
Casamento por Contrato: A Herdeira e o CEO
Capítulo 3
Era engraçado como nada parecia mudar nessa cidade. Enquanto o táxi me levava pelo Centro, eu via as mesmas lojas, os mesmos rostos – só que agora mais velhos, mais cansados. Reconheci algumas pessoas no caminho. Gente que passava os dias me julgando, sussurrando pelas costas que eu era a garota mimada, ingrata, que não sabia valorizar nada do que tinha. Para elas, minha mãe, Sônia, era quase uma mártir. A pobre mulher que teve o azar de ter a pior filha do mundo.
Era curioso como as pessoas adoram acreditar nas versões mais convenientes das histórias. Ninguém sabia o que acontecia entre as paredes da minha casa, e eu já tinha aceitado isso. Não dava para mudar a visão delas.
O hotel onde o taxista me deixou não era grande coisa, mas, comparado ao resto de Santa Luzia do Norte, até que estava em um nível bom. No quarto, o ar-condicionado barulhento lutava contra o calor sufocante. A cama de casal parecia limpa o suficiente, então me joguei nela. Liguei a TV para quebrar o silêncio, porque, sinceramente, ficar sozinha com os meus pensamentos nunca foi uma boa ideia. O sinal era péssimo, mas eu esperava menos ainda.
Peguei o celular, na esperança de uma distração. Talvez uma mensagem ou alguma fofoca. Mas não havia nada. O 4G parecia refletir o ritmo da cidade: lento, quase inexistente. Suspirei, frustrada. Isso tudo deveria ser familiar – o calor, a lentidão, os olhares – mas, em vez de conforto, só trazia lembranças que eu daria tudo para esquecer.
Ainda largada na cama, tentei reunir forças para tomar um banho, mas o celular vibrou. A tela iluminou com o nome "Adv da Vovó". Meu coração disparou. Respirei fundo antes de atender.
- Alô? - Minha voz saiu baixa. Eu temia que ele quisesse adiantar a reunião. A ideia de ver minha mãe e minha irmã tão cedo me deixava nauseada.
- Senhorita Almeida, como está? - Ele tinha aquela formalidade irritante que me fazia revirar os olhos.
- Só Isabela, por favor. Estou bem, e o senhor? - Respondi com esforço, tentando soar educada, mesmo sem lembrar o nome dele.
- Bem também, obrigado. Liguei apenas para confirmar se você chegou bem.
Por um segundo, algo parecido com alívio passou por mim. Alguém se preocupou em saber da minha chegada. Superficial ou não, era um gesto que aquecia meu coração.
- Cheguei sim, obrigada. Acabei de chegar no hotel, na verdade.
- Que bom. Então, só para avisar, a leitura do testamento está marcada para amanhã às 10h.
Meu estômago afundou.
Amanhã.
Amanhã eu teria que ver minha irmã com aquele sorriso falso, minha mãe com aquele olhar gelado. Não tinha como evitar. Respirei fundo.
- Tudo bem, estarei lá.
- Ótimo. Desejo um bom descanso, Isabela. Nos vemos amanhã.
Desliguei e deixei o celular cair ao meu lado. Qualquer energia que eu tinha evaporou. Fechei os olhos, tentando ignorar o nó na garganta. Depois de um tempo, o sono veio, mas, como de costume, ele não trouxe descanso.
Horas mais tarde, acordei suada, mesmo com o ar-condicionado zumbindo no canto do quarto. Passei a mão na testa, tentando me livrar da sensação pegajosa. O relógio marcava 21h15. Não adiantava sair para procurar algo para comer. Aqui, em Santa Luzia do Norte, tudo parecia morrer depois das 19h.
Minha mente viajou para Chicago. Lá, bastava atravessar a rua para encontrar uma lanchonete aberta. Milkshakes, batatas fritas... quase senti o cheiro. E com isso, veio uma lembrança especial: eu e minha avó, sentadas à mesa da cozinha com vários lanches espalhados pela mesa, rabiscando croquis juntas. Ela tinha aquele sorriso suave enquanto me dizia que eu deveria "sonhar grande".
"Você vai ser uma estilista de verdade, minha pequena", ela dizia. Mesmo agora, pensar nisso me arrancava um pequeno sorriso.
Com essa memória, finalmente me levantei para tomar banho. O jato de água era fino e preguiçoso, mas morno o suficiente para me tirar do torpor. Depois, deitei-me novamente, mas as memórias não me deixavam em paz.
Dessa vez não eram boas lembranças.
- Isabela, o que significam essas malas? - A voz dela soou fria, quase irritada, enquanto se encostava na porta do meu quarto. O olhar carregado de julgamento.
- Estou indo embora - respondi sem levantar os olhos, focada em fechar o zíper da mala. Falar aquilo em voz alta me fez tremer por dentro, mas eu mantive o tom firme.
Ela riu. Aquela risada debochada, que sempre me fazia querer desaparecer.
- E vai se sustentar com o quê? - Ela arqueou uma sobrancelha, com o rosto carregado daquela expressão de superioridade. - Porque, pelo que vejo, o dinheiro que você ganha nessa espelunca que chama de loja não dá nem para pagar os teus caprichos.
Eu engoli em seco.
- Isso não é da sua conta. - Olhei para os tecidos espalhados pelo quarto, sentindo um aperto no peito.
Ela deu de ombros.
- Eu só quero garantir que você não volte arrependida, pedindo minha ajuda. Porque eu não vou levantar um dedo por você.
Minha garganta apertou, mas não deixei que ela percebesse.
- Não se preocupe, dona Sônia. Eu não volto para essa cidade nem amarrada.
Ela ficou calada por um instante. Quando finalmente falou, foi com um tom cortante.
- Espero que cumpra sua promessa.
E foi isso. Foi a última vez que "conversei" com minha mãe.
Hoje, nem tento mais entender o ódio dela. Já aceitei que Sônia é amarga. Que escolheu uma filha para amar e a outra para ignorar. E sabe de uma coisa? Não importa. Não quero mais respostas. Só quero seguir em frente.
Mas, às vezes, ainda dói mais do que eu gostaria de admitir.
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