
De Esposa a Rival
Capítulo 2
Caio voltou no dia seguinte com uma embalagem da minha sopa favorita de um restaurante do Itaim Bibi. Ele a colocou na mesa de cabeceira, o aroma enchendo o quarto estéril.
"Pensei que você gostaria disso", disse ele, com a voz gentil. "Você não comeu."
Eu encarei a parede, meu rosto uma máscara em branco. Eu não queria a sopa dele. Eu não queria sua falsa preocupação.
"Helena, por favor", ele implorou. "Fale comigo."
Virei a cabeça lentamente, meus olhos frios e vazios.
"Falar sobre o quê, Caio? Sobre como você me deixou para ser estuprada e assassinada?"
A dor brilhou em seu rosto.
"Não foi assim. Eu ia voltar. Os sequestradores... eles só estavam tentando nos assustar."
"E a Gisela?", perguntei, minha voz neutra. "E ela?"
Ele se encolheu, o olhar caindo para o chão.
"É complicado. Eu tenho uma responsabilidade com ela."
Ele tentou tocar meu braço, um gesto que antes me traria conforto. Agora, fazia minha pele arrepiar.
"Não me toque", eu disse bruscamente, minha voz afiada e dura.
Puxei meu braço como se sua mão estivesse em chamas. O movimento enviou uma pontada de dor pelo meu corpo machucado.
"Helena", ele suplicou, seus olhos cheios de uma tristeza oca. "Eu sei que te machuquei. Eu sei que errei. Mas você é minha esposa. Você é a pessoa mais importante do mundo para mim."
Nesse exato momento, uma enfermeira entrou correndo no quarto, com uma expressão urgente.
"Sr. Mendes, o senhor precisa vir rápido. A Srta. Chaves está tendo outra crise de pânico. Ela está chamando pelo senhor."
Caio não hesitou.
"Eu já volto", ele me disse, a voz uma mistura de desculpa e urgência.
Ele se levantou, os olhos já na porta. Virou-se tão rápido que derrubou a embalagem de sopa que havia trazido para mim. Ela caiu no chão, derramando-se pelo linóleo limpo.
Ele olhou para a bagunça, depois para mim, e de volta para a porta. Ele nem sequer parou.
Ele simplesmente saiu.
Observei suas costas enquanto ele se apressava para fora do quarto, me deixando com o cheiro de sopa derramada e os destroços do nosso casamento.
Uma risada escapou dos meus lábios. Era um som amargo e quebrado.
A pessoa mais importante do mundo para ele. Que piada. Eu era uma completa idiota.
Alguns minutos depois, duas enfermeiras passaram pela minha porta aberta, suas vozes baixas.
"Ele tem estado com ela sem parar", uma delas sussurrou. "Nunca a deixa sozinha. Pobre Srta. Chaves, ela parece tão frágil."
"E a esposa dele?", a outra perguntou. "Ela ficou sozinha o tempo todo."
"Ele diz que os ferimentos dela não são graves. Mas a Srta. Chaves... ela precisa mais dele. Ele é tão devotado a ela."
As palavras foram como ácido, corroendo o que restava das minhas ilusões. Não era apenas uma dívida de vida. Era um caso. Ele estava apaixonado por ela.
Uma dor aguda atravessou meu peito, tão intensa que me tirou o fôlego. Minha visão ficou turva.
Eu tinha que sair daqui.
Apertei o botão de chamada. Minha assistente, Sara, chegou em minutos.
"Sra. Mendes? A senhora está bem?", ela perguntou, o rosto cheio de preocupação.
"Estou indo embora", eu disse, com a voz firme. "Agora."
"Mas os médicos disseram que a senhora precisa descansar..."
"Não me importa o que os médicos disseram", eu a cortei, minha voz assumindo o tom que eu usava na sala de reuniões. Aquele que não deixava espaço para discussão. "Pegue minhas roupas. Vou dar alta."
Os olhos de Sara se arregalaram, mas ela assentiu. Ela conhecia aquele olhar.
Enquanto eu caminhava pelo corredor, meus passos instáveis, passei pelo quarto de Gisela. A porta estava entreaberta. Eu não ouvi suas vozes. Eu os vi. Ele estava sentado na beira da cama dela, acariciando seu cabelo enquanto ela deitava com a cabeça em seu colo. Ele se inclinou e sussurrou algo, sua expressão cheia de uma ternura que eu não via há anos. Então, ele beijou sua testa.
Meu mundo, que já estava rachado, se estilhaçou em um milhão de pedaços irreparáveis.
Minha mente ficou dormente. Lembrei-me de um documento. Um contrato que assinamos quando fundamos a Dinâmica Apex. Uma cláusula na qual eu insisti, uma salvaguarda em caso de traição.
Uma onda de tontura me atingiu, e uma nova dor aguda perfurou meu baixo-ventre. Agarrei-me à parede para me apoiar, um suor frio brotando em minha testa.
Eu precisava de um médico. Mas não aqui. Não no hospital dele.
Eu tinha que fugir.
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