
De Esposa a Rival
Capítulo 3
Encontrei uma pequena clínica particular do outro lado da cidade. A médica era uma mulher de rosto gentil e olhos suaves. Após uma série de exames, ela me sentou em seu consultório.
"Sra. Mendes", ela começou, sua expressão uma mistura de simpatia e calma profissional. "Você está grávida."
A palavra pairou no ar. Grávida. Caio e eu estávamos tentando há anos. Eu tinha uma condição que dificultava a concepção. Quase tínhamos perdido a esperança.
"Nós conversamos sobre isso antes, lembra?", a médica continuou suavemente. "Caio estava tão animado. Ele disse que um filho era a única coisa que faltava em sua vida perfeita."
A ironia era um comprimido amargo na minha garganta. Nossa vida perfeita.
"É... é possível interromper?", perguntei, as palavras soando estranhas na minha língua.
As sobrancelhas da médica se ergueram em surpresa.
"Bem, sim, mas dada a sua condição, esta pode ser sua única chance de ter um filho. É um milagre você ter concebido. Isso é algo que você deveria discutir com seu marido."
Meu marido. O homem que amava outra mulher.
Uma guerra se travava dentro de mim. Esta criança era parte dele, parte do homem que me traiu. Mas também era parte de mim. Era meu filho. Uma vida inocente pega no fogo cruzado do nosso casamento desfeito.
Talvez... talvez esta criança pudesse mudar as coisas. Talvez fosse a única coisa que poderia trazê-lo de volta do abismo.
Decidi dar a ele uma última chance. Pelo bebê.
Voltei para nossa casa, a que eu projetei do zero. Parecia fria e vazia. Sentei-me na sala de estar escura e esperei.
Ele chegou tarde, o rosto marcado pelo cansaço. Quando me viu, um lampejo de surpresa cruzou seu rosto, seguido por uma onda de falsa preocupação.
"Helena, você não deveria estar aqui. Deveria estar no hospital."
"Estou bem", eu disse, com a voz oca.
Ele se aproximou, tentando colocar o braço ao meu redor.
"Olha, sobre a Gisela..."
"Não quero falar sobre ela", eu o cortei. Levantei-me e caminhei até a grande janela com vista para o jardim, onde as roseiras que plantamos juntos estavam em plena floração. "Lembra quando construímos este lugar, Caio? Dissemos que era nossa fortaleza. Nosso futuro."
"Ainda é", disse ele, com a voz suave.
Virei-me para encará-lo, meu coração batendo forte.
"Vou te dar mais uma chance, Caio. Uma última chance para nos salvar."
A esperança brilhou em seus olhos.
"Qualquer coisa."
"Mande a Gisela embora", eu disse, as palavras claras e afiadas. "Mande-a embora e nunca mais a veja. Faça isso, e podemos tentar consertar isso."
Seu rosto se fechou. A esperança em seus olhos morreu, substituída por aquela culpa familiar e teimosa.
"Não posso fazer isso, Helena", disse ele, balançando a cabeça. "Eu devo ao pai dela. E ela... ela não tem para onde ir."
"Ela é uma mentirosa e manipuladora, e está tentando nos destruir!", gritei, minha voz falhando com uma dor que eu não conseguia mais conter.
"Você não sabe do que está falando", disse ele, a voz endurecendo. "Ela é apenas uma garota assustada."
"Você a ama?" A pergunta rasgou minha garganta, crua e desesperada.
Ele desviou o olhar, incapaz de encontrar meus olhos.
"Você é minha esposa, Helena. Isso não vai mudar."
Não foi um não. Foi uma evasiva, uma confirmação da verdade feia que eu já conhecia.
Ele tentou me puxar para um abraço, para me acalmar com o contato físico.
"Eu te amo", ele sussurrou, mas as palavras eram vazias, sem sentido.
Eu o empurrei.
"Você costumava dizer que se algum dia fizesse algo para me machucar, se ajoelharia e imploraria meu perdão."
"Eu sinto muito", disse ele.
"Não, você não sente", respondi, minha voz se tornando gelo. "Você não acha que fez nada de errado."
Eu vi em seus olhos. Ele realmente acreditava que era o justo, dividido entre seu dever e sua esposa. Ele não via a traição. Ele não via a dor que estava causando.
Minha última gota de esperança murchou e morreu. Tinha acabado.
Virei-me e me afastei dele, meus passos pesados.
Quando cheguei às escadas, o telefone dele tocou. Ele atendeu, sua voz mudando imediatamente para o modo de negócios.
"O quê? Uma falha de segurança? Quão grave é?"
Parei, ouvindo. Ele estava falando sobre a Apex. Nossa empresa.
Ele falava em tons curtos e urgentes, tomando decisões, dando ordens. Ele não me incluiu. Ele nem sequer olhou para mim. Era o problema dele agora, não nosso.
Ele desligou o telefone e pegou as chaves.
"Preciso ir para o escritório. É uma emergência."
Ele passou correndo por mim sem outra palavra, me deixando sozinha na casa que não era mais um lar.
A conexão final foi cortada. Ele me fechou para fora de seu coração, e agora estava me fechando para fora do trabalho de nossa vida.
Fiquei ali no corredor silencioso, uma determinação fria e dura se formando em minhas entranhas. Ele achava que eu era fraca. Ele achava que eu ficaria parada e o deixaria destruir tudo o que construímos.
Ele estava enganado.
Peguei meu telefone e disquei um número.
"Quero que descubra tudo sobre uma mulher chamada Gisela Chaves", eu disse, minha voz firme e fria. "Tudo."
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