
Da Prisão para o Seu Arrependimento Perfeito
Capítulo 2
Ponto de Vista da Alice:
O rosto perfeito de Jonas desmoronou. O lampejo de culpa que eu procurei no Capítulo 1 finalmente surgiu, uma sombra fugaz cruzando seus olhos. Era uma emoção fraca, rapidamente substituída por uma defensiva familiar.
— Alice. É assim que você realmente se sente? — ele perguntou, a voz carregada de uma mágoa fingida, como se a minha dor fosse um inconveniente para ele.
Eu apenas o encarei, meu silêncio uma arma mais potente do que qualquer palavra. Ele se remexeu no banco, desconfortável sob meu olhar.
— Eu... eu sinto muito — ele murmurou, olhando para a estrada cinzenta e chuvosa. — Sinto de verdade. Sei que errei. Mas eu só estava tentando te proteger. Proteger a nós. — A voz dele falhou, uma performance que eu conhecia bem demais.
Eu não comprei. Não mais. Lembrei-me das ligações desesperadas do orelhão da prisão, a conexão cheia de estática, a voz automatizada dizendo que o número estava indisponível. Lembrei-me das cartas, escritas com cuidado, implorando por um sinal, qualquer sinal, de que ele ainda se lembrava de mim. E o silêncio esmagador que seguia cada tentativa.
— Me proteger? — zombei, o som áspero no espaço confinado do SUV de luxo. — De quê, Jonas? Da verdade? Do fato de que você me jogou na fogueira para salvar sua preciosa empresa?
Ele estremeceu visivelmente.
— Não foi assim! O conselho estava no meu pescoço. O IPO era tudo. Disseram que se alguém ligado à gestão estivesse envolvido, as ações despencariam. Eu tinha que estabilizar as coisas. E você... você era tão boa em marketing, eles acharam que você era a mente por trás dos números, não apenas da apresentação.
— E você deixou que pensassem isso — afirmei, minha voz plana. — Você me deixou levar a culpa pelo seu desvio de dinheiro. Pelo escândalo da sua empresa.
— Foi um erro administrativo, Alice! Um erro! Um que a Camila deveria ter consertado, mas as coisas saíram do controle. — Ele estava tentando transferir a culpa, mesmo cinco anos depois. Sempre. Camila.
— E você nunca recebeu nenhuma das minhas mensagens, certo? — perguntei, um sorriso amargo tocando meus lábios. — Nunca recebeu uma única das dezenas de ligações, das centenas de cartas?
Ele balançou a cabeça veementemente.
— Não! A Camila cuidava de toda a minha correspondência. Ela disse que filtrava tudo, para manter a mídia longe, para me manter focado na empresa durante um momento crítico. — Ele realmente parecia genuíno. Ou talvez ele apenas acreditasse genuinamente nas próprias mentiras. — Eu disse a ela para dizer a todos que eu estava de coração partido, que estava me matando de trabalhar para limpar seu nome, mas nunca recebi nenhuma mensagem sua, Alice. Nem uma. Achei que você estava apenas... com muita raiva para falar comigo.
Observei-o, uma realização lenta e fria amanhecendo em mim. Camila. Claro. Aquela mulher ambiciosa e ardilosa. Ela sempre foi obcecada por Jonas, pela empresa dele, pelo sucesso dele. Ela tinha sido minha "amiga", minha "confidente" quando entrei na empresa, depois se infiltrou na vida de Jonas como assistente dele.
— Ela te manteve longe de mim, não foi? — sussurrei, não uma pergunta, mas uma afirmação. — Ela bloqueou cada tentativa. Ela garantiu que eu ficasse isolada. Ela garantiu que você continuasse alheio.
Os olhos de Jonas piscaram, um horror nascendo em seu rosto.
— Não. A Camila não faria isso. Ela é incrivelmente leal. Ela tem sido meu braço direito há anos.
— Leal a você, ou leal à própria agenda dela? — rebati, meu olhar inabalável. — Pense nisso, Jonas. Quem tinha mais a ganhar com a minha saída de cena? Quem de repente se tornou indispensável para você, gerenciando sua vida, seus negócios, seu coração partido?
