
Coração Quebrado, Alma Vingativa
Capítulo 3
Dois dias depois, um envelope pardo apareceu debaixo da porta do meu apartamento. Sem remetente, sem selo. Dentro, um pen drive. O aviso de Lucas era claro: "Use com sabedoria. Ou não use. A escolha é sua."
Passei a noite inteira analisando os arquivos. Era exatamente como ele disse. Tudo estava lá. E-mails codificados, planilhas de pagamentos secretos, registros de transferências para contas em paraísos fiscais, tudo ligado diretamente ao Sr. Mendes e ao projeto da biblioteca. Lucas não tinha apenas arranhado a superfície; ele tinha dinamitado a fortaleza digital de Mendes e saído com as joias da coroa.
A prova era irrefutável, mas Lucas estava certo. Sua origem era ilegal. Nenhum juiz em sã consciência aceitaria isso em um tribunal. Apresentar isso publicamente me colocaria em risco profissional e colocaria Lucas na mira da polícia federal.
Eu precisava de uma estratégia diferente. Eu não podia usar a fruta da árvore envenenada, mas talvez pudesse usar o conhecimento dela para encontrar a árvore original.
Passei as semanas seguintes trabalhando incansavelmente, usando os dados de Lucas não como prova, mas como um mapa. O mapa me levou a um nome: Arthur Pires, o contador-chefe da Mendes Corp na época da fraude. De acordo com os registros, ele se aposentou subitamente logo após o escândalo e se mudou para uma cidade pequena no interior.
Encontrei Arthur vivendo em uma casa modesta, cuidando de um jardim de rosas. Ele era um homem velho, curvado pelo peso dos anos e, eu suspeitava, da culpa.
Quando me apresentei como advogada e mencionei o nome do meu pai, o rosto dele ficou pálido.
"Eu não sei de nada", ele disse, a voz trêmula, recusando-se a abrir o portão.
"Sr. Pires, meu pai era um homem inocente. Ele se matou em uma cela de prisão por um crime que não cometeu. Eu tenho provas de que o Sr. Mendes orquestrou tudo, e que você foi cúmplice."
Eu estava blefando, claro. Eu não podia admitir a origem das minhas informações.
"Você não tem nada", ele cuspiu, mas seus olhos o traíram. Havia pânico neles. "Vá embora ou eu chamo a polícia."
"Você pode chamar. Mas saiba que eu não vou desistir. Mendes destruiu minha família. Você acha que eu tenho medo de um processo por perturbação? Eu vou voltar aqui todos os dias. Vou conversar com seus vizinhos. Vou perguntar a eles se eles sabem que o simpático velhinho que cuida de rosas ajudou a colocar um homem inocente na cova."
Ele me encarou, o rosto uma máscara de conflito. Eu mantive meu olhar firme. Eu não era mais a menina de doze anos que chorava em um corredor do governo. Eu era uma mulher com uma missão.
Voltei no dia seguinte. E no outro. Na quarta visita, o portão estava aberto. Arthur estava sentado na varanda, uma xícara de café intocada na mesa ao seu lado.
"O que você quer de mim?", ele perguntou, derrotado.
"A verdade. Um depoimento oficial. Conte tudo o que sabe."
Ele riu, um som seco e sem alegria. "Você é jovem. Você não entende. Mendes não é um homem, é uma instituição. Se eu falar, não serei o único a morrer. Tenho filhos, netos. Ele sabe onde eles moram."
"Eu posso te colocar em um programa de proteção a testemunhas. Eu vou te proteger."
"Ninguém pode me proteger de Mendes", ele disse, olhando para o nada. "Ele me pagou para ficar calado. Uma aposentadoria generosa. Mas o preço real foi minha alma. Eu vivo com isso todos os dias. Vejo o rosto do seu pai nos meus pesadelos."
Lágrimas brotaram em seus olhos. E pela primeira vez, eu não vi um cúmplice, mas outra vítima.
"Então me ajude a acabar com isso", eu disse, minha voz mais suave. "Ajude a dar paz ao meu pai. E a você mesmo."
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Finalmente, ele assentiu lentamente. "Existe uma cópia física dos livros contábeis. Os originais. Mendes me fez criar um conjunto falso para a auditoria. Mas eu guardei os verdadeiros. Um seguro de vida, eu pensava. Eles estão em um cofre, em um banco na cidade."
Meu coração batia forte contra minhas costelas. Era isso. A prova limpa. A arma que eu precisava.
No dia seguinte, com uma ordem judicial que consegui com muito custo, um oficial de justiça e eu acompanhamos Arthur ao banco. O gerente nos levou à sala dos cofres. Arthur, com as mãos trêmulas, inseriu sua chave.
O cofre estava vazio.
Arthur caiu de joelhos, um gemido de puro desespero escapando de seus lábios. "Não... não pode ser."
O gerente do banco parecia nervoso. "Houve um acesso a este cofre ontem à noite, senhora. Pelo proprietário secundário da conta."
"Proprietário secundário?", perguntei, sentindo um frio na espinha.
"Sim. Um Sr. Mendes."
Saímos do banco e o celular de Arthur tocou. Ele atendeu, o rosto branco como um fantasma. Eu podia ouvir uma voz fria e calma do outro lado, mesmo à distância. Arthur apenas ouvia, tremendo.
Ele desligou e olhou para mim, o terror absoluto em seu rosto.
"Era ele. Ele disse... ele disse que meus netos têm um belo sorriso. E que seria uma pena se algo acontecesse com eles."
Naquele momento, Arthur Pires se quebrou. "Eu não posso. Me desculpe. Eu não posso ajudar."
Ele se virou e saiu correndo, me deixando sozinha na calçada, o som da cidade ao meu redor desaparecendo. Mendes não estava apenas um passo à minha frente. Ele estava em um universo paralelo de poder e crueldade, e eu era apenas uma formiga tentando mover uma montanha.
Voltei para casa derrotada. Liguei para Lucas.
"Ele sabe. Mendes sabe que eu estou perto."
"Eu te avisei, Ana. Você brinca com as regras dele, no tabuleiro dele. Ele sempre vai vencer."
"O que eu faço, Lucas?"
"Agora? Agora você me deixa jogar o meu jogo."
Antes que eu pudesse responder, ele desligou. Senti um calafrio percorrer meu corpo. O jogo de Lucas não tinha regras. E eu temia que o preço para vencer fosse mais alto do que qualquer um de nós poderia pagar.
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