
Cinco Anos das Mentiras Dele
Capítulo 2
Eu os encontrei perto do jardim de inverno, parcialmente escondidos por uma palmeira imponente. A voz de Ricardo era baixa, carregada de uma ternura que eu não ouvia há anos.
Ele estava acariciando suavemente o cabelo de Lorena, murmurando algo sobre como o mundo tinha sido injusto com ela.
Lorena se inclinou em seu toque, depois recuou um pouco. "Eu não preciso de pena, Ricardo", disse ela, sua voz afiada. "Eu preciso provar meu valor. Sozinha."
Seus olhos, geralmente tão calculistas, suavizaram ainda mais. "Você merece todo o sucesso, Lorena. Mais do que qualquer pessoa que eu conheço."
Então ele tirou uma pasta grossa de couro de dentro do paletó. Era familiar demais. Meu coração despencou.
Ele a colocou nas mãos dela. "Este projeto do centro cultural comunitário. Ele precisa de uma visionária. Alguém com a sua garra."
"Mas isso é... imenso", Lorena hesitou, mas seus dedos já traçavam a capa. "Isso faria o ano da minha fundação."
"E será creditado a você", disse Ricardo, sua voz firme. "Cada pedaço dele."
Minha respiração falhou. O sangue rugiu nos meus ouvidos. Saí de trás da palmeira, minhas pernas parecendo chumbo. "Esse é o meu projeto", afirmei, minha voz tremendo apesar dos meus melhores esforços.
Ricardo se virou, sua expressão endurecendo rapidamente. "Clara. O que você está fazendo aqui?" Seu tom era desdenhoso.
"Aquela pasta", insisti, apontando um dedo trêmulo. "É o projeto do meu centro cultural comunitário. Para o nosso filho."
Ele suspirou, como se eu estivesse sendo inconveniente. "Lorena precisa disso, Clara. Ela está construindo algo do nada. Você tem tudo."
"Você não construiu nada do nada", retruquei, minha voz falhando. "Aquele projeto era minha alma. Era para nós. Para ele."
A mandíbula de Ricardo se contraiu. "Não seja dramática. É apenas um projeto. E vai fazer muito bem, agora. Para a Lorena."
O silêncio se estendeu entre nós, denso e sufocante. Lorena agarrou a pasta com mais força, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios.
"Obrigada, Clara", disse Lorena, sua voz pingando falsa sinceridade. "Farei questão de honrar sua... visão original."
Ricardo abriu a porta do jardim de inverno para Lorena. Ela passou por mim, seu perfume enjoativamente doce. Ele não olhou para trás.
O carro preto elegante partiu, deixando-me sozinha na grande e vazia entrada. As primeiras gotas de chuva salpicaram meus ombros nus.
Tirei meus saltos. O asfalto frio parecia gelo sob meus pés. Eu andei, sem me importar para onde. A chuva começou a cair forte.
Através do aguaceiro, eu ouvi. A risada deles. Livre, alegre, totalmente alheia. Cortou a noite como uma faca.
Lembrei-me dos votos de Ricardo, cinco anos atrás. "Para sempre", ele havia prometido, seus olhos brilhando. "Sempre."
Ele não era sempre. Ele era nunca. O homem que estava ao meu lado no dia do nosso casamento era um estranho. Aquele que realmente me machucou foi ele.
De alguma forma, consegui voltar para a cobertura. As luzes da cidade se borraram através das janelas manchadas de chuva. Senti uma tontura súbita e vertiginosa.
Minhas pernas cederam. Caí no chão de mármore frio, minha cabeça batendo no chão com um baque surdo. Tudo girou.
Horas depois, a porta do quarto rangeu ao abrir. Ricardo. Ele me encontrou ali, um monte no chão. Seus olhos se arregalaram.
Ele correu até mim, levantando-me em seus braços. "Clara? O que aconteceu?" Sua voz estava carregada de uma preocupação que parecia estranha.
Ele me carregou para a cama, acariciando meu cabelo. Seu toque era quase terno. Era como ele costumava me segurar.
Um cheiro enjoativo do perfume de Lorena grudado nele. Estava em toda parte. Na camisa dele, no cabelo dele, na pele dele.
"Você está cheiroso", eu disse, minha voz mal um sussurro. Minhas próprias palavras tinham gosto de cinzas.
Ele recuou, um brilho de culpa em seus olhos. "Não é nada. Apenas... negócios."
"Claro", eu disse, olhando fixamente para o teto. "Negócios. E quando os negócios acabarem, você vai voltar para mim, não vai? Como um bom garotinho."
Ele suspirou, um som longo e cansado. "Clara, você sabe que eu sempre volto para casa para você."
Mas suas palavras não traziam conforto. Eram apenas promessas vazias. Eu não conseguia nem chorar. Minhas lágrimas haviam secado há muito tempo.
Eu o encarei, entorpecida. Ele era meu marido. E ele era um estranho.
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