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Capa do romance Carpe Diem: Viva Intensamente

Carpe Diem: Viva Intensamente

Marcelo, aos 30 anos, vê seu casamento e futuro desmoronarem após uma confissão inesperada da noiva. Tomado pelo desespero, ele decide encerrar a própria vida no topo do Edifício W. Zarzur. Contudo, um encontro imprevisto altera seu destino trágico no último instante. Agora, ele precisará enfrentar sua dor para descobrir uma lição valiosa sobre a existência. Acompanhe essa jornada emocionante de superação e redescubra o sentido de viver intensamente.
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Capítulo 2

O palácio W. Zarzur possui 170 metros, o equivalente a 51 andares, o maior prédio de São Paulo. Por que estou dando essa informação? Porque foi ele que eu escolhi entre muitos para me jogar, ou melhor, dar fim à minha vida. Como estou perto do meu fim, vou confessar que não foi o tamanho do edifício que definiu a minha escolha, mas o fato dele ter uma vaga bem na frente para eu estacionar o Porshe, com segurança.

Entro no prédio determinado a subir todos os 51 andares de escada. Desejo sentir uma dor maior do que eu sinto agora. Subo tranquilamente os cinco primeiros andares, sem nenhum segurança perguntando aonde vou. Então percebo que estou vestido como se trabalhasse ali, o que justifica a falta deles, ou então estou destinado a pôr fim na minha vida naquele prédio. No sexto andar percebo que a dor em minhas pernas chega a ser maior que a que sinto em meu peito, então paro e espero o elevador.

Por lógica, o elevador está cheio, o que me faz perceber que meu corpo magro foi feito justamente para esse momento. Vou para o painel e sinto todos me observando, o que me faz sentir medo de apertar o terraço, então aperto o 51. Paro ao lado de uma senhora que me encara, não sei qual é o problema dela, mas é como se ela enxergasse a minha alma e o meu propósito para aquele dia.

Um por um, as pessoas vão descendo em seus andares, ficando somente eu e a velhinha encaradora. Estamos no andar 40 e ela continua lá, me encarando. Dou um sorriso amarelo no andar 47 e ela me encara com desprezo. Tudo bem, não queria ter qualquer vínculo com ela mesmo. Chegamos ao 51 e a porta se abre, olho para ela que continua me encarando.

— Chegamos - digo apontando para a porta. —As damas, primeiro.

Ela fecha os olhos, tenho quase certeza que ela vai soltar um raio desintegrador, quando a velhinha caminha para fora do elevador. Saio logo em seguida, indo em direção as escadas. Já estou sentindo minhas pernas soltarem do meu corpo quando chego à porta que dá ao terraço. Consigo abri-la com dificuldade, encontrando belo dia que está fazendo.

Não me surpreendo com aquele céu perfeito, eu tinha planejado tudo para ter o casamento perfeito, confesso que exagerei em algumas coisas, mas foi tudo por que achei que fosse me casar uma vez na vida... E para chamar atenção de Carla... Em vão. Ela parece preferir os tipos galinhas como Júlio a românticos como eu.

Eu me aproximo, com cuidado, da beirada. A vista lá de baixo é... Nossa, sinto minha cabeça rodopiar, quase antecipo minha queda, então seguro na barra de proteção. Respiro fundo e decido que não irei olhar para baixo, vou apenas pular e fim, um plano perfeito. Afasto- me da beirada, acho mais fácil correr e pular , como se fosse uma piscina , só que sem água... Sem água... Sem água... Não pense nisso... Não pense que o único líquido que terá lá embaixo é o seu sangue saindo por todos os meus orifícios...

Afasto da borda a uma distância suficiente para pular. Fecho meus olhos e forço minhas pernas a correrem, então me lembro de que tem a barra e paro de correr bem perto dela, me obrigando a segurar nela.

Tento mais uma vez, agora ciente da barra e mais distante, tenho de pular aquele obstáculo então preciso de mais impulso. Após pular, Adeus mundo. Respiro fundo e corro em direção à beirada.

—Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh- grito enquanto corro, dizem que gritar ajuda a tomar coragem.

Vejo que estou perto de alcançar meu objetivo, já sinto minhas pernas saltarem a barra, então por algum motivo, olho para o lado e vejo uma jovem de não mais de 25 anos acenando para mim, com um sorriso nos lábios, então percebo que não estou sozinho no terraço. Minhas pernas param de correr, jogando meu corpo destrambelhado em direção à barra que quase entra em meu estômago.

