
Cicatrizes do Passado, Melodia do Presente
Capítulo 2
João Pedro era um homem da terra, violeiro de mão cheia, suas canções falavam da vida na fazenda, do gado, do sertão e, principalmente, de seu amor por Clara. Casados há três anos, viviam na fazenda do Coronel Afonso, pai dela, um homem influente e respeitado. A vida parecia um rio manso, até o dia da tragédia.
Clara "morreu" num acidente com o gado.
A notícia correu como fogo em palha seca. Carolina, sua irmã gêmea idêntica, surgiu das cinzas da dor, trazendo um lenço de Clara, manchado de sangue. Era a prova final, o selo da desgraça.
João Pedro desabou. O mundo perdeu a cor, a viola emudeceu.
Ele tentou se matar. Uma vez. Duas. Três.
Em todas, foi salvo por vizinhos, por gente da fazenda que o amparava, mesmo sem entender a profundidade daquele buraco negro que se abrira em seu peito.
"Que amor grande era aquele", comentavam todos, "capaz de levar um homem à beira da loucura."
Dona Cida, uma vizinha de cerca, balançava a cabeça.
"Nunca vi um homem amar tanto uma mulher."
João Pedro ouvia, mas não escutava. A dor era um zumbido constante.
Três meses se arrastaram, pesados como chumbo. A saudade de Clara era uma ferida aberta. Um dia, precisando de algo que a lembrasse, João Pedro foi até a casa grande do Coronel Afonso, buscar algum pertence esquecido de sua amada.
A casa estava silenciosa, mas não vazia.
Ao se aproximar do escritório do sogro, ouviu vozes. A do Coronel Afonso, grave e conhecida. E outra, feminina, assustadoramente familiar.
Era a voz de Clara.
Ele parou, o coração aos pulos, uma mistura de incredulidade e um medo gelado.
"Carolina", dizia o Coronel, "você precisa ter cuidado. Alguém pode desconfiar."
"Pai, eu sei", respondeu a voz que era de Clara, mas que se passava por Carolina. "Mas Ricardo precisa de mim. Ele é frágil, precisa de um herdeiro para a fazenda. É meu dever."
João Pedro sentiu o chão sumir.
A conversa continuou, cada palavra uma facada. A morta era Carolina, a verdadeira Carolina. Clara estava viva, assumindo a identidade da irmã. E por quê? Para "cuidar" de Ricardo, o viúvo de Carolina, seu cunhado. Para lhe dar um filho.
Clara dormia com Ricardo todas as noites.
A revelação esmagou João Pedro. O luto se transformou em uma raiva fria, uma dor ainda mais profunda, a dor da traição. Sua esposa, a mulher por quem ele quase morrera, o abandonara por uma "missão" distorcida, um plano macabro orquestrado com o próprio pai.
Ele se afastou, cambaleando, a cabeça um turbilhão. Precisava entender, precisava confrontar.
Mas o confronto veio de forma inesperada. Dias depois, durante uma pequena festa na fazenda para tratar de negócios da colheita, serviram um bolo com castanha de caju. João Pedro era terrivelmente alérgico, algo que Clara sabia melhor que ninguém.
Ele começou a passar mal, o ar faltando, a garganta fechando.
Procurou por "Carolina", por Clara.
Ela estava ao lado de Ricardo, que, de repente, começou a se queixar de uma dor de cabeça inexistente, fazendo uma cena.
Clara, ou melhor, "Carolina", olhou para João Pedro, viu seu estado, mas virou-se para Ricardo.
"Oh, meu querido, venha, vou cuidar de você", disse ela, amparando o cunhado, ignorando o marido que sufocava.
João Pedro, com a ajuda de outros, conseguiu um antialérgico a tempo. Mas a imagem de Clara priorizando Ricardo ficou gravada em sua mente. Aquilo não era só uma farsa, era um abandono cruel e calculado.
Ele observava Clara, agora como "Carolina", e Ricardo. Eles agiam como um casal. Ela cuidava dele, sorria para ele. Em público, eram o viúvo enlutado e a cunhada prestativa. Em particular, eram amantes construindo uma nova vida sobre a mentira.
João Pedro sentia o gosto amargo da humilhação. Ele era o marido "morto" em vida, uma sombra do passado que ela parecia querer apagar.
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