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Capa do romance Conquistadores de Marte

Conquistadores de Marte

Diante do colapso da Terra e da hostilidade de Marte, cientistas criam corpos biológicos adaptados para transplantes cerebrais. A trama explora o desespero de quem não pode pagar pela migração antes do fim do mundo, além dos dilemas morais dessa nova existência. Entre reflexões filosóficas e pitadas de humor, acompanhamos romances inesperados que florescem em meio ao caos social e à luta pela sobrevivência da consciência humana no Planeta Vermelho.
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Capítulo 2

Jack começou a frequentar lugares que nunca imaginou existir.

Todos sempre acreditaram que os mais ricos tinham espécie de esconderijos secretos, mas eram mais boatos do que fatos. As notícias sempre acabavam perdendo o crédito quando surgiam teorias fantásticas de alienígenas, vampiros, lobisomens, zumbis. Começava com alguma lógica mas acabavam descambando para uma ficção científica que anulava qualquer credibilidade das informações.

Depois que as empresas assumiram a organização e dinâmica das cidades, elas foram mudando completamente, de forma gradativa.

As configurações oficiais se mantinham a mesma, apesar de o conceito de capital não ser mais utilizado. Porém, percebeu-se que alguns locais passaram a ser mais exclusivos. As viagens aéreas passaram a ser mais restritas e necessitavam de autorização das empresas. O preço das passagens era outro fator que dificultava o acesso de qualquer um para qualquer lugar. O fato de algumas pessoas serem indenizadas para desocuparem propriedades e se aproximarem de familiares, conceito que era tido como uma desculpa publicitária, era outro motivo para a diminuição de viagens.

Lincoln no Nebraska e sua região extendida passaram a ser um dos locais no mundo mais fechados e cercados de mistérios, no mundo. Diversos "pedágios" e escalas eram necessários para se chegar até o local. Ainda assim, mesmo com muito dinheiro, não era qualquer um que podia chegar lá.

Especulava-se que os mais ricos tivessem criado suas residências na cidade, mas nada era comprovado. Toda informação era filtrada, já que os últimos veículos de comunicação que existiam eram de posse das únicas grandes empresas, que tinham objetivos convergentes e proximidade nas decisões coletivas. Qualquer informação que eles não quisessem nunca seria divulgada.

O primeiro objetivo de Jack foi justamente ir para Lincoln.

- Você é completamente maluco mesmo! - disse Stewart.

- Claro que sou, coloquei todo meu dinheiro numa aposta maluca bêbado! - Jack respondeu rindo.

- Eu nunca imaginei que você faria aquilo. - Seu amigo olhava para o horizonte, como se buscasse explicação para aquila decisão tão louca.

- E agora você vai comigo! - Jack falou como quem estivesse convocando-o.

- E eu vou também! - Carol entrou na sala da casa de Jack.

- O que você está fazendo aqui, Carol? - Stewart se surpreendeu mais com a chegada dela do que com o convite do amigo.

- Hora, Jack me pediu em casamento! - Carol respondeu e Stew quase infartou.

- Como é?

- É, ele me convidou para ir com vocês dois para o Nebraska e pra mim foi quase como um pedido de casamento - ela respondeu rindo.

- Eu sabia o quanto ela sempre foi antenada nesses mistérios sociais, imaginei que ia ser nossa companhia perfeita. Sem contar que ela já foi do exército. É melhor em artes marciais e auto-defesa que nós dois é uma excelente companhia. Pra dizer a verdade, se tivesse interesse pelo sexo masculino, era até possível que eu a pedisse mesmo em casamento - Jack elogiou tanto que Carol ficou levemente envaidecida.

- Vocês não durariam 5 minutos sem mim, nessa empreitada - ela fez a piada para quebrar a vergonha que sentiu e os três riram.

- E como você pretende chegar lá? - Stewart perguntou. - Não parece que seja uma missão simples mesmo para alguém com a quantia que você ganhou.

- Nós vamos para Nebraska com o objetivo de ir para outro lugar - Jack revelou com certo mistério.

- Para onde? - os perguntaram juntos.

- Para Marte! - Jack respondeu.

- Como é?

- Stew, é bem simples, eles estão alucinados para sair desse planeta. Nós sabemos que estamos com os dias contados e tenho certeza que estão todos lá dentro daquele condado, reclusos, esperando a hora certa.

- Mas não seria mais lógico irmos atrás dos foguetes em Miami, Flórida ou na Califórnia? - Carol perguntou.