—Oi... Moço - cumprimenta a jovem se aproximando Seus cabelos castanhos comprido balançam com o vento, os castanhos me encaram com uma intensidade que nunca senti antes. Ela segura seu vestido vermelho e continua - Será que dá para você esperar um pouco, estou tentando ter meus minutos finais aqui e gostaria que a plateia se focasse em mim. Depois você pula ok?

No começo acho que é algum tipo de brincadeira, até que ela pula a barra de proteção ficando na beirada do prédio, segurando apenas na barra. Ela fecha os olhos e se solta calmamente, colocando seu corpo para frente.

***

Podem me chamar de super Homem, Flash, Mercúrio ou qualquer outro super-herói que tenha super velocidade, mas o fato é que eu corri até a beirada e salvei a mocinha em perigo, sendo condecorado pela polícia do estado de São Paulo e... Não, isso não é verdade.

A verdade é que eu fiquei paralisado diante as ações daquela garota: Ela pulou a barra de proteção ficando na beirada do prédio, segurando apenas na barra. Depois ela fechou os olhos e solta à barra calmamente, colocando seu corpo para frente. Não esperava que ela fosse ter coragem de fazer aquilo e a única coisa que consegui fazer foi:

POR FAVOR, NÃO PULE!- grito, enquanto me encolho e fecho meus olhos para não ver a cena.

—Tudo bem - escuto a jovem dizer. Abro meus olhos e ela está saltando a barra de proteção, voltando para o terraço.

Ela caminha em minha direção com um sorriso nos lábios. Nem parece a mesma garota que estava determinada a saltar 51 andares. Ela estende sua mão para mim, incrível como seus olhos são tão castanhos, quase âmbar...

—Parados! Fiquem calmos e... Não se mexam! - diz o bombeiro, nervoso, da porta do terraço. Ele está acompanhado de um policial, um jornalista e de um câmera man que está filmando a gente. — Agora me respondam: O que vocês estão fazendo nesse terraço?

—Olá... Senhor. Desculpe pelo transtorno é que eu vi esse rapaz tentando se matar e então decidi salvá-lo. Ele está bem transtornado, então seria interessante você ajudá-lo - mente a garota descaradamente.

— Fique parado aí - ordena o bombeiro me encarando como se eu fosse um terrorista.

Percebo que a jovem se afasta, devagar, em direção ao lado em que estava antes. Pega uma mochila e vai caminhando em direção à saída. Eu aponto em direção a ela e foi como se eu os tivessem chamado , correm em minha direção, me cercando e de um jeito que eu só consigo enxergar seu rosto me olhando de relance. Todos me enchem de perguntas, mas a única resposta que quero é para onde ela está indo. Os próximos momentos, recomendo que ninguém reproduza, ainda mais com alguém que tem autoridade para te prender por desacato...

Em um acesso de desespero, empurrei o policial na minha frente, eu sei que é errado , mas se não o fizesse , perderia a chance de ir atrás daquela garota. Por que ir atrás dela? Não sei a resposta, mas fui. Corri em direção à porta, enquanto os outros tentam ajudar o policial caído. Olho para o elevador e percebo que ele ainda está fechado, então corro para as escadas. Definitivamente, descer as escadas é bem mais fácil que subir. Não sei quantos andares eu desci e em quantos olhei para ver se a encontrava... Meus pulmões já pedem socorro, quando vejo um vestido vermelho entrando no elevador. Dou a última corrida até lá e coloco meu braço, impedindo que ele se feche. Então olho e sorrio: Ela , por incrível que pareça , sorri de volta e diz:

—Por que demorou tanto?

— Desculpa, tive um imprevisto com o policial - respondo entrando no elevador. Percebo que ela não apertou nenhum andar e pergunto — Você não vai apertar...?

— Aperte o 28, por gentileza - pede enigmática.

—Você sabe que é o próximo andar, né? - pergunto olhando pra ela enquanto aperto o andar.

—Sim... E sei também que tem um policial alucinado atrás de você e não quero ser presa junto com você dentro do elevador.

— Oh, Meu Deus! - digo me recordando desse detalhe — Estou frito!

— Você o derrubou? - pergunta, sorrindo.

—Sim. - respondo desnorteado.

— Um... Desacato a uma autoridade, você está encrencado, parceiro - diz achando graça da situação. O elevador para no andar e ela desce. Ela dá um adeus de costas.

Eu começo a sentir falta de ar e sem pensar desço do elevador, indo atrás dela. Não sei se ela notou minha presença de cara, mas ela riu quando me viu ao lado dela. Com certeza eu devo estar com uma cara de cachorro abandonado.

— Precisamos trocar de roupa - avisa, me puxando pelo braço.

