
Cicatrizes de um Amor Proibido
Capítulo 2
A fazenda dos Silvas continuava a mesma, imponente e silenciosa sob o sol forte do interior. Cinco anos. Cinco anos que eu fui mandada para longe, com a ordem expressa de nunca mais voltar, a não ser que eu estivesse completamente curada da minha "doença": amar Ricardo, meu irmão de criação. E agora, eu estava de volta, mas não curada. Apenas mais forte, ou pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma. O carro parou em frente à casa principal e o motorista abriu a porta para mim. Respirei fundo o ar quente e familiar, um cheiro de terra molhada e gado que um dia foi meu lar. Minhas economias foram congeladas por eles, os Silvas, para garantir que eu dependesse de sua aprovação para sobreviver. A condição para o meu retorno e para a liberação do meu dinheiro foi clara: eu precisava provar que tinha virado a página. E eu tinha a prova perfeita.
Entrei na casa. O silêncio era pesado, quase palpável. Cada objeto, cada móvel, trazia uma memória dolorosa. Foi na sala de estar que o encontrei. Ricardo. Ele estava de costas para mim, olhando pela janela, a mesma postura arrogante de sempre. Meu coração deu um salto doloroso no peito, uma reação involuntária que eu odiei. Ele se virou lentamente, e seus olhos escuros me avaliaram de cima a baixo. Não havia calor, nem surpresa, apenas um frio cortante. "Você voltou", ele disse, a voz grave e sem emoção. Não era uma pergunta, era uma constatação.
"Eu voltei, Ricardo." Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Antes que ele pudesse responder, uma mulher desceu as escadas. Laura. Loira, elegante e com um sorriso que não alcançava os olhos. Ela deslizou o braço pelo de Ricardo, possessiva. "Sofia, querida. Que surpresa agradável." O tom dela era falsamente doce. "Ricardo estava tão ansioso pela sua volta." Ela o beijou no rosto, um beijo demorado, e ele não se afastou. A cena foi um soco no meu estômago. Era para isso que eu tinha voltado? Para assistir ao show da felicidade deles?
Engoli em seco e forcei um sorriso. "Eu não voltei por você, Ricardo. Voltei para organizar meu casamento." A bomba foi lançada. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Laura me olhou, chocada. Ricardo, pela primeira vez, demonstrou uma emoção. Uma faísca de fúria brilhou em seus olhos. "Casamento? Com quem?", ele perguntou, a voz baixa e perigosa.
"Com o Pedro. Seu amigo."
A menção a Pedro pareceu enlouquecê-lo. Ele deu um passo na minha direção, o rosto uma máscara de raiva. "Você não vai se casar com ninguém." Ele agarrou meu pulso com força. "Você acha que pode simplesmente voltar e esfregar isso na minha cara?" Eu puxei meu braço, mas seu aperto era de ferro. Abri minha bolsa, procurando o anel de noivado que Pedro me dera. Eu o guardava ali, com medo de usá-lo nesta casa. Mostrei a ele, a pedra brilhando sob a luz. "É real, Ricardo. Eu vou me casar com o Pedro. Eu vou seguir em frente."
Ele riu, um som amargo e cruel. Num movimento rápido, ele arrancou o anel da minha mão. Eu gritei, mas era tarde demais. Ele o jogou no chão e pisou com a bota suja de terra. O som do metal se quebrando e da pedra se estilhaçando ecoou na sala silenciosa. Meus joelhos cederam e eu caí, olhando para os destroços do que representava minha nova vida, minha esperança de paz. "Isso é o que eu penso do seu casamento", ele cuspiu as palavras.
As lágrimas que eu segurei por tanto tempo finalmente vieram, quentes e amargas. A memória de cinco anos atrás me invadiu. A noite em que meus pais adotivos, os pais dele, descobriram minha carta de amor. A humilhação pública, os gritos, a acusação de que eu era uma aberração. E Ricardo, o homem que eu amava, parado em silêncio, me olhando com desprezo antes de dizer as palavras que me quebraram: "Eu nunca sentiria nada por você além de nojo. Você é minha irmã." Ele me rejeitou na frente de todos, selando meu exílio. Mal sabia eu que aquela rejeição era sua forma distorcida de me proteger de um segredo ainda mais sombrio.
"Saia da minha casa", ele disse, a voz agora um sussurro gelado, me tirando da lembrança dolorosa. Laura sorria, vitoriosa, ao lado dele. Ele se virou e subiu as escadas com ela, sem olhar para trás. Ele me deixou ali, no chão, com os restos do meu anel e do meu coração.
Eu me arrastei para fora da casa, o ar parecia mais fácil de respirar longe daquelas paredes. Minha mão tremia ao pegar o celular. Uma lasca de metal do anel tinha cortado meu dedo, e o sangue escorria lentamente. Ele nem percebeu. Ou talvez tenha percebido e não se importou. O sangue manchou a tela do celular enquanto eu discava.
A voz de Pedro do outro lado da linha foi como um bálsamo. "Sofia? Você chegou bem?" Sua preocupação era genuína, um contraste gritante com a crueldade que eu acabara de enfrentar. Eu não consegui falar, apenas solucei. "O que aconteceu? Ele te machucou?", a voz dele ficou tensa. "Estou bem", menti, a voz embargada. "Só... é difícil estar de volta. Eu te amo, Pedro." "Eu também te amo, Sofia. Eu estou aqui. Sempre." A promessa dele era a única coisa que me mantinha de pé. Eu precisava me casar com ele. Era minha única saída.
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