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Carpe Diem: Viva Intensamente

Marcelo, aos 30 anos, vê seu casamento e futuro desmoronarem após uma confissão inesperada da noiva. Tomado pelo desespero, ele decide encerrar a própria vida no topo do Edifício W. Zarzur. Contudo, um encontro imprevisto altera seu destino trágico no último instante. Agora, ele precisará enfrentar sua dor para descobrir uma lição valiosa sobre a existência. Acompanhe essa jornada emocionante de superação e redescubra o sentido de viver intensamente.
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Capítulo 3

Esse é o nome, irônico, do local onde Eva estaciona o porshe. Eu desço olhando para a fachada toda preta, com a certeza absoluta que meu dia não iria acabar bem. Eu morei a minha vida toda em São Paulo e não tenho ideia de onde estou. Era como se a Eva tivesse corrido tanto com o porshe que ela ultrapassou a velocidade da luz e nos levou para outra dimensão, onde um bar de rock tem o nome de Fofinho.

As portas estão fechadas o que é bem lógico, já que estamos em plena tarde de sábado. Lugares como esse geralmente começam sua agitação à noite, assim como os morcegos.

—Uma pena - digo, disfarçando minha felicidade ao constatar óbvio - Acho que teremos de ir embora...

Eva solta um sorriso malicioso em minha direção, então caminha serena até a porta menor e bate devagar, como se fosse um código secreto daquela sociedade secreta com nome de Fofinho. Ela se afasta me olhando, enigmática. Em poucos minutos a portinhola se abre um cara surge.

Ele é enorme, careca com roupa de motoqueiro que só de me olhar, faria correr. Mas Eva não parece nenhum pouco intimidada com ele que sorri para ela e a puxa contra seu corpo. Se Eva contava comigo para protegê-la, havia acabado de descobrir que eu sou mais o tipo de ser salvo do que de salvar.

—Roberta! - diz o big cara abraçando Eva. O estranho é que parece que ele está emocionado com a presença dela.

—Oi, Alf - diz Eva ou Roberta, seja lá qual é o nome dela. Ela bate delicadamente naquele braço maior que as minhas duas pernas juntas e pergunta — Como você está?

—Estou bem - responde Alf, passando a mão no rosto. Ele está chorando? . Parece que ele leu meus pensamentos, pois me encarou bravo enquanto solta Eva, perguntando— E quem é o frangote?

—Esse é o Odin - apresenta Eva segurando em meu braço. Ela sorri e continua — Ele é um cara com muitos problemas e que se contasse sua história, faria até o John chorar.

— Ah, essa eu quero ver - responde Alf, dando passagem para gente entrar pela portinhola. Não dá para entender, como ele conseguiu passar por aquele espaço tão minúsculo.

Dentro do estabelecimento de nome duvidoso é pura escuridão. Está tão breu que não tenho ideia nem de onde está o meu próprio corpo, piso algumas vezes no pé de Eva/ Roberta, que esbraveja me xingando com todos os clássicos palavrões. Depois de alguns metros, surge uma luz vermelha. Caminho seguindo aquela luz, minha guia. Estou tão concentrado que nem noto a escada a minha frente... E o que acontece a seguir é uma sequência de braço, costelas, pernas, barriga, rosto e muita... Muita dor.

Levanto com a cara mais sem graça do mundo e percebo que dentro do Fofinho não tem caras tão fofinhos. A maioria segue a linha do Alf, mas tem uns que seguem mais o estilo Ozzy Osbourne de ser. Posso jurar que tem um cara que está com o morcego na mão, mas é meio difícil ter certeza com aquelas luzes piscando.

Aceno para eles e continuo caminhando atrás do Alf, ou pelo menos achei que fosse. Ledo engano, o cara se virou e de Alf só tinha o branco dos olhos e talvez a intensidade do punho. Decido então procurar algum lugar para sentar e então sinto uma mão tocar meu ombro. Eu com toda a minha coragem, me virei e disse:

— Por favor, não me machuque!- imploro com meus olhos fechados, me encolhendo o máximo que meu corpo magrelo e dolorido permite.

—Ok, Odin. - diz Eva/ Roberta. Eu abro meus olhos e surge seu rosto, noto que agora ela está com uma jaqueta de couro e com dois copos: um de chope e um copo enorme de uma bebida verde indefinida.

— O que é isso? - pergunto apontando para a bebida verde.

— Anti- inflamatório, antitérmico, anti - dor-de-corno e anti qualquer coisa que você precisar combater - diz Eva/Roberta olhando para o copo. Ela o estende em minha direção — E no final dele tem a felicidade. Beba.

— Não - digo balançando a cabeça. Pelas minhas contas devem ser umas duas horas da tarde, quem bebe nesse horário? — Não acha que está muito cedo para começarmos a beber?

—E desde quando há horário para beber? - questiona Eva, me olhando como se eu fosse um tolo. Talvez eu fosse mesmo um tolo, mas sou um tolo consciente e não colocarei aquilo na minha boca. Ela bebe o seu chope de uma só vez e diz — Se quer esquecer a sua noiva, seu antídoto está aqui.

