
Corações Partidos em São Paulo
Capítulo 3
Júlia sentiu um alívio imenso quando recebeu os papéis assinados. A rapidez com que Gabriel cedeu a surpreendeu, mas ela não se demorou no pensamento. Atribuiu à sua própria força de persuasão e ao peso da "falência". Ela estava livre.
O casamento com Daniel foi rápido e luxuoso, exatamente como ela sempre sonhou. A festa foi em uma mansão à beira-mar, com convidados da alta sociedade e champanhe jorrando. Daniel era a personificação do sucesso e da paixão que ela acreditava merecer. Ele a cobria de presentes caros, a levava para viagens exóticas e a exibia como um troféu.
No início, era inebriante. Júlia se sentia no topo do mundo, a mulher que tinha tudo. Ela havia trocado um amor simples e sufocante por uma vida de glamour e excitação. Ela se convenceu de que tinha feito a escolha certa. Gabriel era uma página virada, um erro de cálculo em sua trajetória de sucesso.
Mas, aos poucos, fissuras começaram a aparecer na fachada perfeita. A "doença" de Daniel, que deveria ser um segredo trágico entre eles, tornou-se uma ferramenta de controle. Sempre que Júlia questionava algo ou pedia um pouco de espaço, ele suspirava, colocava a mão no peito e dizia: "Meu amor, não me cause estresse. Você sabe que não tenho muito tempo."
A culpa a corroía. Como ela podia ser tão egoísta a ponto de perturbar um homem à beira da morte? Então ela cedia, engolia suas frustrações e sorria para as câmeras.
As memórias de Gabriel começaram a assombrá-la em momentos inesperados. Quando ela estava com frio, lembrava-se de como ele sempre lhe dava seu casaco, sem nem mesmo precisar pedir. Quando ela tinha um pesadelo, lembrava-se de como ele a abraçava até que ela voltasse a dormir. Eram pequenos gestos, coisas que ela costumava desprezar como "chatas" e "previsíveis", mas que agora pareciam ter um peso imenso.
Ela começou a sentir falta da calma que a presença de Gabriel trazia. Com Daniel, a vida era uma montanha-russa constante de emoções intensas e demonstrações públicas de afeto que pareciam mais uma performance do que um sentimento real. Ele era possessivo, controlava suas ligações, suas amizades, sua agenda. Ele dizia que era porque queria aproveitar cada segundo ao lado dela, mas Júlia começava a se sentir como um pássaro em uma gaiola de ouro.
Uma noite, Daniel chegou em casa bêbado e furioso. Uma negociação havia dado errado, e ele culpou Júlia por tê-lo distraído com "problemas domésticos" mais cedo naquele dia. Ele gritou, quebrou um vaso caro e a segurou pelo braço com força.
"Você tem que entender, Júlia! Tudo que eu faço é para nós! Você não pode falhar comigo!"
O medo gelado que percorreu sua espinha era uma sensação nova e aterrorizante. Gabriel nunca, em todos os anos que passaram juntos, havia levantado a voz para ela, muito menos a tocado com raiva.
A provocação final veio de uma fonte inesperada. Daniel, em um de seus momentos de exibicionismo, postou uma foto antiga deles nas redes sociais. Eram adolescentes, primos em uma festa de família. A legenda dizia: "Desde sempre e para sempre. Algumas almas estão destinadas a ficar juntas."
A foto em si era inocente, mas a legenda era uma facada. Ele estava reescrevendo a história, apagando a existência de Gabriel, transformando o casamento deles em um mero desvio no caminho para o "verdadeiro amor" dele. Amigos e familiares comentavam com corações e elogios, celebrando a "história de amor épica".
Júlia olhou para a foto na tela de seu celular, o sorriso forçado em seu rosto refletido no vidro escuro. A imagem de Daniel adolescente, com um olhar possessivo que ela só agora reconhecia, a fez sentir um calafrio. Ao lado dele, ela parecia ingênua, uma presa fácil. O castelo de cartas que ela havia construído com tanto cuidado começou a desmoronar. A verdade cruel a atingiu: ela não tinha trocado um amor simples por um amor apaixonado, ela tinha trocado um amor verdadeiro pela obsessão doentia de um manipulador.
Ela se levantou e foi até o bar, servindo-se de uma dose de uísque. O líquido queimou sua garganta, mas não conseguiu apagar o gosto amargo do arrependimento. Ela se sentia uma tola. Pior, ela se sentia uma criminosa. Ela não apenas havia descartado Gabriel, ela o havia destruído com uma mentira cruel, tudo por uma fantasia que agora se revelava um pesadelo.
Ela fechou os olhos e a imagem de Gabriel veio à sua mente. Não o Gabriel forte e protetor, mas o Gabriel da última ligação, com a voz vazia e morta. O que ela havia feito? Aonde ele teria ido? Pela primeira vez, a ausência dele não era um alívio, mas um buraco negro em seu peito. E ela sabia, com uma certeza aterrorizante, que era um buraco que Daniel jamais conseguiria preencher.
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