
Da Noiva Rejeitada à Rainha Implacável
Capítulo 3
Ponto de Vista de Ayla Braga:
Não sei quanto tempo fiquei sentada ali no azulejo frio, tremendo, antes que a água finalmente parasse. Tirei o vestido encharcado e me enrolei em uma toalha, meus movimentos rígidos e robóticos. Fui para o quarto de hóspedes, evitando o meu, incapaz de encarar a cena da minha humilhação final.
Ao passar pelo quarto principal, a porta estava entreaberta. Não pude deixar de olhar. Alexandre estava sentado na beirada da nossa cama, a cama que compartilhamos por anos, e ele estava gentilmente enrolando um curativo no dedo de Kiara. A luz do abajur suavizava as linhas de seu rosto, lançando sobre ele um brilho suave. O olhar em seus olhos... era o mesmo olhar que ele me deu depois de socar aquele garoto por puxar meu cabelo. Protetor. Devotado.
E era tudo para ela. Minha substituta.
Naquela noite, sonhei conosco. Não com as boas lembranças, mas com os pequenos e insidiosos momentos que eu havia ignorado. A maneira como seus olhos se perdiam quando eu falava sobre meu trabalho. A impaciência em sua voz quando eu ligava para ele no escritório. As inúmeras noites de encontro "remarcadas". As rachaduras estiveram lá o tempo todo; eu apenas estava apaixonada demais para ver.
Acordei com uma dor de cabeça latejante e a boca seca como lixa. Tropeçando escada abaixo para pegar um copo d'água, encontrei Kiara sentada à minha mesa de jantar, tomando chá na minha caneca favorita. Ela usava uma das camisas sociais de Alexandre, que ficava enorme em seu corpo pequeno, fazendo-a parecer ainda mais frágil e inocente.
Ela sorriu para mim, um sorriso preguiçoso e triunfante. "Bom dia, Ayla. Dormiu bem?"
Eu a ignorei, indo para a cozinha.
"Sabe", ela continuou, sua voz leve e conversadora, "o Alex se preocupa tanto com você. Ele diz que você é como um vaso lindo e frágil que ele tem que proteger do mundo." Seu sorriso se alargou. "Mas até o vaso mais bonito é apenas um objeto. Vazio. São pessoas como eu, pessoas com dor de verdade, que podem realmente fazê-lo sentir algo. Não sou eu que estou destruindo seu relacionamento, Ayla. Sou eu que o estou salvando dele."
"Você precisa de ajuda profissional", eu disse, minha voz monótona.
"Talvez", ela concedeu. "Mas eu tenho algo que você não tem. O coração dele." Ela se inclinou para frente, seus olhos brilhando com malícia. "Ele me contou tudo, sabe. Sobre o casamento. Sobre como ele não suportaria me ver machucada, então ele te casou com o motorista dele só para se livrar de mim. Um ninguém para uma ninguém. É quase poético."
A confirmação, ouvi-la de seus lábios, foi como engolir vidro. "Um homem que faria isso", eu disse, minha voz perigosamente baixa, "não é um prêmio a ser ganho, Kiara. É um risco."
Ela riu. "Você só está dizendo isso porque perdeu. Quer ver o quanto você perdeu? Vamos jogar um joguinho."
Antes que eu pudesse reagir, ela pegou a chaleira de água fervente do balcão. Seus movimentos foram rápidos, deliberados. Ela jogou o conteúdo escaldante diretamente nas minhas pernas.
A dor foi instantânea e excruciante. Eu gritei, cambaleando para trás enquanto minha pele irrompia em vergões vermelhos e raivosos. Bolhas já estavam se formando na minha canela.
Naquele exato momento, Alexandre entrou, com a pasta na mão. "O que está acontecendo?"
Seus olhos se arregalaram de alarme ao me ver no chão, agarrando minha perna. Por uma fração de segundo, vi um vislumbre do velho Alex, aquele que teria corrido para o meu lado.
Mas então Kiara começou a chorar. "Alex! Sinto muito!", ela lamentou, correndo para ele. "Eu só estava tentando fazer um chá para a Ayla para me desculpar por ontem à noite, e ela... ela derrubou da minha mão! Ela disse que eu não era digna de estar na cozinha dela!"
Eu a encarei, estupefata com a audácia de sua mentira.
Observei o rosto de Alexandre. O choque inicial e a preocupação por mim lentamente esfriaram, substituídos por um olhar familiar de desapontamento cansado. Ele já estava escolhendo acreditar nela.
"Ayla", ele disse, sua voz cheia de desaprovação. "Isso era realmente necessário? Você sabe como ela pode ser desastrada."
"Ela jogou em mim, Alex!", eu chorei, a injustiça de tudo tornando a dor ainda pior. "Olha a minha perna! Verifique as câmeras de segurança se não acredita em mim!"
Ele zombou. "Não seja ridícula. Você quer que eu puxe as imagens de segurança na minha própria casa para provar que minha noiva é uma valentona? Você tem ideia de como isso te faz parecer? Você está começando a agir como seu pai, usando esses dramas mesquinhos para chamar a atenção."
A menção do meu pai foi um golpe baixo, e ele sabia disso. Meu pai, um homem que traiu minha mãe moribunda e depois teve a audácia de levar sua amante ao funeral dela. A ferida ainda estava aberta, uma fonte de profunda vergonha e dor.
Minha mão se moveu antes que eu pudesse pensar. Eu dei um tapa nele, forte, no rosto. O som foi agudo, final.
Ele ficou ali, atordoado, uma mão se erguendo para a bochecha. Ele nem parecia com raiva, apenas... resignado.
Kiara escolheu aquele momento para soltar outro grito de dor. "Alex, minha mão... a que eu cortei ontem à noite... dói tanto."
Sua atenção voltou para ela instantaneamente. Ele a pegou nos braços, seu rosto uma máscara de preocupação mais uma vez. "Vou te levar para o hospital, para dar uma olhada."
Enquanto ele a carregava passando por mim, ele parou. "O motorista estará aqui em cinco minutos para te levar para ver essa queimadura", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. Ele nem sequer olhou para mim.
Então eles se foram.
Sentei no chão da minha cozinha, cercada por água derramada e os destroços da minha vida, uma risada amarga borbulhando na minha garganta. Ele estava mandando seu motorista — meu marido fraudulento — me levar ao hospital. A ironia era sufocante.
"Estou terminando com você, Alexandre Monteiro", sussurrei para a sala vazia.
Ele não me ouviu. Ele já tinha ido, correndo para o lado da mulher que ele realmente amava.
Eu me levantei, ignorando a dor lancinante na minha perna, e manquei até o hospital sozinha. Eu não ia mais esperar por ele. Nem por uma carona, nem por um pedido de desculpas, nem por um amor que já havia morrido.
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