
Cinco Anos das Mentiras Dele
Capítulo 3
O som agudo de metal me acordou. Minha cabeça latejava. Sentei-me de repente na cama, desorientada.
Lorena estava no meu escritório, vasculhando meus projetos. Meu espaço privado. Meus desenhos.
Ela segurou um pergaminho enrolado, um projeto para um centro comunitário, aquele que significava tudo para mim. "Estou com problemas na integridade estrutural aqui", disse ela, sem um pingo de vergonha. "Você é a especialista. Me ajude a consertar."
Eu a encarei, minha garganta apertada de nojo. "Não", consegui dizer, minha voz rouca. "Eu não vou."
Seus olhos se estreitaram. "Não seja difícil, Clara. Ricardo disse que você seria cooperativa."
"Ricardo disse muitas coisas", retruquei, levantando-me da cama. Minha cabeça ainda girava.
"Olha, eu sei que isso é difícil para você", ela continuou, sua voz falsamente gentil. "Mas este projeto é minha grande chance. Eu preciso dele."
Ela deu um passo mais perto, gesticulando com o projeto. Em seu descuido, o canto do pergaminho pesado arranhou bruscamente meu braço. Uma fina linha de sangue surgiu.
"Meu Deus! Sua desastrada!" Lorena gritou, agarrando a própria mão como se eu a tivesse atacado. "Você tentou me machucar!"
Nesse exato momento, Ricardo entrou na sala, seus olhos caindo instantaneamente na angústia fingida de Lorena. "O que aconteceu aqui?" Sua voz era fria.
Lorena explodiu em lágrimas teatrais. "Ela... ela me atacou, Ricardo! Ela não quer que eu tenha sucesso!"
Ele nem olhou para o meu braço sangrando. Seu olhar estava fixo em Lorena, depois se voltou para mim com puro desprezo. "Clara, o que você fez?"
"Ela me arranhou", eu disse, estendendo meu braço, um gesto fútil. "Ela fez isso em si mesma."
A expressão de Ricardo suavizou por uma fração de segundo quando seus olhos pousaram no sangue. Mas desapareceu tão rápido quanto veio. "Não se faça de vítima, Clara", ele rosnou. "Você é melhor que esse truque barato."
"Peça desculpas à Lorena", ele ordenou, sua voz de aço. "E então você vai ajudá-la com este projeto. Você vai ensiná-la tudo o que ela precisa saber."
Meu queixo caiu. "Pedir desculpas? Pelo quê? E você quer que eu... entregue o trabalho da minha vida para ela?"
"Os negócios da sua família", disse Ricardo, sua voz baixando para um sussurro perigoso, "ainda dependem muito dos meus investimentos, Clara. Não se esqueça disso."
Minha respiração ficou presa na garganta. Minha família. Minha lealdade a eles era minha maior vulnerabilidade. Ele sabia disso.
Engoli em seco, o gosto metálico de sangue enchendo minha boca. "Tudo bem", engasguei. "Eu vou ajudá-la."
Observei, entorpecida, enquanto Lorena reunia meus projetos, fazendo perguntas que eu respondia mecanicamente. Cada palavra parecia uma traição à minha própria alma.
Quando ela finalmente saiu, um sorriso triunfante no rosto, eu desabei no chão. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes.
Ricardo reapareceu na porta. Ele me observou, seu olhar indecifrável. "Chorando de novo?", ele perguntou, uma nota estranha em sua voz.
Eu rapidamente enxuguei meus olhos, forçando uma compostura que não sentia. "Apenas cansada", murmurei. "E meu braço está ardendo."
Ele pareceu relaxar, uma mudança sutil em seus ombros. "Bom. Porque amanhã, você estará no meu braço. No evento de lançamento da Lorena."
Ele se virou e saiu. Deixei as lágrimas caírem livremente então. Não para ele ver. Nunca mais para ele ver.
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