
Coração Quebrado, Alma Vingativa
Capítulo 2
A tela do meu notebook iluminava meu rosto no escritório escuro, as pilhas de processos judiciais ao meu redor pareciam montanhas que eu nunca conseguiria escalar. Meu nome é Ana Clara, sou advogada de direitos humanos. De dia, eu luto por estranhos. De noite, luto pela minha própria família, ou pelo que restou dela.
O nome no topo do arquivo que eu lia pela centésima vez era o do meu pai. Um arquiteto brilhante. Um homem bom. Um homem morto. A palavra oficial era suicídio. Para mim, era assassinato.
A tragédia começou há quinze anos. Meu pai ganhou a licitação para um grande projeto público, a construção de uma nova biblioteca central. Ele estava radiante, era o projeto da vida dele. Mas a alegria durou pouco. Acusações de fraude e desvio de verbas surgiram na mídia. As evidências eram forjadas, plantadas com uma precisão cirúrgica. O arquiteto por trás de tudo era um magnata imobiliário, o Sr. Mendes, um homem cujo império foi construído sobre as ruínas dos sonhos de outros. Meu pai era apenas mais um degrau em sua subida.
Ele foi preso. Lembro-me da última vez que o vi, através de um vidro grosso na sala de visitas da prisão. Seus olhos, antes cheios de vida e projetos, estavam vazios. Ele me disse para cuidar da minha mãe e do meu irmão. Uma semana depois, ele se enforcou na cela.
A queda foi rápida e brutal. Minha mãe, Maria, uma chef de mão cheia, perdeu nosso restaurante. As dívidas e o escândalo consumiram tudo. Sem renda, sem reputação, ela foi considerada incapaz de cuidar de nós. Um juiz, com um martelo e uma assinatura, desfez nossa família. Eu tinha doze anos, e meu irmão mais novo, Lucas, tinha apenas sete. Fomos levados por assistentes sociais.
"Vocês vão para lares diferentes, é temporário."
A mulher disse isso com uma calma assustadora. Eu agarrei a mão de Lucas com força. Ele chorava em silêncio, o rosto enterrado no meu casaco. Foi a última vez que senti o calor da sua mão pequena na minha por muitos anos. Nos separaram ali mesmo, no corredor frio de um prédio do governo. Eu fui para um lar, ele para outro. O "temporário" durou uma década.
Agora, eu estava aqui. Uma advogada. A ironia não me escapava. Eu escolhi a lei, o mesmo sistema que destruiu minha família, como minha arma. Eu acreditava, ou queria acreditar, que poderia consertar a injustiça por dentro. Meu objetivo era um só: limpar o nome do meu pai e fazer Mendes pagar.
Meu celular vibrou sobre a mesa, afastando-me das memórias dolorosas. Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Consegui uma coisa. Servidores da Mendes Corp. O firewall deles é uma piada."
Não havia assinatura, mas eu sabia exatamente quem era. Lucas.
Meu irmão. Nós nos reencontramos há dois anos. Ele não era mais o menino assustado que eu lembrava. Os anos em um lar adotivo abusivo o transformaram. Ele era alto, magro, com olhos que pareciam ter visto coisas demais. E ele era um gênio. Um hacker autodidata, capaz de entrar e sair de sistemas digitais como um fantasma.
Mas havia uma escuridão nele, uma raiva que ardia em fogo baixo. Ele não compartilhava da minha fé na justiça legal. Para ele, o sistema era o inimigo. A justiça, para Lucas, era algo que se tomava com as próprias mãos, fora da lei.
Eu disquei o número. Ele atendeu no primeiro toque.
"Ana?"
Sua voz era grave, sempre um pouco desconfiada.
"Lucas, o que você fez?"
"O que você não tem coragem de fazer. Entrei. Peguei registros financeiros, e-mails, contratos internos. O esquema todo está aqui, Ana. A forma como Mendes subornou os fiscais, como ele criou as faturas falsas em nome do pai."
Meu coração acelerou. Era a prova. A prova que eu procurei por anos.
"Me mande tudo. Agora."
"Não. Isso não vai para um tribunal. Eles vão enterrar isso em burocracia. Vão dizer que a prova foi obtida ilegalmente. Mendes vai sair livre, como sempre."
"Então o que você sugere? Que a gente publique na internet? Lucas, isso é crime! Você seria preso."
"E daí? O pai morreu na prisão sendo inocente. Eu ir para a cadeia por ser culpado de expor o assassino dele me parece uma troca justa."
"Não! Eu não vou perder você também!"
O silêncio do outro lado da linha era pesado. Eu podia senti-lo lutando contra seus próprios demônios.
"Ana, eu te amo. Mas você precisa entender. Existem monstros que a lei não alcança. Para esses, você precisa se tornar um monstro maior."
Ele desligou.
Fiquei olhando para o telefone, o silêncio do meu escritório de repente ensurdecedor. O abismo entre mim e meu irmão era claro. Ambos queríamos justiça, mas nossos caminhos se dividiam em luz e sombra. E eu tinha um medo terrível de que, no final, a escuridão de Lucas nos engolisse a todos.
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