Ele engoliu em seco, os olhos correndo para o espelho retrovisor como se para confirmar a presença dela, embora ela não estivesse lá. Ele parecia um cervo paralisado pelos faróis. O CEO perfeito, completamente cego para a cobra em seu próprio escritório.
— Alice, eu... eu nunca pensei...
— Você nunca pensou, Jonas. Esse é o problema. — Encostei-me no couro macio, o cheiro de carro caro e traição antiga enchendo minhas narinas. — Você sempre deixa os outros fazerem o trabalho sujo, e depois finge ser a vítima.
Ele abriu a boca, depois fechou. Sua fachada perfeita estava rachando, pedaço por pedaço. Não era o suficiente. Ainda não.
— Estamos quase chegando — disse ele, mudando de assunto. — Reservei uma suíte no Fasano. Queria te mimar. Compensar por tudo.
— No Fasano? — repeti, uma risada seca escapando dos meus lábios. — Não na nossa casa? Aquela que construímos juntos? A que provavelmente está juntando poeira, ou talvez, hospedando outra pessoa?
Ele estremeceu novamente.
— Não, claro que não! Nossa casa está... está sendo reformada. Para o seu retorno. Eu queria que tudo fosse perfeito. Um recomeço. Isso é apenas temporário. Quero te estragar de mimos, Alice. Mostrar o quanto senti sua falta. O quanto ainda te amo.
As palavras dele, destinadas a acalmar, apenas arranhavam meus nervos expostos. Ele ainda não entendia. Ele achava que dinheiro, gestos luxuosos e promessas vazias poderiam apagar cinco anos de solidão e traição.
— Apenas dirija, Jonas — eu disse, virando a cabeça para observar a paisagem borrada pela chuva torrencial de São Paulo. Meu estômago roncou, um lembrete vulgar da comida escassa da prisão. Talvez um filé não tivesse um gosto tão ruim. Especialmente se fosse cozinhado por alguém totalmente diferente.
O SUV acelerou pela Marginal Pinheiros, os prédios imponentes um contraste gritante com o mundo pequeno e cinza que eu acabara de deixar. Jonas tentou puxar conversa, mas ofereci apenas respostas monossilábicas, meu olhar fixo no fluxo interminável de luzes da cidade. Ele acabou ficando em silêncio, ocasionalmente me olhando pelo retrovisor, sua confiança habitual murcha.
Quando paramos em frente ao Hotel Fasano, o porteiro, um homem que eu vagamente lembrava de nossas visitas anteriores, correu para abrir minha porta. Jonas saiu do carro num instante, circulando para o meu lado, a mão pairando perto das minhas costas, como se esperasse permissão para me tocar.
— Bem-vinda de volta, Sra. Albuquerque — disse o porteiro, o sorriso largo e genuíno. — Estávamos todos tão preocupados com a senhora.
Sra. Albuquerque. O nome parecia estrangeiro, uma sobra de uma vida que não existia mais. Ofereci um sorriso fraco em troca.
— Ela teve uma longa jornada — Jonas interveio suavemente, colocando uma mão possessiva no meu braço. — Vamos levá-la para dentro.
Lá dentro, o saguão era uma sinfonia de elegância discreta e luxo silencioso. Lustres brilhavam, o mármore reluzia, e o ar cheirava a perfume caro e flores frescas. Era um mundo inteiramente desconectado daquele que eu habitara nos últimos cinco anos.
— Reservei a suíte presidencial — anunciou Jonas, a voz recuperando um pouco da arrogância habitual. — Aquela com a melhor vista. Só para nós.
Não disse nada, deixando-o me guiar pelo saguão opulento, passando por olhares de admiração e cumprimentos sussurrados. Ele estava dando um show, para eles e para si mesmo. Ele queria que todos vissem o marido devoto, recebendo sua esposa injustiçada de volta em sua gaiola dourada. Mas eu não estava comprando.
No elevador, finalmente me virei para ele.
— Por que não vamos para casa, Jonas? De verdade.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado.
— Alice, eu te disse. Reformas. Quero que seja perfeito para você. Um recomeço. E além disso — ele hesitou, os olhos vacilando. — Eu queria que tivéssemos um tempo, só nós, para nos reconectar. Sem... sem os fantasmas do passado assombrando cada canto da casa.
