
Das Mãos do Cirurgião ao Fogo da Vingança
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena Martins:
A sala de cirurgia era um borrão de luzes brilhantes e vozes sussurradas. Minha mão boa, a que ainda funcionava, movia-se com uma precisão distante. Eu instruía o outro cirurgião, minha voz calma e firme, mesmo enquanto minha mente cambaleava com os eventos da última hora. A mãe de Kyara, uma figura pálida e sem vida na mesa, era um peão neste jogo distorcido.
A cirurgia foi longa, complexa e exaustiva. Quando finalmente terminou, senti um cansaço profundo se abater sobre mim, uma exaustão física e emocional que ia até os ossos.
Ao sair da sala de cirurgia, vi Davi andando de um lado para o outro na sala de espera, Kyara agarrada a ele, suas lágrimas ainda fluindo livremente. Meu olhar encontrou o dele, e por um momento fugaz, vi um lampejo de algo que se assemelhava a gratidão. Mas foi rapidamente substituído por sua habitual indiferença fria.
"Ela está estável", eu disse, minha voz rouca. "Ela vai se recuperar."
Davi assentiu, depois dirigiu sua atenção de volta para Kyara, murmurando palavras de consolo. Ele não me deu outro olhar.
Afastei-me, minhas pernas pesadas, minha cabeça latejando. Eu precisava ver Fabiana. Precisava saber que ela estava segura.
Mas antes que eu pudesse chegar à saída, um grito agudo cortou o silêncio estéril do corredor do hospital.
"Fabiana!"
Meu sangue gelou. O grito veio da direção do quarto onde minha irmã estava presa.
Corri, meu coração batendo forte no peito, uma terrível premonição me dominando.
A porta estava entreaberta. Eu a empurrei.
Fabiana estava no parapeito da janela, seus olhos vazios, seu rosto manchado de lágrimas. Seu cabelo estava desgrenhado, suas roupas rasgadas. O vídeo. A humilhação. Tinha a quebrado.
"Fabiana!", gritei, minha voz crua de terror. "Não! Por favor, não!"
Ela olhou para mim, um sorriso fraco e desolador em seus lábios. "Acabou, Helena. Finalmente acabou."
Eu me lancei em sua direção, minha mão ferida gritando em protesto. "Não! Fabiana, não faça isso! Por favor!"
Mas eu cheguei tarde demais.
Ela pulou.
O grito que rasgou minha garganta foi primal, gutural, um som de pura agonia e desespero. Corri para a janela, olhando para baixo, mas ela havia sumido. Apenas um espaço vazio onde minha irmã estivera.
Davi, atraído pelo meu grito, apareceu na porta, Kyara atrás dele. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de choque genuíno em seu rosto pela primeira vez.
"Fabiana...", ele engasgou, sua voz carregada de um horror incomum.
Eu me virei para ele, meus olhos ardendo com uma fúria tão intensa que ameaçava me consumir. "Você fez isso! Você a matou, Davi! Seu monstro!"
Minhas mãos, minha mão boa, alcançaram sua garganta, meus dedos cravando, desesperados para espremer a vida para fora dele. Ele cambaleou para trás, surpreso com meu ataque súbito e visceral.
Kyara gritou, puxando meus braços. "Pare com isso, Helena! Você está louca!"
Mas eu não a ouvi. Tudo que eu via era o rosto de Davi, o arquiteto da minha destruição. Tudo que eu sentia era a dor lancinante da perda da minha irmã.
"Ela se foi, Davi! Ela se foi por sua causa!", gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Você tirou tudo de mim! Minha mãe! Minha carreira! E agora minha irmã!"
Guardas entraram correndo, me afastando de Davi. Lutei contra eles, chutando e gritando, um animal selvagem em seu domínio.
"Me soltem! Me soltem, seus desgraçados!"
Eles me contiveram, me prendendo contra a parede. Meu corpo era sacudido por soluços, meu espírito estilhaçado em um milhão de pedaços irreparáveis.
Davi, se recuperando, alisou seu terno, seu rosto recuperando sua máscara de controle frio. Ele me encarou, seus olhos agora desprovidos até daquele lampejo de choque. Apenas uma avaliação fria e calculista.
"Levem-na", ele ordenou, sua voz firme. "Sedem-na. E certifiquem-se de que ela fique longe de qualquer janela."
Sedem-na. Mantenham-na longe de janelas. Como se eu fosse a verdadeira louca.
O mundo ficou turvo, as paredes brancas do hospital se fechando sobre mim. Senti a picada de uma agulha, a sonolência familiar se aproximando.
Escuridão. Bendita, misericordiosa escuridão.
Quando acordei novamente, o mundo ainda estava escuro, mas diferente. Eu estava em uma cama macia, o cheiro de lavanda enchendo o ar. Minha cabeça parecia pesada, meu corpo fraco.
A porta se abriu, e um homem que eu não via há anos entrou. Breno Costa. O recluso bilionário de biotecnologia que tentou me recrutar anos atrás.
"Helena", ele disse, sua voz suave, compassiva. "Eu soube."
Eu o encarei, meus olhos ardendo com lágrimas não derramadas. "Ele tirou tudo, Breno. Tudo."
Ele se sentou na beira da cama, seu olhar firme. "Eu sei. E eu sinto muito, Helena."
Ele estendeu a mão, pegando minha mão funcional na sua. Seu toque era gentil, respeitoso. Não como o de Davi.
"Eu te fiz uma oferta uma vez, Helena", ele disse, sua voz baixa. "Uma chance de mudar o mundo. De construir algo novo."
Encontrei seu olhar, um único e potente pensamento se cristalizando em minha mente estilhaçada. Vingança.
"Eu aceito", eu disse, minha voz firme, inabalável. "Mas eu tenho uma condição."
Ele assentiu. "Qualquer coisa."
"Eu quero fazê-lo pagar, Breno", eu disse, minha voz carregada de uma resolução fria e implacável. "Eu quero fazer Davi Lacerda se arrepender do dia em que me conheceu."
Seus olhos, sempre tão inteligentes, pareceram brilhar com compreensão. "Considere feito, Helena."
Ele apertou minha mão. "E primeiro", ele acrescentou, um toque de aço em sua voz, "vamos tirar você desse casamento. Para sempre."
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