
Dark Paradise
Capítulo 2
Rebeca achou engraçado, porque quase nem tinha seios, por ser magrinha, mas ficou super feliz e foi logo para a escola vestindo tudo. Na hora do recreio, estava correndo quando o sutiã abriu nas costas por estar largo. Passou vergonha. Ficaram rindo dela, zombando, falando que ela havia roubado das vizinhas. Só de raiva, ela não tirou.
Foi para casa e não conseguiu tirar sozinha. Não queria que o tio visse, com medo dele a repreender por estar querendo mudar. Ficou o dia todo de blusa de frio. Quando Neto chegou da escola, ela foi correndo até a casa dele. Estava muito calor. Ele perguntou, surpreso, se ela estava doente. Disse que iria chamá-la para nadar. Envergonhada, ela não falou nada.
Ele foi nadar, e Rebeca ficou feito boba, com vontade, só molhando os pés. Depois tirou a blusa e entrou na piscina de shorts e camiseta. Ficou se escondendo embaixo da água. Quando ele viu o sutiã, começou a rir, zombando. Ela saiu correndo, com vergonha e muita raiva. Foi ao banheiro pegar uma toalha para ir embora logo.
Neto foi até a porta do banheiro se desculpar. Falou bem de boa, que só riu porque não sabia que ela já tinha peitos, mas que sempre soube que ela era uma menina, que toda menina tinha peitos um dia e era normal. Disse que não iria ficar tirando sarro dela por causa daquilo.
Chorando, Rebeca falou com a porta trancada:
- Não tenho peitos ainda e quero tirar essa porcaria, mas não estou conseguindo.
Ele respondeu que podia tirar. Na inocência de bons amigos, ela abriu a porta e saiu para fora. Neto levantou a camiseta dela um pouco e, sutilmente, soltou o fecho. Falou para ela ir ao banheiro tirar. Enquanto Rebeca tirava, de porta fechada, ele ficou falando do lado de fora:
- Já mexi várias vezes nas coisas da minha mãe. Meu pai guarda tudo. Quando você tiver peitos, posso pegar um sutiã lá para você.
Rebeca gritou para ele calar a boca. Ele só quis saber se ainda iam nadar. Ela falou que não queria mais e foi embora brava, irritada. Se sentindo inferiorizada e feia, aos olhos dele.
Usou aquelas roupas todos os dias que deu, só tirava para lavar mesmo. Sempre achava coisas legais lá na reciclagem: bijuterias, livros, revistas e guardava. Começou a procurar coisas que as meninas tinham, mas nunca sabia o que era bonito ou ultrapassado, já que estava tudo no lixo. Logo parou de tentar se arrumar, muito frustrada. Não tinha tanto interesse nisso mesmo.
Depois daquele dia na piscina, ficou sem ir ver Neto. Na época, vivia irritada com tudo e todos, sentindo-se um pouco triste, frustrada. Ficou mais dentro de casa e seu tio no fundo gostava, dela sempre isolada. Eram os hormônios, a TPM. Nada fazia sentido, tudo parecia meio ruim, quando ela ficou "mocinha".
Tomou um susto. Já tinha ouvido falar na escola quando mais nova, uma colega super pra frente, vivia dizendo que queria menstruar logo para ter corpão, usar esmalte vermelho. E Rebeca não queria virar nunca, odiou desde o começo.
O tio era meio rústico. Não falava daquelas coisas com ela. Só explicou que devia se limpar direito no banheiro, tomar banho todos os dias, usar sabonete e esponja diferentes dos dele, andar sempre com roupa limpa, mesmo que velha e surrada, passar desodorante e perfume. Os dois usavam o mesmo: Tabu.
Em um dos dias que estava menstruada, foi para a escola e a roupa manchou, porque ela colocou o absorvente errado. Tassiane uma colega emprestou a blusa para ela amarrar na cintura. Foi até a diretoria com Rebeca pedir um absorvente. Ela ia precisar de outra roupa ou que alguém fosse buscá-la para ir embora mais cedo.
Sabia que o tio nem ficava com o celular. Era bem antigo, ele raramente usava, e se fosse até a escola iria demorar muito. A colega falou que iria ligar para a mãe dela. Como todos na secretaria sabiam da vida de Rebeca, deixaram.
Bem rápido, a mãe da colega chegou com duas calças, uma calcinha e três pacotes de absorventes diferentes: um noturno, um com abas e um sem abas. Ela ficou conversando com a diretora e uma professora, olhando para Rebeca de longe. Rebeca sabia que estavam falando dela. Pôde ver e sentir o olhar de pena delas. Aquilo a marcou bastante. Foi tudo muito constrangedor.
Quando voltou para a sala, todos estavam sabendo e rindo dela. Ficou morrendo de vergonha, mas a colega a defendeu. Xingou todo mundo, disse que iria pegar na saída.
Tassiane era meio doidinha. Sentava na frente, tinha boas notas, conversava com todo mundo, até com os professores. Sempre estava metida em brigas, defendendo alguém ou atacando, toda debochada e pirracenta. Não eram amigas ainda, só colegas.
Rebeca nem sabia fazer amizade e, por ter uma condição mais humilde, não ficava com a galera no intervalo, porque sempre compravam coisas na cantina e ela não tinha dinheiro. Se pedisse, talvez o tio desse, mas não tinha coragem, por achar que a situação em casa era difícil.
No intervalo, ela sempre comia a merenda, independentemente do que fosse de lanche, e ia ficar sentada no canto, observando a todos. Antes ficava com Neto, mas depois que ele mudou de escola, teve dificuldade em se ajustar à nova rotina e sempre mentia para ele, quando tocava no assunto, dizendo que tinha amigos novos.
Em casa, só tinha café preto de manhã. Era o que tomava antes de ir para a aula. Por isso, sempre aproveitava o lanche que davam para comer.
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