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Capa do romance De Otário a Magnata Indiferente

De Otário a Magnata Indiferente

Miguel acreditava viver um sonho com Sofia, sacrificando-se como designer para sustentar os luxos da amada. A ilusão acaba quando ele descobre que ela esvaziou suas economias para bancar o irmão, deixando-o endividado enquanto seu pai luta pela vida. Humilhado e sob ameaças do novo namorado rico dela, Miguel quase aceita um destino cruel para salvar os pais. Contudo, a entrada súbita de um bilionário revela sua verdadeira herança, mudando o rumo da sua vingança.
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Capítulo 2

Miguel olhou para a tela do computador, os olhos ardendo pela falta de sono, mas um sorriso satisfeito no rosto, o código final do novo nível do jogo piscando em verde, indicando que tudo estava funcionando perfeitamente. Ele era um bom designer de jogos, talvez até talentoso, mas essa confiança raramente se estendia para além do mundo virtual que ele criava.

Na vida real, ele era apenas Miguel, o namorado de Sofia.

Sofia.

O nome dela era como uma melodia suave em sua mente. Ele pegou o celular e abriu a foto dela, a imagem que usava como papel de parede. Sofia estava sentada em um café simples, vestindo um jeans e uma camiseta branca, o cabelo longo e escuro caindo sobre os ombros. Ela sorria para a câmera, um sorriso que ele conhecia de cor, um que parecia dizer que ela não precisava de nada no mundo além daquele momento. Ela era uma influenciadora digital, mas sua imagem pública era de modéstia, de uma garota que valorizava as coisas simples da vida, que criticava o consumismo e o luxo excessivo.

E Miguel acreditava em cada palavra. Ele se sentia um homem de sorte, um cara comum que tinha conquistado uma mulher tão bonita, tão popular e, ainda por cima, tão desinteressada em bens materiais. Comparado a ela, ele se sentia pequeno, um "cabeça de vento apaixonado", como seus amigos às vezes o chamavam. Por isso, ele se dedicava de corpo e alma para ser digno dela.

Ele olhou para o relógio na tela do computador. Já passava da meia-noite. O pagamento do seu trabalho freelancer tinha acabado de cair na conta. Ele suspirou, aliviado. Sem pensar duas vezes, ele abriu o aplicativo do banco e transferiu quase todo o valor para a conta conjunta que mantinha com Sofia. Era o ritual de todo mês. Seu salário de designer na empresa, mais todo o dinheiro extra que ele ganhava virando noites em projetos paralelos, ia quase que integralmente para aquela conta.

Ele ficava com o mínimo para o aluguel do pequeno apartamento onde moravam, as contas básicas e um pouco para o transporte. O resto era para ela administrar. Sofia era quem cuidava das "nossas economias", como ela gostava de dizer, com um sorriso doce que desarmava qualquer preocupação que ele pudesse ter.

"Você é a cabeça criativa, meu amor", ela dizia, passando os dedos pelo cabelo dele. "Eu sou a cabeça prática. Deixa que eu cuido do nosso futuro."

E ele deixava. Ele confiava cegamente.

O grande objetivo deles, o sonho que alimentava suas noites de trabalho insano, era comprar uma casa. Estavam juntos há cinco anos, e o casamento era o próximo passo lógico. Mas a família de Sofia tinha sido clara.

"Minha filha é uma joia, Miguel", disse a mãe dela uma vez, durante um jantar tenso. "Ela merece segurança, um teto. O irmão dela, o Lucas, já está vendo uma casa para se casar. Sofia não pode ficar para trás."

A menção a Lucas era frequente. Ele era o irmão mais novo, o xodó da família. Miguel nunca admitiria em voz alta, mas sentia uma ponta de ressentimento. Parecia que tudo o que ele e Sofia economizavam nunca era suficiente, porque sempre havia uma "ajudinha" para Lucas. Uma conta inesperada, uma parcela do carro, uma viagem "importante para a carreira dele". Sofia sempre justificava com a mesma frase: "Somos família, Miguel. A gente se ajuda."

E ele, o "cabeça de vento", aceitava. Pelo sorriso de Sofia, ele aceitava qualquer coisa.

Naquela noite, porém, algo quebrou a rotina. O celular de Miguel tocou, vibrando estridentemente sobre a mesa. Era sua mãe. A voz dela estava embargada pelo choro.

"Miguel, seu pai... ele passou mal. Estamos no hospital."

O chão pareceu sumir sob os pés de Miguel. Ele fez uma série de perguntas rápidas, o coração martelando no peito. Era sério. Um possível infarto. Ele precisava ir para sua cidade natal imediatamente, a duas horas de distância.

"Estou indo, mãe. Fica calma."

