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Capa do romance Corações em Ruinas

Corações em Ruinas

Clara Oliveira, uma recepcionista paulistana, vê sua vida ruir sob dívidas deixadas por seu ex-parceiro. Resgatada por Antony, um magnata misterioso, ela troca a miséria por uma cobertura luxuosa. Contudo, o socorro esconde segredos: Antony a monitorava há anos. Clara descobre ser a herdeira da linhagem Rossi, uma poderosa família criminosa. Seu pai foi morto por seu tio, Lorenzo, que agora comanda o cartel e planeja matá-la para manter o controle total.
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Capítulo 3

O despertar de Clara naquela manhã foi algo que ela não experimentava há anos: suave. Não houve o sobressalto do despertador estridente às cinco da manhã, nem o cheiro de mofo vindo das infiltrações de seu antigo apartamento, muito menos o som de vizinhos brigando no corredor estreito. Em vez disso, ela acordou entre lençóis de seda com uma contagem de fios que parecia acariciar sua pele. O silêncio da cobertura de Antony era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido discreto do sistema de climatização que mantinha o ambiente em uma temperatura eterna de primavera.

Por alguns minutos, ela permaneceu imóvel, observando o jogo de luzes que o sol de São Paulo fazia ao tentar atravessar as cortinas de linho pesado. Ela se sentia como se estivesse vivendo dentro de um sonho emprestado. A camisa de Antony, que ela ainda usava, era um lembrete físico de que a noite anterior não fora um delírio causado pela exaustão. Ela estava segura. O perigo dos becos, a pressão das dívidas e a sombra de Marcos pareciam pertencer a uma vida que ela já havia deixado para trás. Ou era o que ela queria acreditar.

A ilusão de segurança, porém, é uma estrutura frágil, construída sobre alicerces de vidro. E o vidro vibrou com um som familiar e insistente: o toque de seu celular.

O aparelho estava sobre a mesa de cabeceira de carvalho escuro. Clara esticou o braço, sentindo o contraste do metal frio do telefone contra o calor de sua pele. Na tela trincada, um nome que fazia seu estômago se revirar em náuseas: Marcos.

Havia uma mensagem de texto e um arquivo de áudio. O polegar de Clara pairou sobre a tela, hesitando. Uma parte dela, aquela que ainda preservava o instinto de preservação que a mantivera viva até ali, gritava para que ela bloqueasse o número e jogasse o aparelho pela janela da cobertura. Mas a curiosidade, ou talvez a necessidade mórbida de encerrar um capítulo, foi mais forte.

Com as mãos começando a tremer - um tremor que nascia no centro de seu peito e se espalhava pelos dedos - ela deu o play.

A gravação não era uma mensagem direta para ela. Era o que parecia ser um áudio captado de forma clandestina ou enviado por engano, uma conversa de fundo onde a voz de Marcos soava nítida, despojada de qualquer máscara de afeto que ele um dia usara. Era a voz do homem que ela amara, o homem por quem ela trabalhara em dois empregos, para quem ela entregara suas economias e seus sonhos.

- "... Olha, eu não tenho o dinheiro agora, eu já disse!" - a voz de Marcos soava estridente, carregada de uma covardia desesperada. - "Mas eu tenho algo melhor. Eu tenho o endereço da Clara. O apartamento novo dela, os horários de saída, tudo."

Houve um ruído de estática, e então a voz de um homem mais velho, rouca e impiedosa, respondeu:

- "A dívida é sua, Marcos. O que eu vou fazer com uma garota?"

A risada que Marcos soltou em seguida foi o som mais vil que Clara já ouvira em sua vida.

- "Vocês sabem o que fazer. Ela é bonita, esforçada... pode render muito mais do que os juros que eu te devo. Podem ficar com ela, fazer o que quiserem, levar para onde precisarem. Só zerem a minha conta. Me deixem fora disso e ela é de vocês."

O celular caiu sobre o tapete felpudo com um baque surdo, mas as palavras de Marcos continuaram a ecoar nas paredes luxuosas do quarto, transformando o refúgio de Antony em uma câmara de tortura.

A traição não foi apenas uma ferida; foi uma amputação emocional realizada com uma lâmina quente e cega. Clara sentiu o ar faltar, como se o oxigênio da cobertura tivesse sido subitamente sugado. A crueldade daquelas palavras - a facilidade com que ele a vendera, a forma como ele a transformara em uma mercadoria para limpar sua própria sujeira - rasgou o que restava da autoestima de Clara.

Ela não era mais a mulher forte que enfrentava o telemarketing e a recepção com um sorriso forçado. Ela era apenas uma vítima descartável. As lágrimas, que ela tentara conter durante toda a manhã, transbordaram em um dilúvio amargo. Um soluço gutural, vindo das profundezas de sua alma ferida, escapou de seus lábios. Suas pernas cederam. Clara desabou no chão, encolhendo-se sobre o tapete, abraçando os próprios joelhos enquanto o mundo girava em um turbilhão de dor e náusea. Ela estava se afogando na própria história, nas escolhas erradas que a levaram até ali, na solidão que parecia ser seu único destino verdadeiro.

