
Cinco Anos, Um Amor Que Se Apaga
Capítulo 3
O apartamento estava vazio, o silêncio pressionando-a. Clara se movia como um autômato, limpando e enfaixando seus ferimentos com uma eficiência desapegada.
Ela tirou uma pequena caixa de metal trancada de seu armário. Dentro estavam seus únicos tesouros: uma foto desbotada dela e de Juliano, uma flor seca que ele lhe dera, um ingresso de cinema do primeiro encontro deles.
Ela traçou o contorno do rosto dele na foto, a ponta do dedo tremendo.
"Estou tão cansada, Juliano," ela sussurrou para a imagem silenciosa. "Não sei se consigo mais fazer isso."
Seu telefone vibrou, quebrando o silêncio. Era Heitor. Sua voz era fria e seca, uma ordem, não um pedido.
"Michelle quer um bolo específico de uma confeitaria do outro lado da cidade. Vá buscá-lo para ela."
A linha ficou muda antes que ela pudesse responder.
Lá fora, uma tempestade havia começado. A chuva açoitava as janelas.
Clara olhou para a foto uma última vez, depois fechou a caixa. Pegou um guarda-chuva e saiu para o dilúvio.
A fila na confeitaria era longa. Quando comprou o bolo, estava encharcada até os ossos, seu corpo tremendo com um frio profundo e persistente.
Ela o entregou na cobertura de Heitor. Michelle, envolta em um cobertor de caxemira, pegou a caixa dela.
"Você está toda molhada," disse Michelle, com uma doçura falsa na voz. "Vai sujar o chão." Ela se virou para Heitor, que observava do sofá. "Não é mesmo, querido?"
O olhar de Heitor varreu a forma encharcada de Clara, sua expressão indecifrável.
Michelle deu uma mordida no bolo e fez uma careta. "É muito doce. Não gostei. Vá me buscar outro. Da filial do centro desta vez."
Clara ficou em silêncio por um momento, a água pingando de seu cabelo no chão de mármore. Então ela assentiu. "Ok."
Ela voltou para a tempestade.
Isso se tornou o padrão. Michelle encontrava uma nova exigência impossível, uma nova maneira de atormentá-la. Um café específico que tinha que ser comprado em uma cafeteria a uma hora de distância. Um livro que só estava disponível em uma loja especializada. Cada vez, Clara tinha que enfrentar a tempestade, seu corpo ficando mais fraco, uma febre persistente se instalando.
Após a quarta viagem, Michelle finalmente se declarou satisfeita. Ela se aninhou contra Heitor.
"Querido," ela arrulhou, "estou entediada. Vamos dar uma festa. E você tem que beber comigo."
Bruno e Jeremy, que haviam chegado, ficaram chocados.
"Michelle, você sabe que ele não pode," disse Bruno. "Ele é gravemente alérgico a álcool. Poderia matá-lo."
"Se ele realmente me ama, ele fará isso," insistiu Michelle, seus olhos se enchendo de lágrimas. "É só um pequeno teste."
Jeremy, que uma vez fora o maior apoiador de Michelle, finalmente explodiu. "Um teste? Você quer que ele arrisque a vida por um 'teste'? Qual é o seu problema?"
Michelle explodiu em soluços, virando-se para Heitor em busca de conforto. "Eles estão sendo maus comigo."
Heitor, com o rosto sombrio, pegou um copo de uísque. "Tudo bem."
Ele estava prestes a beber quando Clara, que estava em silêncio no canto, de repente se moveu. Ela arrancou o copo da mão dele.
"O que você está fazendo?" Heitor exigiu, zangado e confuso.
"Você vai parar no hospital," ela disse, a voz rouca por causa da febre. "Ou pior." Ela se virou para Michelle. "Ele não pode beber. Eu bebo por ele."
Michelle sorriu, um brilho cruel e triunfante em seus olhos. "Por mim, tudo bem."
Antes que Heitor pudesse protestar, Clara tirou um pequeno pacote de pílulas antialérgicas e as enfiou na mão dele. "Tome isso. Por via das dúvidas."
Então ela começou a beber.
Ela bebeu copo após copo de uísque, o licor forte queimando sua garganta e estômago. A sala ficou em silêncio, todos a observando.
Heitor ficou paralisado, o pacote de pílulas esmagado em seu punho, seus nós dos dedos brancos. Uma dor surda e latejante começou em seu peito. Ele observou o rosto pálido dela, suas mãos trêmulas, sua determinação inabalável.
Ele se lembrou de todas as outras vezes. A multa de trânsito que ela levou por ele. O negócio que ela salvou trabalhando por 72 horas seguidas. O investidor furioso que ela enfrentou em seu nome.
Ele sempre disse a si mesmo que não significava nada. Que a devoção dela era uma obsessão que ele não queria.
Mas observando-a agora, envenenando-se por ele, ele sentiu a garganta apertar.
Ele tentou ignorar a sensação estranha e sufocante. Ele amava Michelle. Tinha que amar Michelle. Repetia isso para si mesmo como um mantra, uma tentativa desesperada de abafar a visão do sacrifício silencioso de Clara.
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