- Seríamos expulsos de lá, logicamente. Você já viu algum subordinado autorizar alguma coisa? E o caminho é chegar nos poderosos primeiro. Tenho certeza que esperam ansiosos pessoas com dinheiro dispostas a serem cobaias, como Robert.

- E o que te diz que estou disposto a ser cobaia? - Stewart perguntou.

- Uma vez lá dentro, a gente pode fazer o que quiser. Sou muito mais nossa malandragem e jogo de cintura. - Jack parecia confiante.

- Nenhum de nós tem família, Stew. O que temos a ganhar ficando nesse planeta que está se acabando? Até os poderosos estão prontos para ir. Na verdade, não sei ainda por que não foram - Carol ficou refletindo.

- Ouvi uma teoria que dizia que os homens de Marte estavam impedindo a chegada - Stew brincou.

- A teoria que ouvi é bem mais interessante e palpável, meu amigo: nós precisaríamos nos tornar esses homens de Marte - Jack contou.

- Não entendi! - exclamou Carol.

- O homem da Terra não pode viver em Marte. Os tricientistas (como eram chamados os cientistas que prestavam serviços aos trilionários) buscavam formas de realizar a Terra-formação. Transformar Marte até que ela tivesse condições de abrigar o ser-humano. Mas tiveram que mudar seus objetivos quando a Terra passou a ter data de validade curta. Não haveria tempo, de forma alguma, mesmo acelerando o processo ao máximo, nem se fosse criada uma pequena estrutura temporária, para poucos. A vida não teria continuidade, em nenhum cenário.

Um outro grupo de cientistas, que também trabalhava em conjunto com essa elite, na área de medicina, trouxeram uma outra proposta de solução. Eles vão transformar o corpo dos humanos, adequá-los para Marte. - A teoria, apesar de fazer algum sentido, ainda parecia insanidade para Stewart e Carol.

- Então é isso que você acha que está acontecendo lá? - Perguntou Stew.

- Se eu pudesse apostar tudo que eu tenho, eu apostaria. Aliás, é o que vou fazer - ele respondeu.

- Bom, quando você apostou sem pensar deu sorte, não vejo porque haveria de dar errado agora - refletiu Carol.

- E eu te chamando de covarde - Stewart disse, inconformado.

- Talvez agora você me conheça melhor! - Jack sabia que não era essa pessoa, que o amigo tinha razão sobre ele. Mas diante de todo o contexto que se apresentava diante dele, ousar parecia nem ser um ato de tanta coragem mais. Ainda mais com o dinheiro que Jack havia ganhado.

- Só me resta fazer as malas, então! - decidiu Stewart.

- Já trouxe as minhas, estão do lado da porta. - Carol, que já estava deitada no sofá, virou de costas, como se fosse dormir.

- Faça isso e durma agora a noite, Stew! Quando você voltar, pela manhã, partiremos.

- Traga café e uns pães bem gostosos, daqueles recheados! Você não vai mais precisar do seu dinheiro mesmo, pode gastar pouco dele - Carol brincou.

- Uma verdadeira princesa, não é mesmo? - Agora foi a vez de Stewart brincar com o jeito dela.

- Princesas arrebentam a cara de idiotas, também! - provocou Carol sem sequer se virar.

- Não tinha ninguém melhor mesmo para você convidar para essa viagem? - Stew continuou a provocação, perguntando para Jack.

- É que você acabou vindo na minha cabeça,as se quiser chamo outra pessoa no seu lugar. - Jack riu da cara que Stew fez e deu um tchauzinho, enquanto ele saia contrariado.

- Eu também não consigo imaginar o motivo de você ter me chamado primeiro. - A própria Carol quem perguntou, murmurando como se já estivesse meio que dormindo.

- Eu precisava de alguém que eu soubesse que diria sim. Não consegui pensar em outra pessoa que não fosse você. Bom, nos conhecemos a tanto tempo, não é? - Ele explicou.

- Já até nos apaixonamos pela mesma pessoa. - Carol lembrou.

- A vida era tão mais simples - Jack foi preenchido por um saudosismo incomum para ele.

- Não, não era não, nunca foi simples. Nós, enquanto sociedade, nunca lutamos juntos para que nossas vidas fossem simples. Agora me deixa dormir - Carol finalizou a conversa ali com um pensamento que deixou Jack pensativo pelo resto da noite.

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