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Capa do romance Dark Paradise

Dark Paradise

Criada pelo tio Antônio entre a sucata e o trabalho duro, Rebeca aprendeu a ser discreta e resiliente. Sua paixão por carros e corridas ilegais a leva a riscos extremos, enquanto luta para ocultar um poder místico herdado da mãe. Entre a lealdade ao seu melhor amigo de infância e escolhas impulsivas, sua rotina pacata desmorona. Ao salvar um homem perigoso, ela se expõe ao mundo, criando um vínculo intenso que mudará seu destino para sempre em meio ao perigo.
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Capítulo 3

Depois da escola, Rebeca foi direto para casa. O tio já tinha almoçado e voltado a trabalhar. Ela comeu, tomou um remédio que lhe deram e foi deitar. Acabou dormindo e não limpou a casa como de costume.

Quando o tio voltou no final do dia, foi perguntar se ela estava se sentindo mal. Ele notou que havia algo errado acontecendo. Rebeca falou que estava com dor. Ele ficou sem jeito, pensando em como conversar, mas ela contou que já sabia sempre o que fazer, que tinham lhe dado toda a assistência na escola.

O tio se ofereceu para ir à farmácia com ela. Rebeca pediu para ir sozinha no dia seguinte. Como já tinha ganhado absorventes e remédio, foi procurar outra coisa para comprar, algo que o tio não fosse notar. Foi à farmácia e não achou nada interessante. Quase pegou um batom em formato de morango, que todo mundo tinha na escola, mas achou caro. Comprou doces e guardou o troco.

Quase ficou esperando Neto chegar da escola, mas achou melhor evitar vê-lo, porque ele iria querer nadar, ir andar de bicicleta, e ela não queria fazer nada daquilo. Pensou que seria muito estranho contar para ele o que tinha acontecido.

Faltou à escola por dias. O tio ficou com dó e nem fez questão que ela fosse. Na verdade, ele nunca fez questão, ela é que gostava de ir.

Neto foi chamá-la para ajudar com o carro que ele estava mexendo, ajudando o pai dele. E disse que se terminasse o pai ia deixá-lo sair de carro a noite. Ela foi com ele, mas não quis fazer nada. Ele se irritou com ela e disse que estava estranha, muito chata, que devia estar com ciúmes e inveja dos novos amigos dele, porque toda vez que estavam lá, ela não queria ir ficar junto.

Rebeca respondeu:

— Então vai encontrar com os seus novos amigos.

E foi embora.

Ele ficou todo bravo, reclamando, criticando, mas não foi atrás. Ficaram semanas sem conversar, o primo dele foi pra lá e juntos iam a corridas ver o pessoal tirando rachas.

Ele até foi chamá-la duas vezes, mas Rebeca ignorou. Falou que não podia sair.

Neto entrou de férias e foi viajar para a casa da avó. Nem se despediram. Ele estava amadurecendo muito e ela ainda não, mas ela via que a amizade estava mudando e muito, Ficou achando que ia até acabar.

Como ela queria dinheiro para comprar mais roupas, Rebeca perguntou ao tio se podia ajudar na oficina, na reciclagem. Também falou que não tinha com quem ficar nas férias. Ele deixou, e ela começou a trabalhar, ajudando no desmanche, fazendo lavagens, separando lixo.

Era tudo muito sujo, ela sentiu o cansaço e o tédio, de estar sozinha, mas logo recebeu pelos 15 dias trabalhados e ficou super feliz. Célio, dono de tudo e pai de Neto, fez todo o procedimento de chamá-la para receber como chamou os outros. Tratava-a muito bem e disse estar orgulhoso dela.

O pagamento pareceu muito dinheiro. Rebeca nem sabia o que comprar primeiro. Não tinha noção de qual loja poderia ir, nem do real valor do dinheiro. O tio perguntou o que ela pretendia fazer com tanto dinheiro. Foi irônico, mas na época ela nem notou. Toda animada, contou que queria roupas.

Ele falou pra ela chamar a moça que trabalhava lá, para ir a uma loja.

No dia seguinte, foram bem cedo. A mulher a levou a uma loja que tinha peças mais baratas, com defeitos. Rebeca comprou poucas peças. Achou o máximo aquela sensação de vestir algo que se encaixava perfeitamente em seu corpo.

Ela também estava de férias e não tinha onde usar a roupa nova. A ansiedade era tanta que se ofereceu para ir à igreja com a moça que trabalhava lá, mentiu e foi ver as famosas corridas que Neto tanto falava. Foi bem legal, ela passou horas só observando de longe. Rebeca se sentiu mais normal que o comum. Ninguém ficou reparando nela, todos eram mais velhos, estavam bebendo e dançando.

Ela se animou para trabalhar. Esforçou-se bastante, começou a levar a sério. Célio voltou de viagem sem Neto. Contou que ele iria ficar fora até o final das férias. Rebeca ficou triste, porque ele era o único amigo dela.

Célio entregou uma cartinha de Neto. Ele escreveu que logo voltaria e que sempre seriam os melhores amigos, mesmo longe. Desenhou os dois juntos.

Rebeca não tinha costume de chorar por nada. Nunca. Mas naquele dia chorou, porque teve certeza de que ele não iria voltar e, se voltasse, seria “outra” pessoa. Na casa da avó dele, a vida era muito boa. Tinham boas condições e ele com certeza teria amigos iguais a ele, mais interessantes que ela.

Às vezes, Célio mandava recados de Neto. Até ofereceu o celular dele para que os dois conversassem por ligação, mas Rebeca não quis. Tinha vergonha de pegar as coisas dos outros e nem sabia mexer naquele celular. Também ficou pensando que seria muito ruim saber como a vida dele estava ótima longe dela, com amigos novos.

Continuou trabalhando e quando as aulas voltaram ela continuou indo meio período e, às vezes, as unhas ficavam sujas. Na escola, sempre sentava na última mesa, no fundo da sala, porque não gostava de ser notada. Como Neto sumiu por meses, começaram a fazer piadinhas comuns sobre ela. Falavam sobre o cabelo dela, que estava crescendo bastante acobreado, sobre a letra feia, sobre as notas péssimas.

Um dia, Rebeca estava realmente prestando atenção na aula quando jogaram uma bolinha de papel nela. Ela só olhou brava e voltou a prestar atenção. Logo a aula acabou. Foi para o intervalo comer.

Quando voltaram para a sala, havia um desenho que parecia ser ela, colado na lousa, com unhas enormes, pretas, e cabelo arrepiado, feio, bagunçado. Rebeca ignorou e voltou a sentar.

Quando Tassiane entrou, tirou a folha da lousa e falou para todo mundo ouvir:

— Isso parece desenho de criança de cinco anos.

Rebeca ficou quieta no canto dela. Depois, quando estava arrumando o material para ir embora, viu que tinham colocado várias bolinhas de papel dentro da mochila. Deu para ver que era um desenho.

Abriu uma para ver melhor. Era um desenho muito bonito dela. Abriu outra, também era, só que diferente: ela sentada na sala, ela lá fora encostada na árvore em que sempre ficava.

Rebeca amassou tudo e jogou no lixo.

No dia seguinte, foi para a escola de coque no cabelo, com vontade de cortar curtinho de novo e limpou as unhas até machucar os dedos.

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