
Da Noiva Rejeitada à Rainha Implacável
Capítulo 2
Ponto de Vista de Ayla Braga:
Os dez dias pareceram uma vida inteira suspensa em álcool. Eu me encontrei em um bar mal iluminado, o tipo de lugar que Alexandre, com seus gostos refinados, teria odiado. O chão pegajoso e o cheiro de cerveja velha eram um conforto, um mundo distante da vida impecável que ele havia curado para nós.
"Mais um, Ayla?" Mari deslizou um copo novo de uísque pelo balcão em minha direção. "Talvez você devesse ir com calma."
Eu a ignorei, tomando um longo gole. A queimação na minha garganta era uma distração bem-vinda da dor oca no meu peito. "Ele me amava, M. Eu sei que amava."
"Claro que amava", disse ela suavemente, envolvendo um braço em meus ombros.
O alto-falante do bar estalou, tocando uma música que era popular no nosso último ano do ensino médio. A melodia foi uma chave girando uma fechadura na minha memória, e uma onda de dor tão intensa que me fez ofegar me atingiu.
Foi a noite do acidente de carro. Um motorista bêbado havia passado no sinal vermelho, batendo no meu pequeno conversível. Lembro-me do pneu cantando, do vidro se estilhaçando e, então, do rosto de Alexandre, pálido e aterrorizado, inclinado sobre mim. Ele estava me seguindo para casa, apenas para ter certeza de que eu estava segura. Ele segurou minha mão na ambulância, seu aperto uma tábua de salvação, recusando-se a soltar mesmo quando os paramédicos tentaram afastá-lo. Ele ficou ao lado da minha cama de hospital por três dias seguidos, nunca saindo, sussurrando que não poderia viver sem mim.
O amor não era um estado constante. Era uma série de momentos, de escolhas. Ele havia escolhido me amar então. E agora, ele havia escolhido parar. O pensamento era um caco de gelo no meu coração.
Mari finalmente conseguiu me colocar em um táxi e me levar para casa. Minha casa. A casa que Alexandre e eu compramos juntos. No momento em que passei pela porta, o cheiro do perfume dele me atingiu, e senti a dormência alimentada pelo álcool começar a passar, substituída por uma nova onda de luto.
Ele estava me esperando na sala de estar, de braços cruzados, uma expressão furiosa no rosto.
"Onde você esteve?", ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
"Por aí", eu arrastei as palavras, tirando meus saltos.
"Por aí onde? Vestida assim?" Ele gesticulou para o meu vestido, que de repente pareceu muito curto, muito apertado. "Você andou bebendo."
Ele caminhou em minha direção, agarrando meu braço e me puxando contra ele. Seu toque, que costumava parecer um lar, agora parecia uma jaula. "Você sabe que eu não gosto quando você vai a esses lugares, Ayla. Você é minha noiva. Você me representa."
"Me solta, Alex", eu disse, tentando empurrá-lo.
Mari, que estava pairando na porta, deu um passo à frente. "Alexandre, ela teve uma noite difícil. Deixa ela dormir um pouco."
"Isso é entre mim e a Ayla", ele retrucou sem olhar para ela. Ele voltou seu olhar frio para mim. "Diga para sua amiga ir embora."
Encontrei os olhos preocupados de Mari e dei um leve aceno de cabeça. "Está tudo bem, M. Eu dou conta." Eu precisava enfrentá-lo sozinha.
Assim que a porta se fechou atrás dela, o aperto de Alexandre se intensificou. "Você está tentando me irritar, Ayla? É isso? Porque está funcionando."
"Você quer saber o que está me irritando, Alex?", eu respondi, minha voz pingando sarcasmo. "O fato de você achar que tem algum direito de ficar com raiva. Depois de me deixar plantada no altar pela nonagésima nona vez por causa dela."
Antes que ele pudesse responder, um barulho de algo quebrando ecoou do andar de cima. Nosso quarto.
Alexandre me soltou imediatamente, sua preocupação comigo desaparecendo em um instante. Ele me empurrou com tanta força que cambaleei contra a parede e subiu as escadas de dois em dois degraus.
Eu o segui, meu coração um peso de chumbo no peito. Eu já sabia quem encontraria.
Kiara estava sentada no chão do nosso quarto, cercada por cacos de vidro. Um pequeno filete de sangue escorria por seu dedo. Ela olhou para Alexandre com olhos grandes e cheios de lágrimas. Uma donzela em perigo perfeita.
"O que você está fazendo na minha casa?", exigi, minha voz tremendo de raiva. "No meu quarto?"
"Ayla, calma", disse Alexandre, correndo para o lado de Kiara. "Ela acabou de receber alta da clínica. Ela não tem para onde ir. Eu não podia simplesmente deixá-la na rua."
Ele estava agachado ao lado dela agora, limpando o dedo dela com seu lenço com uma ternura enfurecedora.
Então meus olhos pousaram na fonte do vidro quebrado. Era a caixa de música de cristal da minha mãe, a última coisa que ela me deu antes de morrer. Estava em mil pedaços no chão de madeira.
O ar me faltou.
"Sinto muito, Ayla", Kiara choramingou, embora seus olhos tivessem um brilho triunfante. "Foi um acidente. Eu só estava olhando. Posso pagar por isso."
Pagar por isso? Como ela poderia pagar pela memória das mãos da minha mãe colocando-a nas minhas, sua voz frágil enquanto me dizia para sempre ouvir minha própria música?
Algo dentro de mim se partiu. Eu avancei e dei um tapa nela, o som ecoando na sala silenciosa.
"Saia da minha casa!", gritei.
Antes mesmo que as palavras saíssem da minha boca, Alexandre estava de pé. Ele me agarrou, me puxando para longe de Kiara com uma força que machucava.
"Você enlouqueceu?", ele gritou, seu rosto a centímetros do meu. "Ela é frágil, Ayla! Olha o que você fez! É sempre sobre você, não é? A princesinha mimada que não suporta quando outra pessoa recebe um pingo de atenção."
Ele me arrastou para fora do quarto e para o banheiro principal, seus dedos cravados no meu braço. Ele me empurrou para debaixo do chuveiro e girou o registro.
Água gelada caiu sobre mim, encharcando meu cabelo, meu vestido, minha pele. Eu ofeguei, o choque roubando meu fôlego.
"Talvez isso te esfrie", ele rosnou, seus olhos ardendo com uma fúria que eu nunca tinha visto direcionada a mim antes. "Você precisa se controlar, Ayla. Esse seu teatrinho de ciúmes infantil está ficando velho."
Ele bateu a porta do banheiro, me deixando tremendo e encharcada no escuro. O som da fechadura se encaixando foi o som da minha última esperança morrendo.
Através da porta, eu podia ouvi-lo murmurando suavemente para Kiara, sua voz cheia da preocupação que ele não tinha mais por mim.
Afundei no chão de azulejo frio, a água colando meu cabelo no rosto. Ele uma vez prometeu construir um mundo para mim. Agora, ele nem sequer me daria um mundo onde eu estivesse segura em minha própria casa. O frio não estava apenas na água; estava se infiltrando em meus ossos, no âmago da minha alma, congelando tudo o que restava da garota que amou Alexandre Monteiro.
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