O estrondo da porta sendo aberta ecoou pelo quarto. Antony entrou como uma tempestade controlada. Ele já estava vestido para o dia, usando uma calça de alfaiataria cinza e uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços, revelando as veias saltadas e a tensão em seus músculos.

Ao ver Clara quebrada em pedaços no chão, a expressão de Antony sofreu uma transformação assustadora. A máscara de indiferença executiva caiu, revelando algo muito mais primordial. Seus olhos negros escureceram, as pupilas dilatando-se até que não houvesse mais distinção entre a íris e o abismo. Era uma promessa silenciosa de morte para quem quer que tivesse causado aquele estado na mulher à sua frente.

Ele cruzou o quarto em dois passos largos e se ajoelhou no tapete ao lado dela. Antony não hesitou; ele a puxou para seu peito largo com uma firmeza que não aceitava recusas.

- Clara... - o nome dela saiu como uma prece sombria.

Ela não resistiu. Clara se agarrou à camisa dele, enterrando o rosto no tecido caro, soluçando tão violentamente que seu corpo inteiro tremia. Ela chorava por Marcos, sim, mas também chorava por cada noite de fome, por cada humilhação que sofrera para pagar dívidas que não eram suas, e pela percepção aterrorizante de que sua vida valia tão pouco para o homem que ela um dia chamara de "amor". Era o choro de uma vida inteira de solidão acumulada, finalmente encontrando uma saída.

Antony a envolveu em seus braços, transformando-se em uma muralha de carne e osso contra o mundo exterior. Uma de suas mãos grandes e quentes repousava na base das costas dela, enquanto a outra se enterrava em seus cabelos, prendendo-a contra si.

- Shhh... eu peguei você. Eu estou aqui - ele murmurava, a voz agora rouca de uma emoção contida, mas poderosa. Ele inclinou a cabeça, beijando o topo da cabeça dela com um fervor que beirava a adoração possessiva. - Ele não vai mais tocar em você. Ele não vai nem mesmo respirar o mesmo ar que você por muito tempo.

Clara levantou o rosto manchado de lágrimas, os olhos vermelhos buscando os dele.

- Ele me vendeu, Antony... Ele entregou meu endereço para aqueles homens... ele queria que eles...

- Eu ouvi, mia luce - Antony a interrompeu, e o uso daquele apelido em italiano soou como um juramento sagrado. Seus dedos acariciaram o rosto dela, limpando o rastro das lágrimas com o polegar. - Mas o que ele não sabe, o que nenhum deles sabe, é que você agora está sob a minha sombra. E ninguém sai vivo depois de tentar roubar o que é meu.

A intensidade no olhar de Antony era quase tangível. Clara via ali algo que a assustava e a confortava simultaneamente: uma proteção absoluta que não conhecia limites morais ou legais. Ele não era um cavaleiro de armadura brilhante; ele era um rei guerreiro reivindicando seu território.

- Ele vai pagar por cada gota de lágrima que você derramou - Antony continuou, a voz fria como o aço de uma navalha. - Eu juro pela minha vida, Clara. O mundo dele vai queimar até que não sobre nada além de cinzas. Ninguém mais vai machucar você. Eu sou o seu escudo agora, e o meu preço é a lealdade total. Você entende?

Clara assentiu devagar, sentindo o calor do corpo dele estabilizar o seu. O pânico estava sendo substituído por uma exaustão profunda, mas também por uma estranha clareza. O amor de Marcos fora uma mentira; a proteção de Antony era uma verdade perigosa. Mas, naquele momento, em meio aos destroços de sua vida, ela não se importava com o perigo. Ela se apertou mais contra ele, buscando o cheiro de sândalo e a segurança de seus braços, enquanto lá fora, a cidade de São Paulo continuava seu caos indiferente, sem saber que um monstro fora despertado para proteger uma única mulher.

Antony permaneceu ali, ajoelhado no chão com ela, por quanto tempo fosse necessário. Ele a embalava como se ela fosse o tesouro mais precioso e frágil de seu império, seus olhos fixos na porta, esperando pelo momento em que poderia transformar sua promessa de vingança em realidade. A faca nas costas de Clara fora profunda, mas Antony estava pronto para retirá-la e usar a mesma lâmina contra aqueles que ousaram feri-la.

A manhã avançava, e no silêncio daquela cobertura de luxo, um pacto silencioso estava sendo selado. Clara não era mais a menina que fugia de agiotas no centro. Ela era a protegida de Antony. E o preço para quem cruzasse o caminho dele agora era a própria existência.

- Descanse agora - ele sussurrou contra seu ouvido, o hálito quente trazendo um conforto hipnótico. - Quando você acordar, o mundo será um lugar diferente para você. Eu prometo.

Clara fechou os olhos, entregando-se ao sono da exaustão, sabendo que, embora sua vida estivesse em ruínas, ela finalmente encontrara alguém disposto a reconstruí-la - ou a destruir qualquer um que tentasse impedi-lo.

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