Capa do romance Com o namorado errado

Com o namorado errado

9.3 / 10.0
Camila vivia uma rotina estável com Nico até uma noite de embriaguez mudar tudo. Na escuridão, ela confunde o namorado com o melhor amigo dele, Julián. O erro desastroso revela uma química inesperada que a deixa abalada. Agora, dividindo a mesma casa, Camila tenta esconder o desejo proibido enquanto a tensão entre ela e Julián cresce. Entre toques acidentais e silêncios carregados, ela questiona se esse engano foi, na verdade, um despertar do coração.

Com o namorado errado Capítulo 1

A casa dormia sob um manto de escuridão e silêncio. Somente o ventilador oscilante quebrava o silêncio com seu zumbido constante, como um sussurro mecânico que parecia tentar embalar o mundo inteiro para dormir. Do corredor, às vezes, o eco de risadas distantes chegava, como se as paredes contivessem fragmentos de uma conversa que não lhes pertencia.

Camila dormia sozinha, enrolada nos lençóis da cama de casal como um burro humano, mal visível em meio ao amontoado de tecidos brancos e travesseiros. O relógio digital no criado-mudo marcava 2h57 da manhã, com números vermelhos que pareciam piscar ansiosamente. De um lado, uma garrafa de vinho pela metade repousava ao lado de um copo vazio e um celular sem bateria.

Nico, seu namorado, havia saído horas antes para cumprir seu turno noturno no aeroporto. Ele trabalhava na equipe de segurança e naquela noite estava acompanhado de seu melhor amigo e companheiro inseparável: Julián. Era quase uma tradição que eles retornassem juntos, ainda de uniforme, cansados, mas rindo de coisas que nunca explicaram completamente. Camila adorava o clima de camaradagem entre elas, embora às vezes se sentisse mais como uma espectadora do que parte do time.

Eu brinquei mais de uma vez que elas pareciam modelos de catálogo toda vez que entravam pela porta. "Segurança sexy", ele os chamou, meio sério, meio brincando, depois de alguns drinques.

Naquela noite, porém, algo mudou.

A fechadura girou cuidadosamente. A porta da frente se abriu com um rangido quase inaudível. Passos desajeitados e arrastados entraram, como alguém tentando não fazer barulho, mas não totalmente sóbrio. Ouviram-se risadas abafadas, um "shhh" mal executado e, então, uma voz. Familiar. Muito familiar.

-Onde deixei as chaves do armário? - perguntou aquela voz do corredor.

Camila, em seus sonhos, a reconheceu. Ou ele pensou que a reconheceu. Era o Nico. Tinha que ser. Meio adormecida, ainda embriagada de sono e vinho, ela sentou-se na cama e esfregou os olhos. Ele cambaleou um pouco, tentando se concentrar na silhueta que se aproximava. Uma figura alta, de ombros largos, no uniforme azul escuro do aeroporto.

O sorriso que apareceu em seu rosto foi automático, instintivo. Era o tipo de sorriso nascido do desejo, da ternura, do anseio acumulado. Sem pensar duas vezes, ela caminhou até a figura e o abraçou com força pela cintura, pressionando o rosto contra o peito dele. Ele sentiu o cheiro familiar do trabalho noturno: uma mistura de cigarro, metal e perfume. Seu coração se acalmou. Estava tudo bem. Nico havia retornado.

"Senti sua falta", ele murmurou, deixando as palavras escaparem como um suspiro.

Julian não sabia o que fazer. Ele não sabia como reagir. Ele nem teve tempo de avisá-lo. Ele só sentiu os braços dela ao redor dele, o rosto quente dela contra seu peito, e então... os lábios dela. Primeiro tímido. Então mais seguro. O beijo cresceu com a intensidade de uma tempestade contida. Era profundo, cheio de algo que nenhum deles havia planejado sentir. Camila o beijou como se fosse uma certeza, como se soubesse, sem sombra de dúvidas, que ele era o homem que ela havia esperado a noite toda. Julian, por outro lado, estava dividido entre a vontade de parar e o desejo de ficar ali, um pouco mais.