Ela me conduz pelas salas do andar, até encontrar um banheiro feminino, onde entramos. Ela verifica cada uma das cabines e me empurra em uma delas, enquanto tira uma muda de roupas masculinas, (quem anda com roupas masculinas na mochila?) e me entrega. Sem esperar meu agradecimento, entra na cabine e fecha a porta. Sem cerimônia, ela tira o vestido, ficando somente de calcinha e sutiã, pretos e de rendas. Por alguns instantes eu cheguei a crer que morri e fui pro céu, ou talvez pro inferno e aquela fosse a minha punição: ver uma mulher trocar de roupa na minha frente.

— Precisa de ajuda? - pergunta olhando para mim, séria. Tá na cara que eu estava babando nela. Eu balancei a cabeça negativamente e me virei. O que os olhos não vêem o coração não sente.

Como mágica, as roupas serviram perfeitamente em mim. Então me viro e a garota tinha colocado os cabelos dentro de um boné azul, veste uma camiseta branca e calça jeans surrada.

—Suas roupas - pede com a mão estendida. Eu prontamente entrego e ela coloca em sua mochila. —Vamos.

Ela abre a porta e nos deparamos com duas senhoras olhando para a nossa cabine. Ao que parece, elas irritaram a garota suicida a ponto dela dizer:

—O que é? Nunca viram um casal transando em um banheiro, não?

Ela me puxa, mais uma vez, me tirando do banheiro. Antes de sairmos, olho para as senhoras e sussurro:

—Desculpem-me.

Ela caminha tapando seu rosto até chegarmos à porta de emergência , onde me empurra , forçando que eu entre. Ela observa o corredor para ver se não fomos seguidos e olham pra mim, aqueles olhos castanhos me amedrontam e me empurra contra parede, dizendo:

—Seguinte, se fizermos exatamente como eu planejei , sairemos daqui sem sermos pegos. Agora, se você não seguir o plano, o deixarei para trás e farei questão de ligar pra polícia de denunciando você! Então o que vai querer?

—Seguir... Você... Sem dúvida seguir você. - gaguejo, nossa ela sabe amedrontar.

—Ótimo - diz me soltando. Ela respira fundo e continua - Nós vamos agir da seguinte forma: Um andar de elevador, dois de escada e dez minutos em um andar impar. Depois, dois andares de elevador, três de escada e cinco minutos em um andar par. Em seguida, três andares de elevador, quatro de escadas e dez minutos em um andar impar. Quatro andares de elevador, cinco de escadas e cinco minutos em um andar par. E depois...

—Cinco andares de elevador, seis andares de escadas e dez minutos em um andar impar - respondo apressado.

—Você sabe que faltam somente 27 andares, né?- questiona a garota com uma cara de quem está falando com um retardado - Dois andares de elevador e o último de escada. Depois é cada um pro seu canto.

—Certo - digo, mas ela nem parece escutar, já que está andando em direção ao elevador.

Entro no elevador e fico ao seu lado, ela não parece se importar muito. Mas devo admitir que me incomoda andar com as pessoas e nem se quer saber o nome delas... Ainda mais com aquelas que dividi uma cabine no banheiro feminino.

— Posso te fazer uma pergunta? - pergunto, me segurando para não bater em minha cabeça.

—Você já fez - ela responde, olhando pra mim.

—Não... Não essa. Posso?

—Fez outra. - diz, rindo.

—Qual é o seu nome?

—Que importância isso tem agora? - responde com outra pergunta.

—Pra você pode não ser importante, mas pra mim sim. Eu não sei se você acredita em destino, mas ele nos uniu hoje com uma coisa em comum: o terraço, a tentativa de suicídio e depois a fuga da polícia...

— Blá - blá - blá... – interrompe revirando os olhos — Na verdade você está mais para um cara em busca de atenção do que para um suicida em si e eu não estou fugindo da polícia, só estou ajudando você. E em troca tenho direito de não falar o meu nome para você.

— A gente dividiu a cabine do banheiro - argumento. Não que seja um argumento válido , mas não deixa de ser um... — Rolou algo, a gente está em sintonia e você não pode negar isso.

—Alguém já disse que você fala demais? - pergunta bufando. Ela olha para o painel e continua — Fale menos se concentre no plano.

—Eu posso tentar, mas será meio difícil me concentrar sem saber seu nome. E respondendo sua pergunta: Já me falaram que eu sou tagarela. E posso falar bem mais do que isso , se eu quiser - ameaço , estalando os dedos.

— Que nome acha que eu tenho?- ela pergunta me encarando.

—Como assim? - pergunto, sem entender. Como eu vou saber qual é o nome dela?