— Os fantasmas do passado? — repeti, uma risada fria escapando dos meus lábios. — Você quer dizer a Camila, Jonas? Ela está assombrando nossa casa, ou ela se sentiu perfeitamente em casa lá?
O rosto dele ficou pálido. Ele abriu a boca, depois fechou. Ele não tinha resposta. Porque eu sabia a verdade. Eu podia ver nos olhos dele.
As portas do elevador se abriram para uma suíte luxuosa. Era enorme, com janelas do chão ao teto oferecendo uma vista deslumbrante da cidade sob a tempestade. Uma garrafa de champanhe estava gelando num balde, ao lado de uma bandeja de prata com frutas frescas.
— Aqui estamos — disse Jonas, uma alegria forçada na voz. — Nosso santuário.
Caminhei até a janela, olhando para as luzes da cidade. Era bonito. E totalmente sem sentido. Não senti nada além de um vazio profundo.
— Pedi à equipe para preparar o jantar — disse ele, gesticulando para a mesa de jantar reluzente. — Mas tenho algo especial planejado para você primeiro.
Virei-me, meu olhar duro.
— O que poderia ser tão especial, Jonas?
O sorriso dele foi suave, quase tímido.
— Vou cozinhar para você, Alice. Assim como fiz no nosso primeiro aniversário. — Ele me observou, procurando uma reação. — Lembra? Seu filé favorito. Ao ponto para mal.
Meu estômago se contraiu. Filé. A última coisa que eu queria era um lembrete de uma época em que eu realmente amava esse homem. Uma época em que os gestos dele significavam alguma coisa.
— Você vai cozinhar? — perguntei, minha voz plana. — Aqui? Numa cozinha de hotel?
— Eles montaram uma estação culinária privada para mim — disse ele, radiante. — Cortesia do chef. Eu disse a eles que era uma ocasião especial. Para você.
Ele me observou com expectativa, esperando elogios, gratidão, qualquer sinal da velha Alice. Mas ela se foi. Enterrada sob cinco anos de concreto e aço.
Respirei fundo, o ar frio ainda de alguma forma agarrado a mim, mesmo no calor da suíte.
— Tudo bem. Cozinhe.
Ele pareceu surpreso com minha falta de entusiasmo, mas se recuperou rapidamente.
— Ótimo! Você apenas relaxe. Volto em breve. — Ele tirou o paletó caro, dobrando as mangas da camisa branca engomada. Ele realmente parecia feliz, movimentando-se, dando ordens aos funcionários do hotel que pareciam adorá-lo.
Um jovem garçom, com o rosto brilhando de admiração, aproximou-se de mim.
— O Sr. Albuquerque é um marido tão devoto, Sra. Albuquerque. Ele nos contou o quanto sentiu sua falta. E passou semanas planejando isso. Ele até trouxe seus próprios ingredientes especiais de casa para fazer sua refeição favorita.
As palavras do garçom pretendiam ser gentis, aquecer meu coração. Em vez disso, embrulharam meu estômago. Marido devoto. A ironia tinha um gosto amargo na minha boca. Ele estava dando um show, para a equipe, para mim, para si mesmo. Uma performance de uma vida perfeita, um amor perfeito.
— Sim — eu disse, minha voz desprovida de emoção. — Ele é muito... devoto.
O garçom sorriu, alheio ao tom gélido na minha voz. Ele me serviu um copo de água com gás, as bolhas dançando na taça elegante.
— A senhora deve estar tão feliz. De estar de volta com um homem tão atencioso.
Feliz. A palavra parecia alienígena. Eu não me sentia feliz há tanto tempo que não tinha certeza se lembrava o que era. Assenti vagamente, querendo apenas que ele fosse embora. Ele fez uma leve reverência e saiu discretamente da suíte.
Voltei para a janela, as luzes de São Paulo borrando numa névoa aquosa. Felicidade. Era uma memória distante, um conceito que não se aplicava mais a mim. Tudo o que eu sentia era uma dor surda, um zumbido constante de ressentimento que havia se tornado meu novo normal. A ideia de Jonas num avental de chef, preparando meticulosamente uma refeição para mim, era repulsiva. Era uma paródia grotesca do que fomos um dia. Ele estava tentando comprar meu amor, meu perdão, com comida e luxo. Mas algumas coisas não estavam à venda. E meu coração estava no topo dessa lista.
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