Encaro aquele copo como se fosse o Santo Graal. Pego da mão delicada de Eva/Roberta que sorri com minha decisão.

—Talvez só um gole não faça tanto estrago... - digo bebendo um gole. O gosto é horrível, parecia xixi de gambá (não me pergunte como seu sei, apenas sei) — Eca!

— Deixa de ser frouxo, depois do segundo gole sua língua amortece e começa a fazer efeito - garante Eva/ Roberta.

Eu sei que muitos irão questionar como posso confiar em alguém que tem dois nomes, mas confiei e você também confia. Afinal quem aqui não tem uma amiga com nome de Ana Paula ou um amigo chamado José Paulo que atire a primeira pedra.

***

Meu precioso... Bebiiiiiiiiiida verde com gosto de xiiiiiixiii de gambá que o... O... Como é mesmo nome do bar?... Gordinho... Carinhoso... Sei lá o nome do bar... É a meeeeeeeelhor bebida ever... ever...ever...ever.... Mais ever que o meu amoooooooor pela vagaaaaabundaaa da Carlaaa... Sim aquela que nãoooo é Renataaa... Mas é uma ingrataaaaa... Carla ingrataaaa... Trocou meu coração por uma ilusão... lá lá.... Música CELTAAAA!!!!!! Amooo... Safonaa... agora aquele instrumento estranho que só os homens que usam kilt... Ahhhh... Gaita escocesa... uhuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!Viva a Escócia!

Eva/Roberta está vindo... Ela é tão linda... Puxa-me para dançar... Estamos girando... Giraaaando... Giraaaaaaaaaaaaando... Giraaaaaaaaaaaaando... Giraaaaaaaaaaaaaaaaando... O bar todo está giraaaaaaaaaaaaando... Meu estômago está girando... Está voltando... Está tudo voltando... Cadeira... Dá-me uma cadeira... Não tem cadeira no bar... Não tem cadeira no bar...

— Vou buscar uma bebida pra você.

Isso vá lá... Sua duas caras... Bar bonito... Cor de gosto duvidoooooooso... Shhhhhhhhh Marcelo... Ops Odin... Meu nome é Odiiiiinn... Olha só quem apareceu... O líquido precioooooooooso... Meu líquido preciosooo... Ever... ever.... Aquela ingrataaa... Safadaaa... Miserável... Vou arrancá-la do meu coração... Mas se eu arrancar aquela bandida... Quem eu ponho no lugar?

— Odin, você está bem?

Eva! Minha pequena Eva... O nosso amor na última astro... Nauta... Não... Está tudo ficando escuro... Luzes... O cara do morcego tá comendo o bichinho... Coitado do morcego... As mãos da Eva são tão macias... Mas ela é muito chata... Para onde está me levando Eva?

— Odin, consegue me ouvir? Vou tirar você daqui.

Não! Leve-me para o paraíso... Preciso colocar você no meu coração... Isso me leve... Olha, uma cadeira de dentista... Melhor cadeira de dentista ever... Ever... Ever... Tão goxxxxxxxxxxxxtosa... Macia... Acho que posso dormir nela... Quero esse coração...

— Odin, você tem certeza?

Claro que eu tenho... Preciso mesmo ir ao dentista... Mesmo dentista tendo a cara do Alf... Até as tatuagens...

— Tire a camiseta.

Nossa... não sabia.... Que para ver o dente do juiz... Tem de tirar a camiseta... Mas tá legal... Voxxxê quem manda... Olha aí aquele aparelhinho ziiiiiiiii ziiiiii... Nossa... Olha o aparelhinho ziiiiiiiii... Ziiiiiiiii... Meu peito tá doendo doutor... Acho que você tá errando... Meus dentes ficando na boca... Olha o aparelhinho ziiiiiiii... Ziiiiii.

***

Dor... Meu corpo irradia dor, provando que aquela história de que uma dor anula outra é mentira. Ainda de olhos fechados, encosto no corpo de Eva/Roberta, encaixe perfeito. Só o cabelo dela na minha boca que me incomoda então sou forçado a abrir os olhos. Ela ainda dorme de costas para mim, pelo menos é o que a minha vista ainda turva me permite enxergar. Espreguiço-me, levanto o edredom e o abaixo logo em seguida com três notícias: uma boa, outra ruim e uma pior ainda.

A boa notícia é que estou vestido, me deixando feliz por não ter transado com o cara gordo que está dormindo nu ao meu lado, que é a notícia ruim. A notícia pior ainda é: Encoxei um cara.

Tento pular da cama inexistente, já que agora vejo que dormi no chão entre dois caras enormes. Olho ao redor tentando entender onde estou, mas só encontro outros caras motoqueiros dormindo. É como se eu tivesse cercado por vários caras com o estilo do buldog do Tom & Jerry. Eu era o Tom, desejando ser o Jerry. Na verdade, se formos levar adiante o Jerry seria a Eva... Que não está aqui! Onde está a Eva? Desespero-me enquanto procuro aquela doida de cabelos castanhos.

