
De Peça de Museu a Rainha da Minha Vida
Capítulo 3
No dia seguinte, agi como se nada tivesse acontecido.
Ignorei os olhares confusos de Heitor, as suas tentativas de conversa.
Às dez da manhã, recebi um e-mail encriptado.
"Agência Fênix. Confirmação de pagamento recebida. O veículo duplicado e a 'duplicata biológica' estão em preparação. A sua nova identidade e documentos de viagem estarão prontos em 48 horas."
Respondi com uma única frase.
"Obrigada pela vossa eficiência."
Fui ao cofre do escritório e retirei a minha pulseira de esmeraldas. A primeira joia que Heitor me deu.
"Para que te lembres sempre que és a minha rainha", disse ele na altura.
Coloquei-a numa pequena caixa e enviei-a por um mensageiro para o escritório da Agência Fênix.
Era a peça final do puzzle. A "duplicata biológica" usaria a pulseira no momento do "acidente".
Enquanto almoçava sozinha num pequeno café, ouvi duas mulheres na mesa ao lado.
"Viste a Liana Alencar na revista? Parece tão triste. Ter tudo não significa ter felicidade."
"Dizem que o marido tem um caso com aquela cantora, a Isabella."
Sorri para o meu café. Eles não sabiam de nada.
O amor, pensei, era como uma cachaça mal envelhecida. Começa com fogo, mas se não for cuidado, torna-se amargo e intragável.
O destino, contudo, tem um sentido de humor perverso.
Naquela tarde, fui a um leilão de antiguidades. Estava à procura de uma peça específica para a minha nova vida em Lisboa.
E lá estavam eles.
Heitor, Isabella e Tiago. Uma família feliz em público.
Isabella viu-me primeiro. O seu sorriso era de puro triunfo.
Ela aproximou-se, segurando a mão de Tiago.
"Liana, que coincidência! Viemos ver umas peças para a nossa nova casa."
A nossa.
Heitor apressou-se, o pânico nos seus olhos.
"Bella, não incomodes a Liana."
"Não estou a incomodar, querido. Estamos apenas a conversar, como uma família."
Tiago olhou para mim, os seus olhos cheios de confusão.
"Mamã, a tia Bella disse que tu vais fazer uma viagem muito longa."
"É verdade, meu amor. A mamã precisa de descansar."
A minha voz era serena. Por dentro, o meu coração estava a ser esmagado.
Heitor tentou pegar no meu braço.
"Liana, vamos conversar."
Afastei-me.
"Não temos nada para conversar."
O leilão começou. E então, vi-o.
Um magnífico alambique de cobre do século XIX. Pertenceu ao meu avô. A família vendeu-o numa época de dificuldades, muito antes de eu nascer.
Era a peça que faltava na coleção do museu.
Levantei a minha placa.
Isabella sussurrou algo ao ouvido de Heitor. Ele levantou a sua placa.
Começou uma guerra de lances entre o meu marido e eu.
O preço subiu.
Isabella, frustrada, puxou o braço de Heitor.
"Deixa-a ficar com o raio do alambique! É um pedaço de lixo velho!"
"Cala-te, Isabella!", sibilou Heitor.
Tiago começou a chorar.
"Eu quero o alambique para a mamã!"
O meu coração partiu-se um pouco mais.
"Eu quero-o", disse eu, a minha voz firme, olhando diretamente para Heitor.
Ele hesitou, depois baixou a sua placa.
"Vendido à senhora Alencar!"
Arrematei o alambique. Heitor repreendeu Isabella e Tiago em voz baixa.
Depois, ele seguiu-a para fora da sala de leilões.
A curiosidade, ou talvez a necessidade de mais uma prova, fez-me segui-los.
Encontrei-os numa sala vazia.
Eles estavam a beijar-se, as mãos de Heitor por todo o corpo dela.
"Porque é que a deixaste ganhar?", exigiu Isabella, ofegante.
"Eu preciso de a manter calma por mais uns tempos, Bella. O lançamento da nova cachaça é na próxima semana. Depois disso, ela é história."
"Prometes? Divórcio?"
"Prometo. Tu e o nosso filho serão a minha única família."
Nosso filho.
Ela estava grávida.
A dor foi tão avassaladora que tive de me apoiar na parede para não cair.
Fugi dali, o som das suas promessas a ecoar nos meus ouvidos.
Cheguei a casa e fui direta para o chuveiro. Deixei a água quente cair sobre mim, tentando lavar a sujidade da traição.
Lembrei-me de como não tínhamos intimidade há meses. Ele sempre dizia que estava cansado, stressado com o trabalho.
Agora eu sabia porquê.
O meu telemóvel vibrou. Uma foto de Isabella.
Ela estava no nosso iate, usando um dos meus biquínis. A legenda: "A aproveitar o que é meu por direito."
Respirei fundo.
Ela era apenas um peão. Um peão que eu usaria para a minha jogada final.
Tiago bateu à porta do meu quarto.
"Mamã? Posso dormir contigo? Tenho medo do escuro."
Abri a porta. Ele abraçou-me com força.
"Tenho medo que vás embora, como a avó."
Abracei-o de volta, o meu coração a despedaçar-se.
"Eu estarei sempre contigo, meu amor. No teu coração."
Heitor chegou mais tarde, o cheiro a mar e a Isabella impregnado nele.
"Ele teve um pesadelo?", perguntou, tentando parecer um pai preocupado.
Não respondi.
Na manhã seguinte, acordei com febre. O stress tinha finalmente cobrado o seu preço.
Heitor e Tiago cuidaram de mim. Trouxeram-me sopa, leram-me histórias.
Uma performance perfeita de uma família perfeita.
Era quase cómico.
No meio da tarde, a campainha tocou.
Heitor foi atender. Ouvi a voz de Isabella.
"Heitor, temos de conversar. Estou grávida. Quero que peças o divórcio. Agora."
Levantei-me da cama. Fui até à sala.
Isabella estava lá, a mão a proteger a sua barriga lisa. Um desafio nos seus olhos.
"Liana. Acho que temos um assunto a resolver."
Sorri. Um sorriso genuíno, pela primeira vez em meses.
"Não temos nada a resolver, Isabella."
Heitor entrou em pânico.
"Isabella, o que estás a fazer aqui? Vai-te embora!"
"Não vou a lado nenhum até teres o que é meu!"
Ela virou-se para Tiago.
"Querido, não queres ter um irmãozinho?"
Heitor agarrou-a pelo braço.
"Eu disse para ires embora!"
Ele empurrou-a para fora e fechou a porta.
Voltou-se para mim, o desespero no seu rosto.
"Liana, eu posso explicar."
"Não precisas."
Ele tentou abraçar-me, beijar-me.
"Eu amo-te, Liana. Só a ti."
Empurrei-o.
"Não me toques."
Tiago, confuso, imitou o gesto do pai e tentou abraçar-me.
"Eu também te amo, mamã."
Beijei-lhe a testa.
"Eu sei, meu amor."
Heitor saiu, dizendo que precisava de "resolver as coisas".
Sabia que ele ia ter com ela.
Uma hora depois, o meu telemóvel vibrou.
Uma notificação do Instagram.
Isabella tinha publicado uma foto. Um teste de gravidez positivo. A legenda: "O futuro é nosso. @HeitorAlencar".
Ela marcou-o.
Ela queria guerra.
Mal sabia ela que a guerra já tinha sido ganha por mim.
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