
Coração de vidro
Capítulo 3
Edward Narrando
Sou Edward Golitsyn, 40 anos, chefe da Máfia Russa. Muitos confundem o título de "chefe" com o de "Don", mas na nossa organização, a hierarquia é diferente da Cosa Nostra. O Don é mais um patriarca, uma figura tradicional, muitas vezes ocupando uma posição de respeito, mas nem sempre liderando diretamente. Na máfia russa, ser chefe significa estar no comando de tudo, tomar as decisões, administrar os negócios, impor autoridade com pulso firme. Não há um conselho para contestar minhas ordens. Eu sou a última palavra.
E não tem nada nem ninguém. Porque o medo foi enterrado junto com minha esposa.
Siena.
Ela carregava nossa filha no ventre quando foi tirada de mim. Sem nenhuma culpa, a única culpa que ela carregava foi ser casada comigo e me amar.
Me lembro daquela noite como se fosse agora. Um inverno cruel castigava Moscou, e a neve caía pesada, pintando as ruas de branco enquanto o vento gelado cortava como navalha. Siena entrou em trabalho de parto antes da hora. Seu rosto estava pálido, banhado de suor, e ela gemia de dor no banco de trás do carro.
- Aguenta, meu amor, estamos chegando - murmurei, segurando sua mão trêmula.
Naquela época, ainda não tínhamos um hospital próprio. Dependíamos de contatos em clínicas particulares, e aquela noite chuvosa tornava tudo mais lento. Meus homens estavam alertas, dirigindo em formação para nos proteger. Eu sabia que tínhamos inimigos, mas não imaginava que fossem tão covardes ao ponto de atacar quando eu estava vulnerável.
Foi quando a primeira rajada de balas atingiu nosso comboio.
O carro da frente explodiu, iluminando a noite em um clarão infernal. O impacto me jogou contra o banco, e os gritos dos meus soldados ecoaram no rádio. O motorista tentou desviar, mas outro disparo acertou o pneu, fazendo-nos derrapar na pista molhada.
- Edward! - A voz de Siena veio fraca, assustada.
Saquei minha arma e ordenei que revidassem. O barulho dos tiros se misturava ao som da chuva batendo contra o metal dos carros. Meus homens lutavam, mas estávamos em desvantagem. Eles estavam preparados. Nós não.
A porta do carro foi arrancada por um dos meus soldados, que tentava me tirar dali.
- Chefe, precisamos sair!
Mas meu olhar estava em Siena. Ela se encolhia no banco, uma mão sobre o ventre inchado, os olhos arregalados pelo medo e pela dor.
- Eu te amo - ela sussurrou.
E então veio o som que me assombra até hoje.
Um único disparo.
Não um tiro direcionado a ela. Não um ataque calculado.
Uma bala perdida.
Um fragmento de chumbo que perfurou o vidro do carro e encontrou seu caminho até o peito de Siena.
Seu corpo estremeceu. Seus lábios se entreabriram como se fosse dizer algo, mas nada saiu além de um suspiro. Seus olhos, que antes brilhavam cheios de vida, começaram a se apagar diante de mim.
- NÃO! - Gritei, segurando-a contra mim, pressionando o ferimento. Mas o sangue quente escorria entre meus dedos, indiferente ao meu desespero.
O caos ao nosso redor se tornou um borrão. Só existia Siena em meus braços, e a dor que rasgava minha alma.
- Fica comigo... por favor... - minha voz falhava, mas ela já não me ouvia.
Quando os reforços chegaram, os desgraçados que fizeram isso já tinham fugido. Meus homens tentaram me tirar dali, mas eu não queria soltar Siena.
Perdi minha esposa. Mas não Perdi minha filha.
O sangue de Siena ainda estava quente quando tomei a decisão mais insana da minha vida. Com as mãos sujas e o coração em pedaços, saquei minha faca e rasguei a camisa que cobria seu ventre. Meus homens olharam horrorizados, mas ninguém ousou me impedir.
E naquele momento, perdi qualquer resquício de humanidade que ainda restava em mim.
Desde então, o medo deixou de existir. Se a vida pode ser arrancada tão facilmente, então eu não sou diferente. E se estou condenado a viver, farei do meu nome um pesadelo para aqueles que ousaram me desafiar
Abri a barriga dela com uma precisão cruel, o frio da lâmina contrastando com o calor da carne que se partia sob meu toque. Meu corpo tremia, não pelo medo, mas pela fúria e pelo desespero que me consumiam. Eu não podia perder as duas.
Minhas mãos encontraram o pequeno corpo ensanguentado.
Minha filha.
Puxei-a para fora, e por um instante, o mundo pareceu parar. Ela não chorou de imediato, e um pânico sufocante tomou conta de mim. Então, com um estímulo leve, um gemido fraco encheu o carro. Pequeno, mas suficiente para provar que ela estava viva.
Meu milagre.
Arranquei meu casaco e envolvi sua pele delicada no tecido quente. Segurei Jasmine contra meu peito e, sem olhar para trás, deixei o corpo de Siena para trás.
- Enterrem minha esposa no Parque Jardim da cidade - ordenei com a voz fria, sem permitir que a emoção transparecesse.
E assim fizeram.
Eu não parei para velar Siena, não chorei, não me permiti fraquejar. Minha prioridade era Jasmine. Um médico de minha confiança foi chamado assim que chegamos à casa segura. Ele cuidou da minha filha, garantindo que ela sobrevivesse.
Hoje, Jasmine tem quatro anos. Cresceu longe do mundo cruel que me cerca.
Ninguém sabe de sua existência, exceto aqueles que vivem sob o meu teto. Funcionários e soldados antigos, homens e mulheres que já provaram sua lealdade inúmeras vezes. Até mesmo as professoras particulares de Jasmine assinaram acordos de silêncio e devem suas vidas à Máfia Russa.
Minha filha é escondida a sete chaves.
E assim será para sempre.
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