Ele tentou se separar.

-Cami, eu...

Mas ela não lhe deu espaço. Ela o puxou para mais perto, seus lábios procurando os dele como se ele fosse a única coisa real na névoa. Seu corpo reconheceu isso, mesmo que sua mente estivesse errada.

Até que de repente um som seco perfurou a casa: a porta se fechando novamente.

Ambos congelaram.

Camila deu um passo para trás, franzindo a testa. O som estava claro. Outra pessoa tinha acabado de entrar.

-...Nico?

A pergunta escapou antes que ele pudesse impedi-la. Julian não respondeu. Ele apenas olhou para ela, com os olhos arregalados, a respiração irregular e os lábios ainda molhados. Ela o observou, pela primeira vez com real atenção. O ângulo do seu maxilar. A pequena diferença de altura. O perfume... não era o mesmo.

Então ele soube.

-Você não é o Nico!

O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. Julian coçou a nuca desajeitadamente. Um sorrisinho estranho surgiu em seus lábios, como o de uma criança com a mão presa no pote de biscoitos.

"Não... mas eu também não reclamei", ele disse em voz baixa.

Camila deu um passo para trás, com o rosto vermelho, não só de vergonha, mas também pela lembrança ardente daqueles lábios. Sua respiração ficou irregular. Ele levou a mão à boca.

-O que... o que aconteceu?

Da cozinha, uma voz soou como um alarme.

-Cami?! Você está acordado?

Era o Nico.

Camila olhou para Julian, em choque.

-Meu Deus, se esconda ou algo assim!

Sem pensar muito, ele correu até a porta e a fechou com força, apoiando todo o seu peso contra ela, como se pudesse conter não apenas Nico, mas também a verdade que acabara de ser revelada. Julian estava parado no meio da sala, com o uniforme amassado, a respiração pesada e os lábios ainda pesados ​​com o gosto de vinho... e culpa.

-Camila... -ele sussurrou, Como se ainda não conseguisse acreditar no que tinha acontecido.

-Não diga nada. Nem uma palavra. Isso não aconteceu, você ouviu?

Ela nem olhou para ele. Ele apenas fechou os olhos com força, tentando apagar a cena da mente. Mas o corpo tinha memória. E essa lembrança estava muito desperta.

-Você tem certeza que acredita nisso? "Julian perguntou, dando um passo em sua direção.

Camila olhou para ele, finalmente. E em seus olhos havia algo mais que pânico. Algo mais primitivo. Um incêndio que estava extinto há algum tempo e, por um erro, foi reacendido.

Mas não havia tempo para pensar.

-Você tem que sair daqui. Já. Antes que Nico entre e...

Toc, toc, toc.

-Camila? Você está bem? Ouvi barulho.

Camila congelou. Juliano também. Como se movido por uma mola, ele deslizou em direção ao armário e entrou sem dizer uma palavra. Ele fechou a porta bem a tempo, como se fosse uma comédia de erros e não o começo de algo muito mais complicado.

A porta do quarto se abriu.

-O que você está fazendo acordado? Você sonhou com algo estranho? - Nico perguntou, entrando com um longo bocejo.

Camila sorriu, tensa, nervosa, como se tivesse uma bomba debaixo do travesseiro.

-Sim... sonhei que você não estava lá. E isso me assustou.

Nico se aproximou, beijou sua testa e caiu na cama com um suspiro.

-Estou morto. Eu te amo, sabia?

Ela o observou em silêncio. Senti meu coração batendo na garganta. Não para ele. Mas pela figura respirando contida no armário, a poucos metros de distância. Pelo beijo. Pelo fogo.

E pelo desejo que, agora, eu não podia mais ignorar.

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