Capa do romance A Cicatriz Que Libertou Minha Alma

A Cicatriz Que Libertou Minha Alma

8.0 / 10.0
Após perder seu filho em um acidente causado pela amante de Caio e ser ignorada por ele, a protagonista força o divórcio com uma lâmina no pescoço. Cinco anos depois, ela reencontra o ex-marido, que implora por perdão e desperta a fúria de sua atual esposa, Bia. Ao rejeitar Caio e buscar refúgio com seu vizinho Daniel, ela vê o destino agir. Bia mata Caio na delegacia, e a cicatriz que antes era dor torna-se o símbolo do triunfo final sobre o passado.

A Cicatriz Que Libertou Minha Alma Capítulo 1

Para obrigar meu marido a assinar os papéis do divórcio, tive que pressionar uma lâmina contra meu próprio pescoço até sangrar.

Ele hesitava porque não queria um escândalo, mesmo tendo acabado de assistir sua amante me empurrar da escada, matando nosso filho que ainda nem havia nascido.

Enquanto eu estava caída no chão, sangrando, Caio não chamou uma ambulância para mim; ele foi consolar ela, porque a "coitadinha" estava assustada.

Fui embora com uma cicatriz irregular e a alma despedaçada, deixando-os com sua felicidade roubada.

Cinco anos depois, em uma festa, o jogo "Eu Nunca" trouxe tudo à tona de forma brutal.

Caio olhou para mim com olhos assombrados, ignorando sua agora esposa, Bia, e sussurrou: "Eu cometi um erro. Eu quero você de volta."

Bia surtou, gritando que eu era a destruidora de lares, e tentou me atacar novamente em um ataque de ciúmes doentio.

Mas desta vez, eu não era a vítima.

Virei-me para meu vizinho bonitão, Daniel, e fechei a porta na cara suplicante de Caio.

Na manhã seguinte, uma manchete piscou no meu celular: "Magnata da Tecnologia Caio Bittencourt Morto a Facadas pela Esposa na Delegacia."

Toquei a cicatriz no meu pescoço e finalmente sorri.

O Karma não bateu na porta; ele a derrubou com um chute.

Capítulo 1

Ponto de Vista de Alice Lobo:

Cinco anos atrás, decidi enterrar Caio Bittencourt. Não literalmente, claro. Mas o homem que destruiu meu mundo? Ele deixou de existir para mim. Até esta noite.

O grave da música batia ritmicamente através do carpete felpudo do lounge de luxo nos Jardins, em São Paulo. Cristais pendiam do teto, refletindo o brilho suave das luzes âmbar. Era a despedida de solteira da Mari, uma noite que deveria ser sobre celebrar seu novo começo. Em vez disso, parecia uma reprise do meu pior pesadelo.

Ele estava do outro lado do salão, impecável em um terno escuro sob medida, sua risada ecoando um pouco alto demais sobre a música. Caio Bittencourt. O magnata da tecnologia, o queridinho do público, o homem que um dia conheceu cada contorno do meu coração. Agora, ele era apenas um fantasma que eu não sabia que ainda me assombrava.

Minha respiração falhou. Minha mão foi instintivamente para a cicatriz fraca e irregular na base do meu pescoço, escondida sob as ondas cuidadosamente estilizadas do meu cabelo. Um lembrete permanente.

Ele me viu então. Seus olhos, aquele mesmo azul penetrante em que um dia me afoguei, travaram nos meus. Um sorriso lento, aquela curva arrogante e familiar, espalhou-se pelo rosto dele. Ele começou a caminhar em minha direção, um predador sentindo fraqueza.

— Alice — disse ele, sua voz um estrondo baixo que costumava me causar arrepios. Esta noite, parecia apenas uma corrente de ar gelado. — Você está... diferente. — Ele fez uma pausa, o olhar demorando-se, fazendo-me sentir nua sob seu escrutínio. — Diferente de um jeito bom. Radiante, até.

Forcei um sorriso pequeno e tenso.

— Cinco anos mudam muita coisa, Caio. — Minha voz estava firme, não traindo nada do turbilhão que se agitava dentro de mim. — Você também. Ainda o mesmo velho encantador, vejo.

Ele riu, um som desprovido de calor genuíno.

— Algumas coisas nunca mudam, certo?

— Certo — concordei, meus olhos desviando por cima do ombro dele. Vi Camila, minha melhor amiga, estreitar os olhos para ele do outro lado da sala. Ela já estava em alerta máximo.

Antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, Mari bateu palmas, tirando uma pilha de cartas da bolsa.

— Certo, senhoras e senhores, hora de um clássico! Eu Nunca!

Um grito coletivo de aprovação subiu. Taças de champanhe foram erguidas. O jogo começou, inocente o suficiente, detalhando loucuras da faculdade e escolhas de moda questionáveis. Então Mari, já altinha e rindo, tirou outra carta.

— Eu nunca... — ela leu, a voz um pouco arrastada — fui traída por alguém que amava, apenas para descobrir que eles já estavam com outra pessoa.

O salão ficou em silêncio. Um silêncio sepulcral. Todos os olhos, parecia, estavam de repente em mim. E em Caio.