— Bom dia, flor do dia - diz Alf surgindo de outro cômodo. Eu realmente preciso dizer que ele está com um avental de florzinhas, não é a melhor imagem para quem acabou de acordar em um lugar desconhecido. Ele vem em minha direção e entrega uma caneca com um líquido preto — Beba.

— O que é isso? - pergunto, apesar de preto, não parece café.

—Sua volta à realidade, coração. - explica Alf jogando a caneca em minhas mãos. Ele se vira ignorando minha tentativa de segurar aquela caneca... Quente... Quente... Quente.

— Obrigado - digo acompanhando Alf até o cômodo que nós conhecemos como cozinha. Bebo um gole daquele líquido horrível, o que me dá coragem para perguntar — Como eu... Eu vim... Como eu vim...

— Como você veio parar no meu apê? - pergunta Alf, pegando uma espátula. Ele ri balançando todo o seu corpo e diz — É uma longa história... Uma boa e longa história...

—Tudo bem... Onde está Eva? - pergunto tentando me concentrar, realmente a realidade está voltando, mas em forma de uma grandiosa ressaca.

— Eva? Quem é Eva? - pergunta Alf jogando os ovos, com casca e tudo, dentro da frigideira que ele só tirou de dentro da pia, sem lavar.

— Eva, ela tem os cabelos castanhos cumpridos, olhos bem castanhos, você a conhece!

— Você está falando da Roberta - diz Alf, sorrindo.

— Sim , essa mesmo- respondo ,lembrando que ele a chama assim — Onde ela está?

-Ela já foi - responde Alf mexendo os ovos dentro da frigideira.

—Como assim já foi? - pergunto colocando a mão na cabeça como é de se esperar, queimando um pouco minha testa com a caneca - —á foi do tipo fui comprar algo para o café, ou já foi do tipo volto para pegar o Marcelo, quer dizer, Odin?

— Do tipo não espere que ela volte - diz Alf. Ele limpa suas mãos no avental e continua — Olha, relaxa a Roberta é assim mesmo, se quiser eu te dou um dinheiro para você pegar um metrô e voltar para casa.

—Obrigado, mas eu estou de carro... - respondo. Alf solta um gemido, segurando o riso. Droga! A chave do carro estava com a Eva, ou melhor, Roberta — Ela foi embora de carro, não é?

— Sim - responde Alf, rindo.

—Certo... Sabe onde ela mora? - pergunto desesperançoso.

— AHAHAHAHAAHAHHAA... Olha Odin, a Roberta é um espírito livre... Provavelmente ela já deve estar em outro estado a essa altura.

—Tudo bem. Eu já esperava que isso fosse acontecer.

—E esse nem é o maior dos seus problemas - diz Alf, misterioso servindo os ovos em um prato.

— O que você quer dizer com isso? Tem mais? - pergunto, preocupado. O que mais de ruim poderia acontecer além de perder um porshe para uma desconhecida.

—Por que você não vai tomar um banho? - sugere Alf.

— Estou fedendo? - pergunto cheirando minhas axilas.

— Não... Mas vai te ajudar a entender que tudo pode piorar em uma manhã de ressaca. - explica Alf indo em direção à porta da cozinha — É a terceira porta à direita.

***

O banheiro é, sem sombra de dúvidas, o pior cômodo daquela casa. Posso definir pela espessura do lodo na pia que ele não é lavado há pelo menos três anos. Se eu jogar qualquer roupa minha naquele chão é capaz dela sofrer mutação e sair andando. Mas tenho de me arriscar. Olho para o que um dia foi um espelho e não enxergo nada de tão sujo. Respiro fundo, tiro minha camiseta, molho com o que acredito ser água e começo a limpar. Aos poucos minha imagem magricela e cheia de hematomas vai aparecendo. Já estou limpando a parte debaixo quando meus olhos se arregalam.

— NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!

Meu grito supersônico acorda todos da casa que vão para a porta do banheiro. Um deles bate na porta e pergunta:

—Odin, está tudo bem?

Estou petrificado, aquilo não pode ser real. Por que eu fui atrás dela? Por que eu entrei no carro? Por que eu decidi me casar? Preciso somente de uma chance para voltar no tempo, só uma...

— Odin , se estiver ouvindo, peço que se afaste da porta, irei arrombar- diz Alf, mas não consigo me mover. Aquela coisa me hipnotizou — Um, dois, três.

Alf entra no banheiro com porta e tudo. Ele olha para mim preocupado, eu estou paralisado. Ele então olha para o meu peito e diz rindo:

— Era disso que eu estava falando.

Eu olho mais uma vez para o espelho e desmaio. No lado esquerdo do meu peito está tatuado o rosto da Eva com seu nome logo embaixo.

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