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Capa do romance A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard

A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard

Nascida na escuridão, a tecelã cega Aurora tornou-se a guardiã da Trama de Aethelgard. Ao seu lado, Caspian, o Rei Sombrio que assume a forma de um Lobo de Prata, lidera a resistência. Agora, o Rei Bruxo Morgath despertou para escravizar a eternidade com suas Torres de Ferro. Ele busca o Sopro Final de Aurora para transformá-la em seu trunfo sombrio. Entre o amor e o sacrifício, o destino do universo depende dessa aliança forjada em sangue contra as sombras.
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Capítulo 3

Capítulo 3 - O Sacrifício

O caminho até o Precipício das Almas era uma subida lenta através da névoa. A estrada de pedra branca serpenteava a montanha mais alta de Aethelgard, um lugar onde o ar era tão rarefeito que cada respiração parecia um esforço de vontade. Eu não estava mais em uma carruagem. Eu caminhava, descalça, sentindo os cascalhos afiados cortarem a sola dos meus pés, deixando um rastro de sangue que a Irmã Vesper chamava de "o caminho carmim da redenção".

Atrás de mim, uma procissão de túnicas brancas e armaduras douradas entoava cânticos em uma língua morta. Na frente, o Príncipe Kael liderava montado em um garanhão branco, sua capa de seda flutuando como uma bandeira de rendição ao destino.

Quando finalmente chegamos ao cume, o mundo parecia se dividir em dois.

À esquerda, as terras que eu conhecia, o Reino Solar, banhado por uma luz eterna e doentia.

À direita, o abismo.

O Véu de Ébano não era apenas uma barreira, era uma parede de sombras vivas que se contorciam, um oceano de escuridão absoluta que engolia a luz a poucos metros de distância. O som que vinha de lá era um lamento baixo, como o vento soprando em cavernas profundas.

- Chegou a hora - a voz do Príncipe Kael ecoou, desprovida de qualquer emoção que não fosse o tédio ritualístico.

Fui levada até a borda.

Meus dedos dos pés ficaram suspensos sobre o nada. Abaixo, apenas o vazio negro.

A Coroa de Vidro parecia pesar toneladas agora. A Irmã Vesper se aproximou com uma adaga de obsidiana. O plano era simples, um corte em cada pulso, o sangue vertido no abismo para "alimentar" o Véu por mais cem anos, e então o empurrão final. O corpo da Noiva era o selo.

- Pela Luz, o mundo vive - recitou Vesper, erguendo a adaga.

Eu fechei os olhos e esperei pela dor do aço. Esperei pela queda.

Mas o que veio foi o silêncio.

Um silêncio súbito, denso e frio. Tão frio que a névoa ao nosso redor congelou instantaneamente, transformando-se em agulhas de gelo que caíam no chão. O cântico dos sacerdotes morreu em suas gargantas. O cavalo de Kael relinchou, empinando-se em terror.

Abri os olhos.

As sombras do Véu não estavam mais apenas "lá". Elas estavam avançando. Elas rastejavam pelo chão como serpentes de tinta, subindo pelas pernas dos guardas.

E então, do centro da escuridão, ele emergiu.

Não era um monstro de chifres ou uma fera disforme como as escrituras descreviam. Era um homem. Um homem cujas vestes pareciam feitas de fumaça sólida e cuja armadura era negra como o coração de uma estrela morta. Ele não tinha uma coroa de vidro, ele tinha uma presença que esmagava a luz ao redor.

- O Rei das Sombras... - o sussurro de Vesper foi um suspiro de horror puro.

- A Luz sempre foi muito generosa com o sangue alheio - a voz dele era um barão profundo, vibrando no ar como um trovão distante.

Kael desembainhou sua espada de ouro.

- Atrás de mim, Noiva! Guardas, matem a abominação!

Os guardas avançaram, um mar de metal dourado e gritos de guerra. Foi uma carnificina silenciosa.

O Rei das Sombras não precisou de uma espada, ele ergueu a mão, e as próprias sombras sob os pés dos guardas se ergueram como lanças pretas, atravessando as armaduras de placas como se fossem papel de seda. Em segundos, o topo da montanha, antes branco e imaculado, estava pintado de escarlate.

Vesper caiu de joelhos, rezando freneticamente, até que uma fita de sombra selou seus lábios.

Eu estava paralisada. Minha coroa de vidro escorregou e caiu, estilhaçando-se nas pedras. O som do cristal quebrando pareceu quebrar também o meu transe.

O estranho caminhou entre os corpos, passando por Kael, que havia sido arremessado contra as rochas por uma onda de força, e parou diante de mim. Ele era alto, muito mais alto que qualquer homem no convento. Seus olhos não eram vermelhos, eram de um cinza prateado, como a lua que eu nunca tinha visto, apenas lido sobre.

Havia uma cicatriz fina que descia de sua têmpora até o maxilar, e seu rosto era uma escultura de angústia e poder.

- Você é o monstro? - eu perguntei, minha voz mal passando de um sopro.

Ele inclinou a cabeça, observando o sangue nos meus pés e a marca do óleo queimado na minha testa.

- Neste reino, sim - ele respondeu. Ele estendeu a mão enluvada. - Mas eu não vim para beber seu sangue, Aurora. Vim para levar o que eles jogaram fora.

- Você vai me matar?

- Se eu quisesse você morta, teria deixado que terminassem o ritual.

Antes que eu pudesse protestar, ele envolveu minha cintura com um braço de ferro. O calor que emanava dele era o oposto do gelo das sombras, era como o núcleo de uma fogueira.

- Solte-a! - Kael gritou, tentando se levantar, o rosto distorcido pela fúria de ter seu prêmio roubado.

O Rei das Sombras olhou para o príncipe com um desprezo que fez o ar tremer.

- Diga ao seu pai que o tributo acabou. Se quiserem luz, terão que aprender a gerá-la sem cadáveres.

Ele se virou e, comigo em seus braços, saltou no abismo.

O grito morreu na minha garganta enquanto o mundo desaparecia. Não houve impacto, houve apenas a sensação de ser envolvida por uma seda fria e infinita. Pela primeira vez na vida, a luz não estava me cegando.

Eu estava nas sombras e, estranhamente, eu conseguia respirar.

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