
CASANDO COM O INIMIGO
Capítulo 3
Capítulo 3 – O Assistente
POV Isabela
Os corredores da sede Duarte eram longos, frios e cheios de olhares. Cada funcionário que passava me observava com uma mistura de curiosidade e julgamento.
Caminhava ao lado de Alejandro, a passos firmes, tentando ignorar o peso de cada olhar. Ele parecia não se importar. Sua presença dominava o ambiente como se fosse dono não apenas do prédio, mas da cidade inteira. E de certo modo, era.
Entramos em uma sala de reuniões ampla, paredes de vidro, mesa comprida de mármore polido. Vários executivos já estavam lá, de ternos alinhados, laptops abertos. Quando me viram, levantaram-se em respeito.
- Senhores - Alejandro disse, a voz grave preenchendo o espaço. - Esta é minha esposa, Isabela Montoya Duarte. A partir de hoje, vice-presidente de relações institucionais.
Aquelas palavras ecoaram como pedras lançadas na água. Vi alguns olhares discretamente desconfiados, outros abertamente contrariados. Eu era uma intrusa ali, uma Montoya no império Duarte.
- Isabela ficará ao meu lado em todos os eventos e projetos de imagem da empresa. - Alejandro prosseguiu, ignorando as expressões. - E terá o próprio assistente para dar suporte.
Ele fez um sinal, e a porta se abriu. Um homem entrou.
Alto, magro, de terno azul-marinho impecável. Cabelos castanhos escuros penteados de forma elegante, olhos claros que contrastavam com a pele morena. Um sorriso discreto, educado, mas com uma fagulha de ousadia escondida.
- Senhora Duarte. - Ele se aproximou e estendeu a mão. - É uma honra. Sou Gabriel Mendes, seu novo assistente pessoal.
Apertei sua mão, firme. Ele tinha um aperto seguro, sem hesitação. Gostei disso.
- É um prazer, Gabriel.
- Gabriel já trabalha conosco há alguns anos. - Alejandro explicou, o olhar avaliando a cena com atenção. - Formado em Relações Internacionais, especialista em protocolo e eventos. A pessoa certa para cuidar de você nesse... novo papel.
Gabriel sorriu, mas seus olhos me analisaram com mais intensidade do que eu esperava.
- Pode contar comigo, senhora Duarte. - A forma como disse parecia carregar um subtexto: sei que está sozinha nessa guerra, mas não precisa estar totalmente desarmada.
Sentei-me ao lado de Alejandro, consciente de cada olhar que nos observava. Os executivos começaram a apresentar relatórios sobre projetos, lucros, parcerias. Eu tentava acompanhar, anotando mentalmente o que podia, mas a linguagem era quase um campo de batalha próprio.
De vez em quando, Gabriel inclinava-se discretamente para mim, explicando em voz baixa termos técnicos.
- Esse projeto é sobre um resort em Cancún, parceria milionária. - sussurrou em meu ouvido.
- Essa cláusula fala sobre impostos internacionais, mas é puro teatro. Eles querem mostrar que estão no controle.
Sua voz era baixa, calma, precisa. Graças a ele, consegui entender o que estava em jogo.
Percebi Alejandro observando nossa interação. Seus olhos escureciam levemente a cada vez que Gabriel se aproximava demais.
No meio da reunião, um dos executivos, um homem grisalho, arrogante, lançou uma provocação velada:
- Com todo respeito, senhor Duarte... colocar uma Montoya em posição de vice-presidente não seria... arriscado?
O silêncio caiu. Todos esperaram a reação.
Antes que Alejandro respondesse, eu me endireitei na cadeira.
- Arriscado seria continuar repetindo os mesmos erros que quase levaram esta empresa à falência no último trimestre. - Minha voz saiu firme, surpreendendo até a mim mesma. - Não se preocupem, senhores. Sei muito bem o que significa carregar um sobrenome que incomoda. Estou aqui para provar que sei jogar este jogo.
O grisalho arregalou os olhos, pego de surpresa. Alejandro sorriu discretamente, satisfeito.
- Como podem ver - ele disse, a voz carregada de sarcasmo -, minha esposa não precisa que eu a defenda.
A reunião prosseguiu com menos resistência, e senti uma ponta de orgulho.
Quando a reunião terminou, fui conduzida ao meu novo escritório, um espaço elegante, com vista para a cidade. Sobre a mesa, flores frescas e uma placa dourada: Vice-presidente Isabela Duarte.
Sorri com amargura. Um título bonito para uma gaiola dourada.
Gabriel entrou logo depois, trazendo uma pasta.
- Esses são os compromissos da semana: coletiva de imprensa amanhã, gala beneficente no sábado. - Ele organizou os papéis com eficiência. - Também preparei um resumo dos principais acionistas e suas... preferências. Vai facilitar lidar com eles.
- Você parece saber tudo. - Comentei, impressionada.
Ele sorriu, um sorriso rápido, quase cúmplice.
- Faz parte do trabalho prever o próximo movimento.
Seus olhos encontraram os meus por um segundo longo demais. Havia algo nele... inteligência, sagacidade, talvez até perigo.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Alejandro entrou sem bater. Seu olhar percorreu a cena: eu e Gabriel frente a frente, próximos demais.
- Já se adaptando, esposa? - perguntou, o tom carregado de ironia.
- Sim. Gabriel é... eficiente.
- Ótimo. - Alejandro caminhou até minha mesa, apoiando as mãos no tampo. - Espero que seja leal.
- Sempre fui leal à empresa, senhor Duarte. - Gabriel respondeu, tranquilo. - E agora, à senhora Duarte.
As palavras pairaram no ar, pesadas. Eu vi o maxilar de Alejandro se contrair.
- Veremos. - murmurou, antes de se virar e sair da sala.
Fiquei em silêncio por um tempo, encarando a porta fechada. Gabriel organizava os documentos sem comentar, como se não tivesse percebido a tensão.
Mas eu percebi. Alejandro estava irritado. Não apenas com a ousadia dos executivos... mas com a presença de Gabriel ao meu lado.
Sorri sozinha, amarga.
- Parece que minhas regras já começaram a queimar, não é, Alejandro?
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