silêncio da casa tornou-se ensurdecedor.
Sentei-me no sofá, a comida a arrefecer na mesa. Liguei a televisão sem pensar, apenas para preencher o vazio.
Era a transmissão ao vivo do Prêmio da Música Brasileira.
E então, eu vi.
A câmara passeou pela plateia. No fundo do palco, vi o meu marido, Heitor.
Ao lado dele, o nosso filho de seis anos, Tiago.
Ambos aplaudiam, com os rostos iluminados por uma alegria pura, eufórica.
Aplaudiam Isabella, a nova estrela da Bossa Nova, que acabava de ganhar o prêmio de "Artista Revelação".
Heitor não estava numa reunião de emergência.
Ele estava lá, com o nosso filho, a celebrar a vitória da sua amante.
A traição, que eu suspeitava há meses, foi confirmada. Não com uma mensagem suspeita ou uma mancha de batom. Mas na tela da televisão, para todo o Brasil ver.
O meu mundo, construído com tanto cuidado, desabou.
A dor foi física, uma pressão no peito que me roubou o ar. Mas as lágrimas não vieram.
Em vez de dor, uma frieza tomou conta de mim.
Não haveria divórcio escandaloso. Não haveria brigas públicas nem partilha de bens.
Eu ia desaparecer.
Lembrei-me do segredo da minha avó. Uma conta bancária secreta, um fundo de emergência substancial. "Para o dia em que precisares de começar de novo, minha neta", ela disse-me antes de morrer.
Esse dia tinha chegado.
Peguei no meu computador portátil. A pesquisa foi rápida.
"Agência Fênix."
Um serviço clandestino, exclusivo para a elite. Eles não ajudavam pessoas a fugir. Eles simulavam mortes.
O e-mail que enviei foi curto e direto.
"Preciso dos vossos serviços. Tenho os recursos necessários."
A resposta chegou em minutos. Uma videochamada foi agendada para a manhã seguinte.
O homem na tela era discreto, profissional. O seu nome era apenas "O Gestor".
"Senhora Alencar. Em que podemos ajudá-la?"
"Eu quero morrer."
Ele não pestanejou.
"Compreendo. Temos vários pacotes. Afogamento, desaparecimento em alto mar, overdose acidental..."
"Não", interrompi. "Eu tenho uma exigência específica."
Ele ouviu, em silêncio.
"Quero que seja um acidente de carro. Na Rodovia dos Imigrantes. E quero que o meu marido, Heitor, seja o motorista que o provoca."
Pela primeira vez, vi um vislumbre de surpresa nos olhos do Gestor.
"Isso é... invulgarmente específico. E complexo. Aumenta o custo consideravelmente."
"O dinheiro não é problema."
Abri a aplicação do banco no meu telemóvel e mostrei-lhe o saldo da conta da minha avó.
Ele acenou com a cabeça, satisfeito.
"Considera-o feito. A sua nova vida começa dentro de uma semana."
Desliguei a chamada e olhei pela janela. A fachada de mulher de negócios bem-sucedida tinha rachado, revelando algo que nem eu sabia que existia.
Uma mulher disposta a tudo para se libertar.
Lembrei-me do início. Heitor, jovem e ambicioso, a cortejar-me não só a mim, mas à minha herança. As suas promessas de amor eterno, os seus planos para expandir a cachaçaria.
"Juntos, Liana, vamos levar o nome da tua família ao mundo."
E eu acreditei.
Dei-lhe o controlo das finanças, da expansão. Fiquei com a imagem pública, o rosto sorridente em revistas, a guardiã da tradição.
Sacrifiquei a minha ambição de ser uma mestre destiladora, de criar as minhas próprias cachaças, para ser o seu pilar.
A felicidade do passado era agora uma memória amarga.
A prova da traição estava em todo o lado, agora que os meus olhos estavam abertos. As viagens de negócios "de última hora". Os telefonemas secretos. O perfume dela no carro dele.
