
Corações Partidos em São Paulo
Capítulo 2
Júlia segurava os papéis do divórcio, o documento frio e oficial em suas mãos contrastava com o luxo de seu escritório. A vista panorâmica de São Paulo se estendia além da janela, mas ela não via nada. Sua mente estava focada em uma única coisa: livrar-se de Gabriel.
A desculpa da falência era perfeita, uma obra de arte da manipulação. Ela sabia que Gabriel, com seu coração mole e amor incondicional, nunca a abandonaria na dificuldade. Pelo contrário, ele se destruiria por ela. E era exatamente essa certeza que a enojava. Ela não queria sacrifício, queria poder, queria a paixão que acreditava que Daniel, seu primo, poderia lhe oferecer.
Ela discou o número dele. A voz de Gabriel atendeu no segundo toque, calorosa e cheia de preocupação como sempre.
"Júlia? Aconteceu alguma coisa? Você está bem?"
"Gabriel, precisamos conversar," ela disse, a voz controlada, sem emoção. "Estou te enviando um documento por e-mail. Abra e leia. Depois conversamos."
Ela desligou antes que ele pudesse responder. Minutos depois, o telefone tocou de novo. Ela ignorou. Tocou mais uma vez. E mais outra. Finalmente, ela atendeu, impaciente.
"Você leu?"
"Júlia, que brincadeira é essa?" a voz dele estava trêmula, confusa. "Divórcio? Por causa do dinheiro? Eu não me importo com isso, vamos passar por isso juntos. Eu te amo."
"Eu não te amo mais, Gabriel," ela mentiu, as palavras saindo com uma facilidade assustadora. "Essa crise só me mostrou que não podemos continuar. Eu não quero te arrastar para o fundo comigo. É melhor assim. Assine os papéis."
Houve um silêncio esmagador do outro lado da linha. Júlia podia quase visualizar seu rosto, a dor e a incredulidade estampadas ali. Ela sentiu uma pontada de algo que poderia ser culpa, mas a afastou rapidamente. Era necessário.
Enquanto isso, em um pequeno apartamento do outro lado da cidade, Gabriel olhava para a tela do computador, sentindo o chão desaparecer sob seus pés. As palavras "divórcio" e "falência" dançavam diante de seus olhos, mas não faziam sentido. Ele amava Júlia mais do que a si mesmo. Ele se lembrava do dia em que se casaram, da promessa dela de que ficariam juntos na alegria e na tristeza.
Ele se recusou a aceitar. Ele não assinaria. Ele provaria a ela que seu amor era mais forte que qualquer dívida. Naquela mesma noite, Gabriel começou sua jornada secreta. Ele pegou um segundo emprego como segurança noturno em um armazém. O trabalho era pesado, as horas eram longas, mas cada centavo que ganhava era para ela. Ele vendeu seu carro, seu relógio, tudo que tinha algum valor. Ele comia o mínimo necessário, economizando cada real para depositar na conta conjunta, esperando que ela visse e entendesse.
As semanas se transformaram em meses. Gabriel estava exausto, seu corpo doía, mas seu coração estava cheio de um propósito. Ele estava salvando sua esposa, seu casamento. Ele chegou a um ponto de desespero que o levou a uma clínica de doação de sangue. Ele vendeu seu sangue, sentindo a agulha em sua veia, pensando que cada gota era um tijolo para reconstruir a vida deles. Ele escondia as marcas roxas sob mangas compridas, o cansaço sob sorrisos forçados durante suas raras e curtas conversas com Júlia.
Um dia, exausto após um turno duplo, ele decidiu fazer uma surpresa para Júlia. Ele comprou sua flor favorita, uma única rosa branca, e foi até o escritório dela. Ele queria apenas vê-la, dizer que as coisas melhorariam. A porta do escritório estava entreaberta. Ele ouviu a voz de Júlia, mas ela não estava falando ao telefone. Ela falava com sua secretária, e falava em português, um idioma que ela usava para assuntos delicados, acreditando que ele não entendia uma palavra. Mas Gabriel entendia. Sua mãe era brasileira, e ele cresceu ouvindo a língua. Ele nunca contou a Júlia, era um pequeno segredo divertido que ele guardava.
"O plano está funcionando perfeitamente," Júlia disse, com uma risada fria. "Gabriel realmente acreditou na história da falência. O idiota está se matando de trabalhar, depositando dinheiro na nossa conta. Ele até vendeu o carro. Mal sabe ele que estou usando esse dinheiro para planejar meu casamento com o Daniel."
O coração de Gabriel parou. A rosa branca escorregou de seus dedos e caiu no chão.
A secretária riu. "E a história do câncer terminal do Daniel? Foi genial. Você conseguiu convencê-lo a forjar os exames?"
"Claro," respondeu Júlia. "Daniel faria qualquer coisa por mim. E eu farei qualquer coisa para me livrar do fardo que é o Gabriel. Ele é tão... previsível. Tão chato. O amor dele me sufoca."
Gabriel recuou, a mão na parede para não cair. Cada palavra era uma facada em seu peito. A falência, a dívida, o câncer, tudo uma mentira. Seu sacrifício, sua dor, sua esperança, tudo era uma piada para ela. Ele não era um herói salvando sua esposa, era um tolo sendo enganado.
Ele se afastou em silêncio, o som da risada delas ecoando em sua mente. Ele caminhou pelas ruas sem rumo, a dor tão intensa que era física. Ele se sentia vazio, oco. O amor que o sustentava tinha se revelado um veneno.
Naquela noite, Gabriel pegou os papéis do divórcio que estavam sobre a mesa há meses. Sua mão não tremeu. Ele assinou seu nome com uma caligrafia firme. Ele pegou uma caneta vermelha e circulou sua assinatura.
Ele ligou para ela. A voz de Júlia estava irritada.
"O que foi agora, Gabriel?"
"Eu assinei," ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. "Está feito. Vou deixar os papéis na sua portaria amanhã. Adeus, Júlia."
Ele desligou o telefone e o atirou contra a parede, o aparelho se espatifando em mil pedaços. Ele olhou para seu reflexo no espelho escuro, viu um estranho com os olhos mortos. O Gabriel que amava Júlia tinha morrido naquela tarde, do lado de fora de seu escritório. Ele não sentia mais nada além de um frio profundo. Ele pegou uma pequena mala, colocou algumas roupas e seus documentos. Ele não deixou bilhete. Não havia mais nada a ser dito. Ele saiu do apartamento e desapareceu na noite, sem deixar rastros.
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