Observei o maxilar de Caio trincar, sua respiração presa na garganta. O rosto dele, geralmente tão composto, empalideceu dramaticamente.

Ele se lembra. Ele sabe exatamente do que ela está falando. O pensamento foi um nó frio e duro no meu estômago.

A mão dele se estendeu, um gesto sutil, como se para me impedir de responder. Para me impedir de expor a fachada polida de sua vida perfeita. A vida que ele construiu sobre as cinzas da minha. Ele era o CEO, o filantropo, o homem com a esposa de capa de revista que tinha acabado de organizar um baile de caridade na semana passada. O público o amava. Eles adoravam sua imagem cuidadosamente curada de marido devoto.

Limpei a garganta, meu olhar fixo em Mari.

— Eu já — disse eu, minha voz clara e inabalável. — E isso me custou tudo.

Um suspiro coletivo percorreu a multidão. Mari gaguejou:

— Ah, Alice, me desculpe, eu não quis dizer...

— Está tudo bem, Mari — interrompi gentilmente. — Aconteceu há muito tempo. Ela era a secretária dele, sabe. Começou como um caso, terminou com um casamento. Um verdadeiro conto de fadas, na verdade.

Meu olhar cintilou para Caio, cujos olhos estavam arregalados com uma mistura de choque e algo que eu não conseguia decifrar. Vergonha? Arrependimento?

Algumas pessoas murmuraram com simpatia, seus olhos alternando entre Caio e eu. Camila, no entanto, marchou até nós, seus saltos afundando no carpete.

— Alice Lobo — sibilou Camila, os olhos flamejando. — Você nunca me disse que foi tão ruim assim. Você só disse que foi complicado. Disse que tinha superado.

— Eu superei, Camila — respondi, minha voz firme. — O que aconteceu, aconteceu.

— O que aconteceu? — Camila zombou, virando seu olhar furioso para Caio. — O que aconteceu foi que você pegou ele e o segredinho dele no flagra, não foi?

A memória desabou sobre mim, rápida e brutal, como uma onda gigante da qual tentei fugir por muito tempo. O cheiro pesado de perfume de jasmim. As pernas pálidas de Bia Holanda em volta de Caio, na nossa cama. A visão de seus corpos, entrelaçados e grotescos, roubou o ar dos meus pulmões. Eu estava grávida de seis meses, minha barriga um testamento orgulhoso e redondo do futuro que eu achava que compartilhávamos.

Meu grito foi arrancado da garganta, cru e angustiado. Lembrei-me da névoa vermelha de raiva. Lembrei-me de avançar em Bia, alimentada por uma fúria primitiva. Eu só queria tirá-la de cima dele, da nossa cama. Ela tropeçou para trás, os olhos arregalados de medo, e então me empurrou. Com força. Senti meus pés escorregarem no chão de madeira polida. O tempo pareceu desacelerar. O mundo inclinou. A borda afiada do corrimão da escada atingiu meu lado primeiro, depois o baque nauseante enquanto eu rolava degraus abaixo.

Uma dor lancinante, depois um jorro de calor entre minhas pernas.

Caio, em vez de correr para mim, moveu-se para proteger Bia. Ele ficou entre nós, o rosto uma máscara de fúria fria, gritando comigo.

— Olha o que você fez, Alice! Você é apenas uma bagunça ciumenta e instável! Você não é exatamente uma visão agradável agora, é? Olhe para você, toda inchada e histérica. A Bia é delicada. Você a assustou.

Ele ofereceu uma desculpa frágil e patética sobre ser "apenas um erro", um "momento de fraqueza" impulsionado pela minha "gravidez difícil". Ele prometeu terminar, consertar tudo. Mas suas palavras eram vazias, abafadas pela dor latejante no meu abdômen e pela compreensão arrepiante de que ele a havia protegido, não a mim. Ele a protegeu.

Quando a ambulância me levou, ele não foi comigo. Ele ficou com a Bia.

Na manhã seguinte, deitada naquela cama de hospital estéril, meu corpo doendo, meu ventre vazio, olhei para ele, o rosto marcado por uma culpa performática que não alcançava seus olhos.

— Eu quero o divórcio — sussurrei, as palavras com gosto de cinzas na boca.

A música aumentou, puxando-me de volta ao presente. O lounge, a festa, o rosto atordoado de Caio. Camila ainda estava espumando de raiva, as mãos fechadas em punhos.

— E você nunca me contou tudo isso — murmurou Camila, balançando a cabeça. — Meu Deus, Alice. Eu deveria estar lá.

Meu olhar encontrou o de Caio novamente. O arrependimento estava claro em seus olhos agora, um olhar desesperado e suplicante. Mas era muito pouco, muito tarde.

— Agora você sabe — eu disse, minha voz plana, sustentando o olhar dele. — Tudo.

Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.

— Alice, eu...

— Não — cortei, um frio se instalando sobre mim. — É história antiga. Assim como nós.

Virei-me, puxando Camila comigo.

— Vamos pegar outra bebida. Essa história sempre me dá sede.

Eu precisava escapar do olhar dele, da presença dele. Eu precisava respirar. E eu sabia, no fundo, que isso estava longe de acabar.

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