
De Otário a Magnata Indiferente
Capítulo 3
Eles se sentaram no sofá, o silêncio no pequeno apartamento era pesado, denso. Miguel sentia o coração bater descompassado, uma mistura de exaustão e pavor. Ele olhava para Sofia, esperando. Ela, por sua vez, encarava as próprias mãos, entrelaçando e desentrelaçando os dedos.
"Então?", Miguel quebrou o silêncio, a voz mais ríspida do que pretendia. "O dinheiro. Todo o nosso dinheiro. Onde está?"
Sofia respirou fundo, finalmente levantando o olhar. Não havia lágrimas, não havia o remorso que ele esperava ver. Havia uma espécie de resignação cansada, como se ela estivesse prestes a confessar algo inevitável.
"Eu usei, Miguel."
As palavras eram simples, diretas, e caíram sobre Miguel como uma pedra.
"Usou? Usou como? Eram mais de duzentos mil reais, Sofia! Nossas economias de cinco anos! O dinheiro para a entrada da nossa casa!"
A voz dele se elevou, carregada de incredulidade. Duzentos mil reais. Ele repetia o número em sua mente. Cada noite mal dormida, cada fim de semana sacrificado, cada projeto extra que ele pegou, estava naquele número.
"Eu sei", ela disse, a voz baixa. "Eu precisei."
"Precisou para quê?", ele se levantou, andando de um lado para o outro. "Que emergência é essa que custa duzentos mil reais e te impede de atender a porra do telefone quando o meu pai está quase morrendo num hospital?"
"Não fala assim comigo", ela retrucou, o tom subindo um pouco. "Não foi uma emergência qualquer. Foi para a minha família."
Miguel parou, encarando-a. "Sua família? De novo? O que foi dessa vez? O Lucas precisou de um rim folheado a ouro?"
"Foi para o Lucas, sim", ela admitiu, sem se abalar com o sarcasmo dele. "Ele vai se casar, Miguel. E ele precisava do dinheiro para dar a entrada na casa dele. A família da noiva exigiu."
Miguel sentiu o sangue ferver. Ele riu, um riso seco, sem humor algum.
"A casa dele? A casa dele? E a nossa casa, Sofia? E o nosso casamento? O nosso futuro? Você pegou todo o nosso futuro e deu para o seu irmão?"
Ele não conseguia acreditar. As "ajudinhas" que ele sempre relevou, os pequenos desvios que ele fingia não ver, agora se revelavam em sua verdadeira e monstruosa escala. Não eram pequenos favores, era um patrocínio integral. Ele não era o namorado de Sofia, ele era o caixa eletrônico da família dela.
"Você não entende", ela começou, a voz agora adquirindo um tom de mártir. "Eu sou a irmã mais velha. É minha responsabilidade. Meus pais não têm condições, e o Lucas... ele é o homem da casa agora. Ele precisa começar a vida dele com dignidade."
"Dignidade? Com o meu dinheiro? Com o meu suor?", Miguel gritou, a veia em sua testa pulsando. "Eu trabalho dezesseis horas por dia, Sofia! Eu não tenho vida! Eu faço isso por nós! Pelo nosso sonho! Você tinha o direito de fazer isso? De decidir sozinha?"
"Eu ia te contar!", ela se defendeu. "Mas tudo aconteceu tão rápido... e eu sabia que você não ia entender. Você nunca entende as minhas obrigações com a minha família."
"Obrigações?", ele gesticulava, desesperado. "E as suas obrigações comigo? Com a gente? Cinco anos, Sofia! Estamos há cinco anos planejando isso! Você jogou tudo no lixo sem nem piscar!"
A raiva dele era um vulcão em erupção. A imagem dela, tão modesta e desinteressada, se despedaçou diante de seus olhos, revelando uma pessoa que ele não conhecia. Uma manipuladora, uma parasita.
E então, aconteceu.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Sofia. Depois outra. E mais outra. Em segundos, ela estava soluçando, o corpo tremendo, o rosto escondido entre as mãos. Eram as lágrimas que Miguel conhecia tão bem, a sua kriptonita.
"Eu sei que eu errei...", ela soluçou, a voz quebrada. "Mas eu estava desesperada... Minha mãe me ligava chorando todo dia... meu pai me pressionando... dizendo que eu era a única esperança deles... que o Lucas ia perder a noiva se não comprasse a casa... Eu me senti tão sozinha...".