Ele desligou e a primeira coisa que fez foi ligar para Sofia. Precisava do apoio dela, da sua voz calma, talvez até que ela fosse com ele. Mas a chamada caiu na caixa postal.

"Oi, amor, sou eu. Meu pai passou mal, estou indo para o hospital em Rio Claro agora. Me liga assim que ouvir isso, por favor."

Ele tentou de novo. Caixa postal. E de novo. Caixa postal.

Estranho. Sofia nunca desligava o celular. Sua vida, seu trabalho, estava naquele aparelho. Ele sentiu um calafrio, uma ansiedade que não era só pela saúde do seu pai. Abriu o aplicativo do banco, pensando em sacar algum dinheiro para a emergência, e viu o saldo da conta conjunta: R$ 12,50.

Doze reais e cinquenta centavos.

Ele piscou, achando que era um erro do aplicativo. Atualizou a página. O saldo continuava o mesmo. Todo o dinheiro que ele tinha depositado horas antes, todo o acúmulo dos últimos meses... tinha sumido.

Um pânico gelado começou a subir por sua espinha. Ele tentou ligar para Sofia mais uma vez. Caixa postal.

Ele não tinha tempo a perder. Pegou a carteira, as chaves e correu para fora do apartamento, a mente um turbilhão de preocupações. A imagem do pai doente se misturava com o saldo zerado da conta e o silêncio inexplicável de Sofia.

Ele passou dois dias no hospital. Foram os piores dias de sua vida. Felizmente, seu pai se estabilizou. Não era um infarto, mas um susto grande, um aviso para que ele cuidasse melhor da saúde. Miguel usou o limite do cartão de crédito, que já estava perigosamente alto, para cobrir as despesas iniciais. Durante todo esse tempo, ele tentou falar com Sofia. Dezenas de ligações, incontáveis mensagens. Nenhuma resposta.

No terceiro dia, com o pai fora de perigo, ele voltou para casa. O trajeto de duas horas na estrada foi torturante. A raiva, a preocupação e a mágoa se misturavam dentro dele. O que poderia ter acontecido? Um assalto? Um sequestro? Por que ela não atendia?

Ele abriu a porta do apartamento com o coração na mão, esperando encontrar o pior. Mas a sala estava em perfeita ordem. A luz do abajur estava acesa, criando um ambiente acolhedor. E então, ele a viu.

Sofia saiu do quarto, vestindo um pijama de seda que ele nunca tinha visto antes. Ela bocejava, como se tivesse acabado de acordar de um longo sono. Ao vê-lo, ela sorriu, um sorriso sonolento e um pouco surpreso.

"Amor? Você voltou. Não avisou que vinha hoje."

Miguel ficou parado na porta, a chave ainda na mão. Ele olhou para ela, sã e salva, perfeitamente bem. Toda a angústia dos últimos dias desabou sobre ele, mas foi substituída por uma confusão profunda. Ele reprimiu a vontade de gritar, de exigir uma explicação. A preocupação em seu rosto era tão evidente que ele não conseguiu ser duro.

"Você está bem?", ele perguntou, a voz rouca. "Eu te liguei sem parar. Fiquei desesperado."

O sorriso de Sofia vacilou por um instante. Ela desviou o olhar, passando a mão pelo cabelo.

"Ah, meu celular... acho que a bateria acabou. E eu não me senti muito bem esses dias, fiquei mais de cama. Nem vi o tempo passar."

A desculpa era fraca, esfarrapada. Um influenciador digital não fica com o celular sem bateria por dois dias. E ela não parecia nem um pouco doente. Parecia descansada, relaxada.

Miguel sentiu um nó no estômago. Ele queria acreditar nela, queria desesperadamente afastar as dúvidas que surgiam em sua mente. Ele caminhou até ela, o cansaço dos últimos dias pesando em seus ombros.

"Meu pai está melhor", ele disse, a voz baixa. "Foi um susto, mas ele vai ficar bem."

"Ai, que bom, meu amor!", ela disse, abraçando-o. O abraço dela era quente, familiar, mas algo estava diferente. Parecia ensaiado.

Ele a segurou, inalando o perfume dela, tentando encontrar o conforto que sempre encontrava ali. Mas a imagem do saldo bancário zerado não saía de sua cabeça.

"Sofia", ele começou, a voz um pouco trêmula, "o que aconteceu com o dinheiro da nossa conta?"

Ele a sentiu enrijecer em seus braços. Ela se afastou um pouco, o sorriso desaparecido, substituído por uma expressão que ele não conseguiu decifrar. Era uma mistura de culpa e desafio.

"Precisamos conversar sobre isso", ela disse, a voz baixa e evasiva.

O coração de Miguel afundou. A tempestade que ele sentia se formando no horizonte estava prestes a desabar.

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