
Casamento de Gelo
Capítulo 3
CAPÍTULO 3
A Encalhada Perfeita
Narrado por Mia
— E então? Vais levar acompanhante ou não? — pergunta a minha irmã.
Reviro os olhos já prevendo o que aí vem.
— Não, não vou. — respondo apenas.
— O que aconteceu contigo e com o Damien? Vocês pareciam tão apaixonados! — a minha mãe e as suas perguntas, nada indiscretas.
— As coisas não funcionaram, mãe. — Falo apenas.
— Ele era tão bom rapazinho. Eu gostava dele, pensei que era agora que casavas, mas pelos vistos ainda não é desta! — fala aborrecida.
— Ai mãe, que implicância! — digo já chateada.
— Não é implicância, é a verdade. A tua irmã é mais nova e vai casar já no sábado, e tu? Contínuas encalhada.
— Mas que coisa, até parece que eu tenho cinquenta anos, por Deus, mãe. — Que irritação de conversa, por Deus.
— Todas as meninas da tua infância já estão todas casadas, muitas delas já com filhos, e tu? Uma solteirona que mora sozinha, só te falta um gato, para realmente seres a encalhada perfeita.
Ai que merda de merda de conversa.
— Ai mãe, deixa-a, ela é que sabe, é adulta. — Diz a minha irmã.
Graças a Deus, há alguém com neurônios no sítio.
A minha irmã é mais nova do que eu quatro anos, ela tem vinte e sete anos e eu trinta e um, e a minha mãe acha que já passei do prazo de validade por ainda não ter casado, sinceramente, que estupidez.
Emily casa no próximo sábado, teve muita sorte, Jason é um autêntico gentleman, é bondoso, carinhoso, muito bonito, muito amigo e eu adoro o meu cunhado. Ele é muito bom para a Emily, e isso é o mais importante.
— Mas tu estás a ouvir?
A minha mãe tira-me dos meus pensamentos.
— Sim, mãe. — Que mentirosa que eu sou, mas é por uma boa causa, de certeza que ainda estava a falar de como eu sou uma encalhada, e mais uma data de baboseiras. Não tenho paciência.
— Mas afinal, vais contar o que se passou contigo e com o Damien, ou não?
Santa pechinica, outra vez?
— Já te disse que as coisas não funcionaram, ele começou a ficar muito ciumento e impulsivo, dei um basta antes sequer que ele pensasse que eu era propriedade dele.
— Realmente, nem sei porque ainda me surpreendo contigo. Ciumento, impulsivo, tu é que és uma esquisita, não existe homem perfeito, Mia! — ela diz, como se fosse a mais experiente do mundo.
— Eu sei que não existe homem perfeito, mãe, não sou nenhuma tosca, não sou é obrigada a estar com uma pessoa que só é bom para os de fora, Damien tornou-se insuportável e não vou falar mais sobre isso, mãe.
— Eu amo vocês duas, de verdade, mas se vão continuar com essa discussão, eu vou embora. Que baixo astral, céus.
Sim, realmente não valia a pena, a minha mãe, o meu pai e toda a minha família chata, só me largariam com este assunto quando realmente eu estivesse casada, coisa que eu não via acontecer nos anos mais próximos, então até lá, iam continuar a azucrinar a minha pessoa, e eu seria sempre a encalhada da família.
Os Noivos
Emily e Jason
Emily e Jason conheceram-se numa saída à noite com amigos em comum.
Logo simpatizaram um com o outro. Depois de mais umas tantas saídas com os amigos, passaram a ser saídas a dois. Acabaram por se apaixonar perdidamente, e começaram um relacionamento há três anos atrás, desde essa altura que não se largaram mais e o amor e a cumplicidade deles só foi aumentando, a cada dia que passava.
Vão casar no próximo sábado e estão nervosos, como qualquer casal prestes a dar o nó.
Emily é professora de Português e de Matemática da 6° e 7° série, ela ama o que faz.
Tem os olhos castanhos como a irmã Mia, mas os cabelos são cor de avelã e são pelos ombros.
Jason é um bancário muito respeitado, tem apenas vinte e nove anos, mas é de uma inteligência acima da média.
São o casal perfeito.
— A minha mãe não consegue deixar a Mia em paz. — Ela diz, deitada no peito de Jason depois de fazerem amor.
— Não me digas que a voltou a chamar de encalhada! — ele pergunta com um sorriso no rosto.
— E não é que chamou mesmo! Não entendo para quê tanta implicância, e se ela não quiser casar? Parece que é uma obrigação, que parvoíce. — Ela fala chateada.
— Também acho, mas sabes qual é o problema maior? Já terem percebido, o quanto a Mia fica incomodada com esse assunto. Então vão andar sempre a falar no mesmo.
