
Cicatrizes do Passado, Melodia do Presente
Capítulo 3
A gravidez de "Carolina" foi confirmada pouco tempo depois. O médico da vila, um senhor já de idade e um tanto alheio às fofocas mais recentes, parabenizou o Coronel Afonso pela futura chegada do neto.
Clara, no papel de Carolina, exibia uma alegria contida, mas seus olhos brilhavam com um tipo de esperança que João Pedro começava a decifrar.
Ela acreditava que o filho com Ricardo seria a chave para, de alguma forma, justificar tudo, talvez até para, no futuro, ter João Pedro de volta, como se ele fosse um objeto a ser retomado quando conveniente.
"Com um filho, Ricardo se acalma, a fazenda prospera, e então...", ela confidenciava ao pai, sem saber que João Pedro, por vezes, ouvia fragmentos de suas conversas.
A fazenda de Ricardo precisava de um tipo raro de capim para o gado, e a única pessoa na região que tinha sementes de qualidade era João Pedro, que as guardava de uma safra antiga, dos tempos felizes com Clara.
Ricardo, instruído por Clara, foi até João Pedro.
"João Pedro, meu caro", disse Ricardo, com uma falsa cordialidade, "soube que você tem aquelas sementes de capim angola. Eu pagaria bem por elas. Sabe como é, a fazenda precisa se reerguer depois da... perda da Carolina."
João Pedro o encarou. A ironia era cruel. O homem que roubara sua esposa agora pedia sua ajuda para a fazenda que ele herdaria com ela.
"São sementes especiais", respondeu João Pedro, a voz neutra.
"Eu sei, por isso vim até você. 'Carolina' me disse que você é o único."
Clara, usando seu conhecimento do passado para beneficiar o presente com Ricardo.
Apesar da dor, da raiva, João Pedro concordou. Talvez fosse uma forma de manter alguma dignidade, ou talvez uma última, masoquista, ligação com o que restava de seu passado. Ele pensou no sangue que corria em suas veias, o mesmo sangue que um dia Clara dissera amar, agora servindo aos propósitos dela com outro.
Ele entregou as sementes.
"Obrigado, João Pedro. Você é um bom homem", disse Ricardo, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Dias depois, houve uma pequena quermesse na vila. Clara, como "Carolina", estava lá com Ricardo. Ela preparara doces, os mesmos que fazia para João Pedro. O cheiro de cocada queimada e bolo de fubá invadiu o ar, trazendo lembranças dolorosas para João Pedro, que observava de longe.
Eles riam, Ricardo passava o braço pelos ombros dela. Pareciam um casal feliz, celebrando a nova família que estava por vir.
As pessoas comentavam.
"Veja só, a Carolina está se refazendo bem. E o Ricardo parece feliz com ela."
"É bom que ela esteja cuidando dele. Perder uma esposa é duro."
Ninguém sabia a verdade. João Pedro era uma nota dissonante naquela melodia fabricada.
Em certo momento, o Coronel Afonso, querendo solidificar a imagem pública, aproximou-se de João Pedro, com Clara e Ricardo a tiracolo.
"João Pedro, meu filho", disse o Coronel, a voz embargada de uma emoção calculada. "Ainda bem que você está aqui. É bom ver você tentando seguir em frente. Carolina", ele se virou para Clara, "tem sido um anjo para Ricardo. E você, João Pedro, sempre será como um irmão para nós, não é mesmo?"
Clara, como Carolina, sorriu docemente para João Pedro. Um sorriso que era uma punhalada.
"Claro, Coronel. Como um irmão", respondeu João Pedro, a voz saindo mais firme do que ele esperava. Aceitar aquele papel era engolir mais um pedaço da humilhação. Era o selo final de seu deslocamento.
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