—Diga um nome, chute. Que nome você acredita que eu tenho? Uma pergunta bem simples - diz, virando para a porta.

— Eva. - digo , rapidamente. Não tenho ideia do motivo pelo qual escolhi aquele nome, mas a possibilidade de ser por conta da bíblia é bem alta.

— Tem certeza? - ela pergunta, quase fechando os olhos.

—Sim. Acertei?

—Sim, meu nome é Eva - responde. Ela se vira e a porta do elevador se abre.

Seguimos o plano dela à risca: um andar de elevador, dois de escada e dez minutos em um andar impar. Depois, dois andares de elevador, três de escada e cinco minutos em um andar par. Em seguida, três andares de elevador, quatro de escadas e dez minutos em um andar impar. Quatro andares de elevador, cinco de escadas e cinco minutos em um andar par... O silêncio se mantém até o térreo, nós caminhamos calmos pelo saguão do prédio. Há vários repórteres, pessoas curiosas, policiais e bombeiros, mas conseguimos sair, ilesos. Paramos em frente ao porshe e ela se vira, séria.

— Adeus, Odin - despede-se Eva, estendendo a mão em minha direção. — Agora é cada um por si.

— Adeus... Mas o meu nome não é Odin... - corrijo. Seus dedos tocam meus lábios me impedindo de falar o meu verdadeiro nome.

— Shhh... Pra mim você é Odin - explica Eva, enigmática. Ela tira seus dedos lentamente da minha boca e caminha de costas até se virar e seguir o fluxo da rua.

Eu fico parado por alguns instantes tentando processar tudo o que havia acontecido. Quero encontrar alguma lógica em tudo isso, mas a única certeza que tenho é que preciso segui-la, pois ela ficou com as chaves do porshe. Corro em sua direção e a alcanço, puxando pelo braço. Ela me olha, assustada.

-—Ei, você ficou com as chaves do meu carro - explico. Aponto para o porshe e digo - Aquele porshe é meu e você está com a chave dele.

— Você tem um porshe? - pergunta incrédula. - Okay e eu sou Xena, a princesa guerreira.

— Por um dia... Eu o aluguei por que ia me casar... Mas ela engravidou do meu melhor amigo e decidiu me contar hoje, em nosso casamento...

—Espera , espera , espera um pouco aí - diz Eva, apontando o dedo em minha direção —Você está querendo me dizer que você alugou um porshe?

—Sim, só por hoje - respondo.

— E é aquele porshe? - pergunta apontando para o carro.

-Sim...?

—Nossa... -ela exclama andando em direção ao carro. Caminho ao seu lado. Estou com um mau pressentimento por ter dito a ela sobre o porshe, mas agora já é tarde demais. Ela vai para o lado do motorista e diz — Você a ama mesmo.

— Amava... Eu ia me matar por ela, na verdade... Não por ela, mas pelo o que ela fez... Eles fizeram...

Ela fica séria e depois brava, parece que em algum momento falei mal a mãe dela e não percebi.

— Você ia se matar por isso? Mesmo? Você ia se jogar de 51 andares só porque uma garota te traiu? - pergunta Eva, revoltada. A forma como ela diz faz o meu motivo parecer tão sem importância.

— Sim - respondo inseguro.

— Cara, você é muito carente - diz Eva abrindo a porta do Porshe.

—Tá, então me diz qual é o seu motivo para tentar se matar naquele prédio?

— Por que quer saber? - pergunta, arqueando a sobrancelha.

—Porque eu quero saber qual o nível de motivo se deve ter para se jogar desse prédio. - respondo, sendo irônico.

—E quem foi que disse que eu ia me matar?

— Ah... Você ia se jogar...

—Não, não ia. - responde séria. Ela entra no porshe, o liga e então diz — Entra aí.

— O quê? - pergunto entrando no carro. Quando foi que ficou decidido que ela iria dirigir? — O que está fazendo?

—Dirigindo - responde Eva, altiva.

Ela sai com o porshe do acostamento, sem nem olhar se vinha carro, quase causando um acidente. Aquele não foi o único quase, tivemos pelo menos seis quase acidentes até pararmos no sinal vermelho. Estamos parados esperando o sinal ficar da cor que eu estava no momento. Eva olha para mim e pergunta, despreocupada:

—Você está bem?

—Não! - grito, nervoso. Olho para ela e pergunto — Para onde estamos indo?

— Bom, estamos indo para o melhor do pior dia da sua vida.

— O quê? - pergunto sem entender o que ela quis dizer com aquilo.

— Segure - alerta acelerando o porshe e correndo assim que o sinal abre.

E assim começou o melhor pior dia... Oh, Deus, de novo não!

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