Emily suspira,
— Gostava que ela arranjasse um bom homem, mas como este mundo anda, acho que vai ser impossível. — diz fazendo uma careta.
— Nada é impossível meu amor, quem sabe ela não arranja alguém mais depressa do que se imagina! Não vale a pena forçar, acredito que o príncipe dela está aí bem perto, tu vais ver.
Ele sorri, com aquele sorriso tão bonito.
— Quem era eu, sem os teus sábios conselhos.
Beija-o com vontade e ele retribui.
Sentado no Café
Narrado por Elijah
Há três dias seguidos que venho a este café, e cada vez que saio do mesmo, pergunto a mim mesmo, que merda venho eu aqui fazer! Quer dizer, o café é bom, o atendimento nota 10, mas sinto que venho aqui fazer algo mais.
Não fico sentado de costas para o povo e a olhar feito estátua para a rua, não, agora fico de costas para a rua e virado para esse povo aí.
Fico besta com a quantidade de pessoas que bebem café, santo Deus, devem chegar a um ponto em que têm que ir a correr para esvaziar a bexiga, assim como eu.
Olho para o balcão, mas não vejo a mulher poderosa que vi aqui, há três manhãs atrás.
Mas que porra, que me interessa a mim a mulher que vi naquela manhã? Devo estar a ficar louco.
Mas a imagem dela a dar um murraço nas fuças daquele mané faz-me rir até hoje, kkk, ele agarrado ao nariz a sangrar feito um porco, foi hilário.
Coloco a minha carranca e saio, que merda, porque estou eu aqui feito besta a pensar numa coisa que não me diz sequer respeito?
Entro no carro e arranco para o Hotel.
Estaciono no parque, entro no elevador e carrego no piso 0.
O piso 0 do Hotel tem um hall de perder de vista, várias áreas de descanso aqui e ali, onde os hóspedes se podem sentar para conviver ou apenas para ler, descansar ou apenas ver as vistas.
A recepção é enorme e tem três balcões, onde o atendimento é de puro profissionalismo. Neste mesmo piso, temos dois restaurantes com capacidade para 50 pessoas cada um. Por trás da recepção, fica a zona dos trabalhadores, onde tem os escritórios, os balneários, a cozinha e o refeitório. No piso 1 tem mais dois restaurantes, mas estes já têm uma capacidade maior, 300 pessoas cada, mas quando há festas maiores podemos perfeitamente juntar as salas e fica um salão com capacidade para 600 pessoas. No Piso 2, piscina interior, sauna, ginásio, aulas de dança, biblioteca, enfim, o piso do descanso e lazer. Depois temos nos pisos para cima, que vai até ao décimo quinto andar, os quartos, grandes e luxuosos. No décimo sexto andar há quatro coberturas com tudo, como se fossem apartamentos. Um hotel de luxo, com capacidade para 800 pessoas.
O meu pai conseguiu tudo isto, na força da sua inteligência, do seu esforço. Foram muitas noites fora de casa, e realmente para nos dar uma vida de luxo deu pouca atenção à minha mãe, ela nunca reclamou, e ajudava o meu pai sempre que podia, sempre que ele pedia. O meu pai teve muita sorte com a mulher que arranjou.
Já eu, nem acredito que algum dia vou conseguir amar alguém outra vez.
É no meio destes pensamentos, que encontro o meu pai no meio do corredor.
— Bom dia, pai! — o cumprimento.
Ainda estou chateado com a conversa dele, já passou quatro dias e continuo tão ou mais furioso que naquele dia que ele largou aquela confusão na minha cabeça.
— Bom dia, filho! — ele me cumprimenta de volta — Está tudo bem?
Ele pergunta, como se não soubesse que não, não está tudo bem, está tudo péssimo, tudo uma merda.
Mudo de conversa.
— Os marroquinos chegam hoje, preciso de ir verificar se está tudo certo para quando chegarem.
Vou falando e vou andando, não me apetece conversas, mas ele vem logo atrás de mim.
— O teu fato veio ontem, viste?
Que subtil, também ele a mudar a conversa.
— Sim, vi. — digo apenas.
— Saímos às duas da tarde de casa, não te esqueças! — ele me lembra.
— Sim, eu sei, mas eu levo o meu carro.
O meu pai pára de repente.
— E porquê? Pensei que viesses comigo e com a tua mãe!
— Não, pai, não penso lá ficar muito tempo, por isso levo o meu carro. Quando quiser vir embora venho e pronto.
— Tu, vê lá se não fazes desfeita ao teu primo, vocês dão-se tão bem! — ele me adverte.
— E o que uma coisa tem a ver com a outra, ele nem vai dar pela minha falta se eu sair mais cedo. — digo já sem paciência — Agora tenho que ir pai, até logo.
Apresso o passo, na esperança que ele não venha atrás de mim, e graças a Deus, ele não vem.
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