
Cicatrizes de um Amor Proibido
Capítulo 3
O jantar naquela noite foi uma tortura silenciosa. Eu estava sentada à mesa enorme da sala de jantar, entre o Sr. e a Sra. Silva, meus pais adotivos. Ricardo e Laura estavam do outro lado. Ninguém falava sobre o anel quebrado. Ninguém mencionava o motivo do meu retorno. Era como se todos estivessem presos em uma peça de teatro mal ensaiada. A Sra. Silva, uma mulher de aparência severa, finalmente quebrou o silêncio. "Então, Sofia. Ouvimos dizer que você pretende se casar." O tom dela era frio, analítico. "Esperamos que você tenha feito uma escolha sensata desta vez." A indireta era clara. Minha escolha anterior, amar o filho deles, tinha sido a insensatez máxima.
"Pedro é um bom homem", eu respondi, olhando para o meu prato. "Ele é amigo de Ricardo. Vocês o conhecem."
"Conhecemos", disse o Sr. Silva, sua voz grave ressoando na sala. "Um rapaz de boa família. Pelo menos isso." Ele me olhou, e por um segundo, vi algo em seus olhos que não consegui decifrar. "Mas por que a pressa? Você acabou de voltar."
A pergunta pairou no ar. A verdadeira razão era que eu queria fugir daquela casa, daquela família, o mais rápido possível. Mas eu não podia dizer isso. "Nós nos amamos. Não há motivo para esperar", eu disse, tentando soar convincente. Ricardo soltou uma risada baixa e debochada. Laura colocou a mão sobre a dele, um gesto de cumplicidade. Eles eram uma frente unida contra mim.
"Bem", disse a Sra. Silva, limpando a boca com um guardanapo de linho. "Se é isso que você quer... Apoiamos sua decisão. É bom ver que você finalmente superou suas... fantasias infantis." Ela fez uma pausa. "Mas esperamos que você entenda, Sofia. Nosso apoio tem condições. Ricardo vai assumir os negócios da família em breve. Não queremos nenhum escândalo. Seu casamento deve ser discreto. E depois, você e seu marido devem se mudar. Para longe." A mensagem era clara: case-se, pegue seu dinheiro e desapareça. Para sempre. Eu apenas assenti, um nó se formando na minha garganta. Liberdade tinha um preço, e eu estava disposta a pagá-lo.
Naquela noite, o passado me assombrou em sonhos. Eu estava de volta àquela noite chuvosa, cinco anos atrás. Eu estava no meu quarto, escrevendo a carta para Ricardo, meu coração jovem e ingênuo transbordando de amor. No sonho, eu via a mim mesma, mais nova, colocando a carta debaixo da porta dele. E então, a cena mudava. Eu ouvia os gritos. A Sra. Silva segurava a carta, o rosto vermelho de fúria. "Como você ousa? Sua ingrata! Nós te demos tudo!" Ricardo estava lá, parado, o rosto impassível. Eu me lembrava de implorar com os olhos para que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas ele apenas me olhou com aquele desprezo gelado e disse: "Levem-na daqui. Eu não quero vê-la nunca mais." Acordei suando frio, o som das palavras dele ainda ecoando nos meus ouvidos. Por que ele me odiava tanto?
No dia seguinte, Laura insistiu que eu fosse com eles a um churrasco na fazenda de um vizinho. "Você precisa se distrair, Sofia. Sair um pouco", ela disse com seu sorriso falso. Era uma armadilha, eu sabia, mas recusar só causaria mais problemas com os Silvas. Fui arrastada para o evento, sentindo-me como um peixe fora d'água. O lugar estava cheio de gente rica, amigos da família, todos me olhando com curiosidade. Eu era a filha pródiga, a ovelha negra que havia retornado.
Ricardo e Laura não me deixaram em paz por um segundo. Eles circulavam entre os convidados, de mãos dadas, rindo e se beijando. Ricardo fazia questão de me olhar a cada beijo, a cada toque. Ele queria que eu visse. Queria me punir. Laura, por sua vez, aproveitava cada oportunidade para me diminuir. "Sofia ficou tanto tempo fora que nem deve se lembrar de como as coisas funcionam por aqui", ela dizia para quem quisesse ouvir. Eu me sentia pequena, invisível.
A tortura atingiu o auge quando alguém sugeriu um jogo. "Verdade ou Consequência". Eu tentei recusar, mas Laura me puxou para o círculo. "Vamos, Sofia, não seja estraga-prazeres." A garrafa girou e, claro, parou em mim. Um dos amigos de Ricardo, um rapaz arrogante chamado Felipe, sorriu maliciosamente. "Verdade ou consequência, Sofia?"
"Verdade", eu disse, querendo acabar com aquilo o mais rápido possível.
Felipe olhou para Ricardo, depois para mim. "É verdade que você voltou porque ainda não superou o Ricardo?" A pergunta foi como um tapa na cara. O grupo todo ficou em silêncio, esperando minha resposta. Senti os olhos de Ricardo queimando em mim.
Respirei fundo, reunindo toda a minha coragem. "Não. Não é verdade." Minha voz saiu clara e firme. "Eu voltei para me casar."
"Casar?", Felipe riu. "Com quem? Um namorado imaginário que você inventou na Europa?"
Antes que eu pudesse responder, Laura interveio. "Ela está noiva de Pedro", disse ela, com um tom de quem revela um segredo sujo. "Nosso Pedro."
A revelação caiu como uma bomba no grupo. Todos olharam de mim para Ricardo, chocados. O rosto de Ricardo se fechou completamente, a mandíbula travada. Ele me encarou, e em seus olhos havia uma mistura de fúria, incredulidade e algo mais, algo que eu não conseguia nomear. O jogo tinha acabado, mas o meu inferno pessoal estava apenas começando.
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