A minha dor transformou-se numa determinação gelada.
Comecei a esvaziar a nossa casa. Não de forma óbvia.
Comecei a doar peças históricas da família para o Museu da Cachaça. Peças que Heitor adorava exibir.
Primeiro, o alambique de cobre original do meu bisavô.
Depois, as primeiras garrafas rotuladas à mão.
Por fim, o diário do fundador, o meu tataravô. A alma da nossa história.
Heitor e Tiago voltaram para casa na manhã seguinte. Heitor trazia um presente de "desculpas".
Uma caixa de veludo. Dentro, uma palheta de guitarra rara.
"Para a minha guitarrista favorita", disse ele, sorrindo.
Eu não tocava guitarra há dez anos.
Sabia que aquele presente era para Isabella. Provavelmente, ela rejeitou-o.
"Obrigada, querido. É lindo."
A minha voz era calma, vazia.
Eles notaram a casa mais vazia. As paredes nuas onde antes estavam os quadros dos antepassados.
"Liana, onde está o retrato do teu avô?", perguntou Heitor, a sua voz tensa.
"Doei-o ao museu. É o seu lugar de direito, não achas? A história deve ser partilhada."
Ele olhou para mim, confuso, tentando decifrar a minha nova atitude.
"Mas... podias ter-me dito."
"Foi uma decisão de momento."
Virei-lhe as costas e fui para a cozinha. Ele tentou manipular Tiago.
"Olha, filho, a mamã está a fazer uma grande limpeza de primavera! Para termos mais espaço para brincar!"
Tiago, inocente, sorriu.
"A mamã está a deitar fora as coisas velhas?"
"Exatamente", respondi da cozinha, a minha voz fria. "É hora de nos livrarmos do que já não serve."
Heitor ficou pálido. Ele sentiu a ameaça nas minhas palavras, mas não conseguia entender.
Ele tentou abraçar-me, um gesto para restaurar a normalidade.
Afastei-me.
"Estou cansada. Vou deitar-me."
No quarto, o meu telemóvel vibrou. Um áudio de um número desconhecido.
Era Isabella.
Ela cantava uma nova canção, a sua voz suave e provocadora. E ao fundo, a voz de Heitor.
"És a minha musa, Isabella. A minha única musa."
A dor voltou, aguda e profunda.
Lembrei-me das nossas noites no início, quando ele me chamava de sua musa, quando as suas mãos percorriam o meu corpo com um desejo que eu pensava ser amor.
O áudio continuou.
"Ele diz que a Liana parece uma peça de museu. Bonita, mas fria. Sem vida. Ele está farto dela."
A minha mão tremeu. Eu era uma peça de museu? Eu, que lhe dei a minha vida, a minha herança, o meu corpo?
A ilusão estilhaçou-se completamente.
Eu não era a sua esposa. Era um obstáculo.
Heitor entrou no quarto, sorrindo.
"Estás a sentir-te melhor, meu amor?"
Ele tentou beijar-me.
Ele ainda tinha o cheiro do perfume dela.
Ele trocava mensagens com ela debaixo do mesmo teto onde eu dormia.
Ele saía a meio da noite, dizendo que ia resolver problemas na destilaria.
Mas era para os braços dela que ele corria.
Naquela noite, Tiago veio ter comigo, os seus olhos sonolentos.
"Mamã, porque é que o papá disse que a tia Bella é a nova rainha da casa?"
O mundo parou.
A inocência do meu filho foi a faca final.
"O que mais disse ele, meu amor?"
"Disse que em breve a tia Bella vai morar connosco e que vamos ser uma família muito mais divertida."
A dor foi tão intensa que me curvei, como se tivesse levado um soco.
Levantei-me e fui para o quarto de hóspedes.
Tranquei a porta.
Deitei-me na cama e olhei para o teto.
A traição não era apenas de Heitor. Era de todos.
E a minha vingança também seria para todos.
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