
Da Prisão para o Seu Arrependimento Perfeito
Capítulo 3
Ponto de Vista da Alice:
Encarei as luzes da cidade, minha mente vagando de volta para um tempo em que "feliz" não era um ponto de interrogação, mas um estado constante de ser. A garota que costumava sonhar com gestos românticos perfeitos, aquela que acreditava em grandes declarações de amor, tinha morrido uma morte lenta e agonizante atrás das grades. Entrei na prisão como uma diretora de marketing ingênua, pronta para sacrificar tudo pelo homem que amava. Saí como uma sobrevivente calejada.
Jonas voltou, um sorriso triunfante no rosto, uma cloche de prata na mão. Ele a colocou cuidadosamente diante de mim, depois levantou a tampa com um floreio. Um filé perfeitamente selado, brilhando com sucos, estava no prato, cercado por legumes assados. O aroma era rico, tentador, um contraste gritante com os cheiros insossos e institucionais aos quais eu havia me acostumado.
— Seu favorito, Alice — disse ele, os olhos brilhando de expectativa. — Assim como no nosso primeiro aniversário. Lembra? Você disse que foi a melhor refeição que já comeu.
Peguei meu garfo, a prata pesada parecendo estranha na minha mão. Ele me observava, prendendo a respiração, esperando minha reação. Por um elogio. Por um sorriso. Por um sinal de que seu grande gesto havia funcionado.
Cortei o filé, levei um pedaço à boca. Tinha gosto de... carne. Rica, saborosa, habilmente cozida. Tudo o que um filé deveria ser.
Ele se inclinou para frente, a antecipação irradiando dele.
— E então? Está bom?
Encontrei o olhar dele, meus olhos desprovidos de calor.
— Tem um gosto terrível, Jonas.
O sorriso dele desabou. O rosto dele perdeu a cor.
— Terrível? Mas... eu segui a receita exatamente. Usei os melhores ingredientes. Até consegui aquela manteiga de trufas especial que você gostava.
— Não é a comida, Jonas — eu disse, minha voz plana. — É o chef. O homem que fez isso. O homem que me deixou apodrecer numa cela por cinco anos, enquanto desfrutava de seus filés e sua liberdade.
O queixo dele caiu. Ele parecia ter levado um tapa na cara.
— Alice... isso não é justo.
— Justo? — Ri, um som oco e amargo. — Você quer falar sobre justiça, Jonas? Foi justo quando você me convenceu a levar a culpa pelo seu desvio de dinheiro? Foi justo quando você prometeu que seria uma sentença curta, uma mera formalidade, e depois me deixou definhar lá enquanto reconstruía seu império?
Os olhos dele se encheram de lágrimas, uma única lágrima traçando um caminho pela bochecha.
— Eu sofri também, Alice! Você não acha que eu estava sozinho? Não acha que me matou saber que você estava lá dentro? Eu trabalhei até o osso, tentando manter nossa empresa à tona, tentando proteger sua reputação!
— Sozinho? — zombei. — Você estava sozinho, Jonas? Enquanto eu contava cada minuto de cada dia? Enquanto eu lutava contra mulheres que achavam que uma "novata" era presa fácil? Enquanto eu aprendia a comer lavagem, apenas para sobreviver?
Ele parecia horrorizado.
— Alice, não. Eu nunca imaginei... A Camila me disse que você estava numa instalação boa, que estava sendo bem cuidada.
— Camila de novo — murmurei, balançando a cabeça. — Sempre a Camila, tecendo suas mentiras bonitas, garantindo que você ficasse confortável na sua ignorância.
Nesse momento, como se fosse uma deixa, uma batida suave ecoou na porta. Jonas pareceu aliviado, agarrando a oportunidade de escapar do meu olhar acusatório.
— Entre!
A porta se abriu e Camila Azevedo entrou na suíte. Ela era uma visão num vestido de grife verde-esmeralda justo que abraçava suas curvas, o cabelo perfeitamente penteado, a maquiagem impecável. Ela parecia ter acabado de sair de uma capa de revista, não de um dia no escritório.
— Jonas, querido, eu só tinha que ter certeza de que estava tudo bem — ela arrulhou, os olhos correndo para mim, um lampejo de algo que eu não conseguia identificar — triunfo? — nas profundezas. — Ouvi dizer que você estava cozinhando. Que doce da sua parte.
Ela passou por mim como se eu fosse invisível, deslizando direto para Jonas. Ela ajeitou a gravata dele, embora já estivesse perfeitamente reta, os dedos demorando na lapela. Ela pegou o copo de água com gás meio vazio dele, tomou um gole e ofereceu de volta para ele. Foi um gesto tão íntimo, tão possessivo, que gritava volumes sem uma única palavra.
Jonas, por sua vez, parecia nervoso.
— Camila! O que você está fazendo aqui? Achei que tinha dito sem interrupções esta noite. — A voz dele era fraca, um mero sussurro de autoridade. Ele não se afastou do toque dela.
Camila fez bico, uma expressão ensaiada e melosa.
— Ah, Jonas, não fique bravo. Eu estava tão preocupada com você. E queria dar as boas-vindas à Alice, é claro. — Ela se virou para mim, o sorriso deslumbrante, completamente falso. — Alice, querida! Faz muito tempo. Sinto muito, muito mesmo, por todas aquelas ligações perdidas. Minha agenda tem sido absolutamente insana desde que você partiu. Sobrecarga de trabalho, você sabe como é. Era impossível acompanhar tudo.
A desculpa dela era tão transparente quanto papel filme. Apenas a observei, minha expressão cuidadosamente neutra.
— Eu simplesmente assumi suas funções de marketing, e depois os assuntos pessoais do Jonas, e depois o IPO... foi demais para uma pessoa só! — Ela suspirou dramaticamente, depois deu um tapinha no braço de Jonas. — Mas nós superamos isso, não foi, querido? Todas aquelas noites, só você e eu, mantendo o barco flutuando.
Ela pegou um grissini da mesa e mordiscou delicadamente, os olhos fixos em mim.
— Ah, foi tão difícil para o Jonas, Alice. Absolutamente devastador. Tive que buscá-lo em bares tantas vezes, tarde da noite, porque ele estava com o coração tão partido. Ele ficava lá sentado, bebendo, olhando para o nada, dizendo "Minha pobre Alice, minha pobre Alice".
As palavras dela eram uma adaga sutil, torcendo na ferida. Ela não estava apenas se desculpando; ela estava traçando uma linha clara entre nós, destacando seu papel indispensável na vida de Jonas durante minha ausência. Ela estava dizendo: "Eu estava aqui. Eu era a esposa dele. Você se foi."
— Sério, Camila? — perguntei, minha voz perigosamente suave. — Você teve que buscá-lo em bares? Que... dedicada da sua parte.
Ela sorriu, confundindo meu sarcasmo com apreciação genuína.
— Ah, eu fui! Alguém tinha que cuidar dele. Ele estava perdendo a cabeça de tristeza. Eu praticamente morei no escritório, garantindo que ele comesse, garantindo que ele dormisse. Ele não conseguia funcionar sem mim. — O peito dela estufou sutilmente, um pavão exibindo suas penas.
— Então você estava brincando de casinha — afirmei, deixando as palavras pairarem no ar.
O sorriso falso de Camila vacilou. Jonas engasgou com a água. A temperatura na sala despencou, mais fria do que a tempestade lá fora. Observei-a, a máscara de inocência escorregando, revelando a mulher afiada e astuta por baixo. E eu sabia, com certeza absoluta, que ela estava apenas começando.
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