A raiva de Miguel começou a vacilar. O vulcão se acalmou, a lava quente da fúria se transformando em uma lama morna de compaixão e confusão. Ele a via ali, frágil, chorando, e todo o seu sistema de defesa desmoronava. O "cabeça de vento apaixonado" tomou o controle novamente.
Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela no sofá. Ele a puxou para um abraço, e ela se aninhou em seu peito, molhando sua camisa com as lágrimas.
"Shiii... calma, calma", ele sussurrou, acariciando os cabelos dela.
Ele estava se odiando por dentro. Uma parte de seu cérebro gritava "É uma armadilha! Saia daí!", mas seu coração, estúpido e leal, só queria fazê-la parar de chorar.
"Eu sou uma pessoa horrível", ela murmurou contra o peito dele. "Você devia me odiar."
"Eu não te odeio", ele disse, e a pior parte é que era verdade. Naquele momento, ele não conseguia odiá-la.
Ele começou a buscar desculpas para ela em sua própria mente. "Ela foi pressionada. A família dela é difícil. Ela me ama, só estava em uma situação sem saída." Ele se agarrava a essas justificativas como um náufrago a um pedaço de madeira.
"Nós vamos recuperar o dinheiro", ele disse, mais para si mesmo do que para ela. "Eu vou trabalhar mais. A gente dá um jeito."
Ela se afastou o suficiente para olhá-lo nos olhos, o rosto vermelho e inchado pelo choro.
"O Lucas prometeu que vai pagar de volta", ela disse, a voz ainda embargada. "Assim que a vida dele se ajeitar. Ele disse que, no futuro, tudo o que for dele, será nosso também. Afinal, vamos ser uma família só, não é?"
A promessa era vazia, ele sabia. Era um cheque sem fundo, um castelo de areia. Mas ele se agarrou a ela. A ideia de "uma família só" era a isca perfeita.
Nos dias seguintes, Sofia sugeriu que eles fossem visitar sua família para "oficializar" o noivado de Lucas. "É importante que você esteja lá, amor. Para eles verem que estamos juntos nisso."
Miguel concordou, sentindo que era o passo certo para "consertar" as coisas. A viagem foi tensa. A casa dos pais de Sofia era simples, mas estava cheia de eletrodomésticos novos e móveis que ele tinha certeza de onde tinham vindo. O pai dela mal olhou na sua cara. A mãe forçou um sorriso amarelo e fez um comentário sobre como ele parecia "cansado".
Lucas, o beneficiário de todo o seu sacrifício, o cumprimentou com um abraço e um tapinha nas costas.
"E aí, cunhado! Valeu pela força, hein? Sem você, eu estaria ferrado."
O tom era casual, como se Miguel tivesse emprestado vinte reais para o lanche. Ninguém mencionou os duzentos mil reais. Ninguém falou sobre um plano de pagamento. Ele era o financiador invisível, o convidado de honra que pagou pela festa, mas que não tinha lugar à mesa principal. Ele se sentiu um completo idiota.
O ciclo recomeçou. Miguel voltou a trabalhar como um louco. Sofia voltou a ser a namorada carinhosa e "simples". Mas agora, os pedidos eram mais diretos.
"Amor, o Lucas precisa mobiliar a cozinha. Você consegue adiantar aquele projeto?"
"A noiva do Lucas quer uma festa de noivado. Podemos ajudar com o buffet?"
E Miguel, preso no ciclo de culpa e amor cego, cedia. Ele pagou pelos móveis. Pagou pelo buffet. Pagou pela viagem de lua de mel antecipada do casal. Sua conta bancária continuava zerada. O limite do seu cartão de crédito explodiu.
Então, a bomba final. Sofia chegou em casa uma noite, os olhos brilhando de uma forma que Miguel aprendeu a temer.
"Amor, tenho uma novidade!", ela disse, animada. "A família da noiva do Lucas... eles pediram um dote. É uma tradição da cidade deles. Cem mil reais."
Miguel ficou em silêncio, olhando para ela. Ele não sentia raiva. Não sentia surpresa. Apenas um vazio gelado, um cansaço que parecia ter se instalado em seus ossos. A roda do hamster continuava a girar, e ele estava exausto de correr.
Você pode gostar





