
Cinco Anos, Um Amor Que Se Apaga
Capítulo 2
O cheiro estéril de antisséptico encheu os sentidos de Clara enquanto ela acordava lentamente. Estava em um quarto de hospital, os lençóis brancos ásperos contra sua pele.
Heitor estava perto da janela, de costas para ela. Sua postura era rígida, sua silhueta cortando uma linha nítida e raivosa contra a luz da manhã.
Ele se virou, o rosto uma máscara fria.
"Você acordou," ele afirmou, a voz desprovida de calor. "O que você estava pensando, fazendo uma cena daquelas? Achou que isso me faria sentir alguma coisa por você?"
Clara tentou falar, mas sua garganta estava irritada. Uma tosse seca escapou de seus lábios.
A expressão de Heitor não se suavizou. "Deixe-me ser claro, Clara. Eu não te amo. Nunca vou amar. Todo esse seu sacrifício... é patético."
Ela baixou os olhos, encarando o cobertor branco. Qual era o sentido de contar a ele sobre Juliano? Sobre a promessa? Ele não acreditaria nela. Apenas veria isso como mais uma manobra desesperada por sua atenção. Ela aprendera há muito tempo que, com Heitor, o silêncio era sua única defesa.
"Eu entendo, Sr. Montenegro," ela disse, a voz rouca.
Ele a observou, um lampejo de algo — irritação? confusão? — em seus olhos. Parecia desconcertado por sua aceitação silenciosa. Ele esperava lágrimas, discussões.
Seu tom se suavizou quase imperceptivelmente. "Tire algumas semanas de folga. Descanse."
Então, como se movido por um impulso que não entendia, ele puxou uma cadeira para o lado da cama dela. "Eu fico."
Pela primeira vez em cinco anos, uma centelha de luz apareceu nos olhos de Clara. Era uma coisa pequena e frágil, mas estava lá.
"Por que você está tão feliz?" Heitor perguntou, genuinamente perplexo.
Ela olhou para o rosto dele, tão parecido com o de Juliano. "Apenas... feliz em te ver," ela sussurrou.
Ele sentiu uma pontada estranha no peito, uma emoção que não conseguia identificar. Estava prestes a dizer algo, qualquer coisa, quando seu telefone tocou.
Era Michelle. Sua voz estava chorosa e em pânico. "Heitor, querido, eu... eu caí. Meu tornozelo dói tanto. Você pode vir? Estou com medo."
O olhar de Heitor instintivamente se voltou para Clara. Ele viu o lampejo de esperança nos olhos dela morrer, substituído por uma resignação familiar e cansada.
"Você deveria ir até ela," disse Clara, a voz monótona. "Ela precisa de você."
Ele hesitou por uma fração de segundo, uma guerra travando dentro dele. Então ele se levantou.
"Certo," ele disse, a voz seca. Ele se virou e saiu, sem olhar para trás.
No momento em que a porta se fechou, o leve sorriso de Clara desapareceu. Seus olhos ardiam, mas nenhuma lágrima veio. Depois de cinco anos, ela havia esquecido como chorar.
Uma comoção explodiu do lado de fora de sua porta. As enfermeiras conversavam animadamente.
"Você ouviu? O Sr. Montenegro acabou de reservar todo o andar VIP para a namorada dele!"
"Apenas por um tornozelo torcido? Ele deve amá-la muito."
Clara ouviu, o rosto uma máscara de indiferença. Ela sabia. Sempre soube.
Mais tarde, o ferimento em sua cabeça precisava de um novo curativo. Ninguém veio. Heitor havia pago pelo quarto, mas sua atenção, e a atenção da equipe, estava focada em Michelle, um andar acima.
Clara saiu da cama, o corpo doendo, e cuidou do ferimento sozinha. Encontrou um pequeno kit de primeiros socorros no banheiro.
Suas mãos tremiam enquanto aplicava o antisséptico. Ardia, uma dor aguda e limpa.
O pequeno frasco de desinfetante escorregou de sua mão, quebrando-se no chão de azulejo.
Ela se abaixou para pegar os cacos, uma onda de tontura a atingindo. O movimento puxou os pontos em sua cabeça, enviando uma nova pontada de dor através dela. Ela tropeçou, seu mundo inclinou, e caiu no chão.
Seu joelho bateu no azulejo duro com um estalo doentio. Uma nova e aguda agonia explodiu, e sua visão escureceu nas bordas.
Mordendo o lábio para não gritar, ela se levantou, ignorando o sangue que agora vazava por sua camisola de hospital. Ela limpou meticulosamente o vidro e depois cuidou de seu novo ferimento.
Nos dias seguintes, ela às vezes caminhava pelos corredores para se exercitar. Em uma dessas caminhadas, passou pelo quarto de Michelle. A porta estava entreaberta.
Ela viu Heitor sentado ao lado da cama de Michelle, descascando uma maçã para ela, seus movimentos gentis, sua expressão cheia de uma ternura que Clara nunca tinha visto.
Ele realmente a amava.
Um pensamento estranho entrou em sua mente. Se ela pudesse ajudá-los, fazê-los felizes juntos, talvez Juliano também ficasse feliz.
No dia em que recebeu alta, ela arrumou seus poucos pertences. Ao sair de seu quarto, deu de cara com Michelle, que estava sendo empurrada em uma cadeira de rodas por uma enfermeira.
Clara instintivamente se moveu para o lado para deixá-la passar.
De repente, Michelle soltou um grito e se jogou da cadeira de rodas, caindo em um monte no chão.
"Ah! Meu tornozelo!" ela lamentou.
Heitor veio correndo do corredor. Seus olhos pousaram em Clara, depois em Michelle soluçando no chão. Ele viu apenas uma narrativa.
Ele se lançou para a frente, seus dedos se fechando em torno do pulso de Clara como um torno. "O que você fez com ela?" ele rosnou.
"Eu não fiz nada," disse Clara, a voz firme apesar da dor em seu pulso.
Michelle, entre lágrimas, fez um show de magnanimidade. "Heitor, não a culpe. Tenho certeza de que ela não quis. Foi um acidente."
"Eu vi você!" A voz de Heitor era um rosnado baixo. Ele se recusou a ouvir. Ele a empurrou para longe dele, com força.
Clara tropeçou para trás, batendo na parede. O impacto sacudiu seu corpo inteiro, e o ferimento em sua cabeça, que mal começara a cicatrizar, se abriu novamente. Um fio quente de sangue escorreu por sua têmpora.
Heitor se inclinou sobre ela, o rosto uma máscara de fúria. "Nunca mais toque nela. Você me entendeu?"
Ele então se virou, sua expressão se derretendo em uma de preocupação. Ele gentilmente pegou Michelle em seus braços, seu toque infinitamente suave. "Está tudo bem, querida. Estou aqui."
Enquanto a carregava para longe, Michelle olhou para trás por cima do ombro dele para Clara. Seus lábios se curvaram em um sorriso triunfante e malicioso.
Clara deslizou pela parede, caindo sentada no chão frio. O sangue fresco manchou o colarinho de sua camisa branca.
Pela primeira vez em muito, muito tempo, ela sentiu um esgotamento tão profundo que se instalou em seus ossos. Um cansaço da alma.
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